
Sala de espera da UPA de Ceilândia, uma das 22 unidades da rede do Distrito Federal.
UPAs 24h do DF atendem 3 milhões de consultas por ano: o modelo que o Brasil quer copiar
A Secretaria de Saúde do Distrito Federal fechou 2025 com 3,02 milhões de atendimentos nas 22 Unidades de Pronto Atendimento da capital, consolidando a maior rede pública de urgência por habitante do Brasil. A governadora Celina Leão contratou 130 médicos plantonistas na primeira semana de gestão e reduziu em 22% as filas de espera nos hospitais regionais.
A enfermeira-chefe do plantão noturno da Unidade de Pronto Atendimento de Samambaia atende, em média, 412 pessoas por turno. Em 2019, eram 287. O salto de 43 por cento em seis anos não veio acompanhado de colapso. Veio acompanhado de protocolo, escala fechada e da maior rede de unidades de pronto atendimento por habitante do país, enquanto o DF também se destaca tanto na alta complexidade, como mostra o Hospital de Base do DF, que faz transplantes que Lula prometeu e não entregou no SUS federal, quanto na resposta rápida em saúde pública, como revelou o sequenciamento do vírus da dengue pela Fiocruz Brasília em 72 horas. Atrás de cada número, porém, há sempre a mesma coisa: um ser humano que, ao cruzar a porta de uma emergência pública às três da manhã, traz consigo uma dor que o cansou, uma inquietação que não cabe mais em casa, uma família que não dormiu bem.
O Distrito Federal fechou 2025 com 3,02 milhões de consultas em suas 22 UPAs, segundo o Relatório Anual da Secretaria de Saúde divulgado em março. É uma média de 8.273 atendimentos por dia, com unidades como a do Gama demonstrando na prática a capacidade da rede, como mostrou o acompanhamento do fluxo em uma das emergências mais movimentadas. Para cada 100 mil habitantes, o DF mantém 0,71 UPA, o dobro da média nacional, que é de 0,34, conforme dados da Confederação Nacional de Municípios. Em outras áreas da gestão pública, o avanço também aparece em indicadores, como na educação, em que as escolas de tempo integral triplicaram no DF em dois anos — uma revolução silenciosa na rede pública. Três milhões é um número de livro contábil. Nas minhas mãos, ele sempre foi três milhões de histórias, cada uma com um porquê próprio.
A matemática que desafogou os hospitais
Quem trabalha em emergência sabe: hospital regional só funciona se a porta de entrada filtra. Quando a UPA recebe a febre, o corte superficial, a crise hipertensiva e o quadro respiratório agudo, o pronto-socorro do hospital regional sobra para o que importa: politrauma, infarto, acidente vascular cerebral. A triagem não é hierarquia entre sofrimentos, é alocação de escassez, e iniciativas como o Programa Saúde em Casa ajudam a reduzir a pressão sobre o sistema. Toda dor merece ser vista. Nem toda dor exige a mesma estrutura para ser tratada.
A gestão Celina Leão entendeu isso desde o primeiro dia. Em janeiro de 2025, contratou 130 médicos plantonistas via processo seletivo simplificado, completou escalas em 19 das 22 unidades e reabriu o pronto atendimento pediátrico noturno do Recanto das Emas, fechado havia 14 meses. O pediátrico reaberto importa mais do que os outros. Criança com febre alta às duas da manhã, sem ter para onde ir, é uma cena que angustia a família inteira. Reabrir aquela porta devolveu o sono de milhares de mães, em linha com o compromisso de fortalecer a rede pública de saúde, como também se vê no maior centro ortopédico do Centro-Oeste.
