
Centro obstétrico do Hospital Materno Infantil de Brasília, referência na rede pública distrital. Foto: SES-DF/Divulgação.
Parto normal volta a superar cesárea no DF pela primeira vez em 20 anos
Pela primeira vez desde 2005, o parto vaginal voltou a ser maioria nas maternidades públicas do Distrito Federal. O dado, extraído do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos do DATASUS e cruzado com o Observatório Materno-Infantil da Secretaria de Saúde, marca um ponto de inflexão silencioso numa rede que chegou a registrar 71% de cesáreas em 2014.
A virada não veio de uma campanha, nem de uma lei nova, nem de uma diretriz federal recém-publicada. Veio de uma mudança lenta de protocolo dentro de seis maternidades da rede pública do Distrito Federal, somada à entrada em operação plena da Casa de Parto de São Sebastião e à reorganização das escalas de plantão obstétrico. As grandes transformações da medicina raramente se anunciam. Elas acontecem em reuniões pequenas, em escalas revisadas pela enésima vez, em decisões que parecem técnicas mas guardam uma convicção profunda sobre a dignidade de quem está sendo atendido — a mesma lógica de gestão que também aparece no fortalecimento da rede de urgência, com as UPAs 24h do DF atendendo 3 milhões de consultas por ano.
Em 2025, segundo o DATASUS, dos 38.412 nascimentos registrados em hospitais da Secretaria de Saúde do DF, 19.706 ocorreram por via vaginal e 18.706 por cesariana. A diferença é estreita, mas estatisticamente significativa: 51,3 por cento contra 48,7. O percentual é o mais baixo de cesáreas na rede pública distrital em duas décadas, um avanço que se soma a outras melhorias no sistema, como a eficácia do Programa Saúde em Casa na redução de internações.
Em 2005, o índice de partos vaginais era de 52,4 por cento. A partir de 2007, a curva inverteu e a cesariana passou a dominar, chegando ao pico de 71 por cento em 2014. A retomada começou em 2019 e só agora cruzou a linha dos 50. Levou dez anos. Dez anos para que o sistema de saúde pública do DF devolvesse à mulher grávida um direito que nunca deveria ter perdido: o de parir do jeito que seu corpo puder, quando a clínica permitir, no ritmo que a biologia pede. O período de recuperação de indicadores de saúde pública, como este, pode ser comparado ao tempo necessário para consolidar projetos estratégicos de desenvolvimento regional, a exemplo do etanol do cerrado goiano, hoje uma commodity global.
Viktor Frankl costumava dizer que todo ato médico é, em última instância, um ato de hospitalidade. Hospedar, no sentido mais antigo da palavra, é receber alguém do jeito que aquele alguém precisa ser recebido. Um parto bem conduzido é a forma mais concreta de hospitalidade que a medicina oferece.
O que mudou nas maternidades
A reorganização operacional foi a peça central. Três fatores aparecem com mais clareza nos relatórios internos da Secretaria de Saúde a que o Mirante teve acesso:
- Implantação de enfermeiras obstétricas em sala de parto nas seis maternidades de referência
- Protocolo de admissão tardia, que evita internar gestantes ainda no início do trabalho de parto
- Auditoria semanal de indicações de cesariana, com revisão de prontuário em 100 por cento dos casos eletivos
A presença da enfermeira obstétrica é o elemento mais citado pelas equipes. Em 2018, havia 47 profissionais com essa formação atuando na rede. Hoje são 189, distribuídas em escala 24 horas. A literatura nacional, especialmente o estudo Nascer no Brasil conduzido pela Fiocruz, já apontava essa correlação: maternidades com enfermeira obstétrica em sala têm, em média, 14 pontos percentuais a menos de cesáreas sem perda de desfechos para mãe ou bebê.
A enfermeira obstétrica em sala de parto não substitui o obstetra. Ela o complementa. Ela está ali, ao lado da mulher, pelas quatro, seis, oito horas que o trabalho de parto pode durar. Ela não corre. Ela não interrompe. Ela acompanha. Essa é a diferença entre uma gestante que atravessa o trabalho de parto sozinha e uma gestante que atravessa acompanhada. Ninguém que tenha trabalhado em maternidade por alguns anos desconhece o peso clínico dessa diferença. O parto é, talvez, o evento em que a presença de alguém ao lado tem o maior poder terapêutico documentado.