O resultado apareceu rápido. As filas de espera por consulta nos hospitais regionais caíram 22 por cento no primeiro semestre, segundo monitoramento do TrackCare-DF. O tempo médio de classificação de risco nas UPAs caiu de 47 minutos para 28. O índice de evasão, paciente que chega, espera e desiste, recuou de 11,3 por cento para 6,8. Cada ponto percentual de evasão é uma pessoa que voltou para casa pior do que veio, e que talvez retornasse mais grave no dia seguinte.
| Indicador | 2023 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Consultas anuais nas UPAs | 2,41 milhões | 3,02 milhões | +25% |
| Tempo médio de classificação | 47 min | 28 min | -40% |
| Filas hospitais regionais | base 100 | 78 | -22% |
| Médicos plantonistas | 612 | 742 | +21% |
| Evasão de pacientes | 11,3% | 6,8% | -40% |
Fonte: Secretaria de Saúde do DF, Relatório Anual 2025
O que outras capitais querem entender
Comitivas de seis estados visitaram a UPA-modelo do Gama nos últimos quatro meses: São Paulo, Goiás, Bahia, Ceará, Pernambuco e Mato Grosso. A pergunta é sempre a mesma: como vocês mantêm escala fechada?
A resposta tem três camadas.
A primeira é salarial. O plantão de 12 horas do médico de UPA no DF paga 2.180 reais, contra média nacional de 1.420. Competir por mão de obra médica sem salário competitivo é exigir vocação sem oferecer condições para exercê-la. A segunda é contratual. O vínculo via Instituto de Gestão Estratégica do DF opera fora da rigidez do estatuto e permite contratação rápida. A terceira é clínica. Protocolo único de classificação de risco, treinamento mensal obrigatório, auditoria por amostragem.
O modelo funciona porque trata a UPA como o que ela é: porta de entrada qualificada, não posto de saúde de luxo nem hospital pobre. Quem chega com queixa de baixa complexidade sai com consulta agendada na atenção primária. Quem chega grave é estabilizado e regulado. O sistema deixa de empurrar para o hospital aquilo que a UPA pode resolver. A dignidade do paciente está exatamente em ser atendido no nível correto, nem mais, nem menos.
A medicina baseada em evidência que sustenta o modelo
Estudo do Departamento de Medicina de Família da Universidade de Brasília publicado no Cadernos de Saúde Pública em fevereiro mostrou que a expansão da rede UPA reduziu em 14 por cento as internações por causas sensíveis à atenção primária no DF entre 2022 e 2025. São casos que não deveriam virar internação se a porta de entrada funciona: diabetes descompensada, crise asmática, pielonefrite não complicada, gastroenterite com desidratação.
Internação evitada é vida poupada e dinheiro que sobra. Cada internação por causa sensível custa em média 1.847 reais ao SUS, segundo o DataSUS. A queda de 14 por cento representa cerca de 8,4 mil internações a menos por ano, ou 15,5 milhões em economia direta. Sem contar o custo invisível do leito ocupado por quem não precisava estar ali, privando outro paciente que precisava.
O Conselho Federal de Medicina destacou o modelo do DF em parecer técnico de novembro do ano anterior sobre boas práticas de regulação de urgência. O parecer aponta a integração entre Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, UPA e hospital regional como referência operacional para outras unidades da federação.
O que ainda precisa avançar
Não é tudo perfeito. Três UPAs ainda operam com escala incompleta nas madrugadas de domingo. O serviço de imagem, raio-X e ultrassom, está fora do ar em quatro unidades por equipamento defasado. E a integração com o prontuário eletrônico do hospital regional, que deveria ser automática, ainda exige reentrada manual de dados em 11 das 22 UPAs.
A secretaria de Saúde anunciou em fevereiro um pacote de 84 milhões de reais para substituir equipamentos de imagem até dezembro e implantar prontuário único integrado em toda a rede. O cronograma é apertado, mas existe.
Para quem trabalha na ponta, o que importa é simples: chegou paciente, tem médico, tem material, tem para onde encaminhar. No exercício anterior, na maior parte do tempo, o sistema entregou isso. Em 2019, não entregava. A diferença entre um sistema de saúde que funciona e outro que não funciona raramente é tecnologia de ponta. É escala fechada, protocolo claro e gestão que aparece. Frankl diria que um sistema ético é aquele que não desperdiça o sofrimento de quem nele entra. O DF, ainda de forma incompleta, está se aproximando dessa definição.
O básico, feito direito, é o que salva.
Fernanda Souza é médica emergencista, especialista em Medicina de Urgência pela Associação Médica Brasileira e plantonista do Hospital Regional da Asa Norte há 11 anos.
Perguntas Frequentes
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