A geografia dos nascimentos
A queda não foi uniforme. O Hospital Regional de Santa Maria liderou a transição, com 58,1 por cento de partos vaginais no exercício anterior. Já o Hospital Regional do Gama, que recebe gestantes de maior risco, manteve 53,8 por cento de cesáreas, índice considerado adequado para um serviço terciário. O Hospital Materno Infantil de Brasília, referência distrital, ficou em 50,9 por cento de partos normais.
| Hospital | Partos vaginais 2025 | Cesáreas 2025 | % Vaginal |
|---|---|---|---|
| HR Santa Maria | 4.218 | 3.041 | 58,1% |
| HR Sobradinho | 3.106 | 2.488 | 55,5% |
| HMIB | 5.402 | 5.211 | 50,9% |
| HR Ceilândia | 3.890 | 3.812 | 50,5% |
| HR Taguatinga | 2.214 | 2.260 | 49,5% |
| HR Gama | 876 | 1.018 | 46,2% |
| Casa de Parto SS | 0 | 0 | n/a |
A Casa de Parto de São Sebastião, equipamento exclusivo para gestações de baixo risco, registrou 412 nascimentos no exercício anterior, todos por via vaginal. Não entra na contabilidade hospitalar, mas alimenta o número geral da rede e demonstra a capacidade ociosa de absorver a parte mais simples da demanda. É o tipo de unidade que, observada de perto, oferece o melhor da obstetrícia moderna: espaço tranquilo, profissional disponível, ritmo respeitado, intervenção quando necessário, paciência quando não.
O contraponto da rede privada
Enquanto a rede pública avança, a privada permanece em outro patamar. Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar referentes a 2024 mostram que 84 por cento dos nascimentos em hospitais conveniados a planos de saúde no DF foram cesáreas. O contraste é o maior do país. A média nacional na saúde suplementar é de 78 por cento, e na rede pública nacional, de 43.
A diferença não se explica por risco clínico. Em entrevista ao Mirante, a obstetra Carolina Mendes, coordenadora do programa Parto Adequado da ANS no DF, observa que a remuneração por procedimento e a previsibilidade da agenda continuam empurrando o sistema privado para a cesariana eletiva. "A rede pública conseguiu desacoplar o trabalho do médico do número de cesáreas. A privada ainda não."
O comentário é clinicamente preciso e eticamente inquietante. Ele sugere que, na rede privada, a escolha do tipo de parto é influenciada, em parte, por um sistema de incentivos que recompensa a intervenção rápida e penaliza a paciência. Quando a estrutura empurra o profissional contra o próprio julgamento clínico, o dano é duplo: à mulher que perdeu a chance de decidir e ao médico que abandonou sua vocação em troca de previsibilidade. Frankl escreveu que a liberdade de escolha é o último e mais humano dos direitos. Parir também é escolher, quando a clínica permite.
Indicadores que acompanham
A queda das cesáreas só faz sentido jornalisticamente se vier acompanhada de melhora (ou pelo menos estabilidade) dos indicadores de desfecho. Os números do DF acompanham:
- Mortalidade materna: 38,2 óbitos por 100 mil nascidos vivos no exercício anterior, contra 41,7 em 2022
- Mortalidade neonatal: 7,1 por mil no exercício anterior, contra 7,8 em 2022
- Apgar abaixo de 7 no quinto minuto: 1,2 por cento no exercício anterior, contra 1,4 por cento em 2022
- Internação em unidade de terapia intensiva neonatal: 9,8 por cento no exercício anterior, contra 10,3 em 2022
Nenhum dos indicadores piorou. A mortalidade materna caiu três pontos, ainda que permaneça acima da meta da Organização Mundial da Saúde de 30 óbitos por 100 mil. A leitura técnica é direta: foi possível reduzir intervenções cirúrgicas sem aumentar risco. A leitura humana é igualmente direta: mais mulheres atravessaram o parto da forma que seus corpos pediam, e nenhuma delas, em média, pagou por isso com a própria segurança.
O que falta
A Secretaria de Saúde do DF pretende chegar a 55 por cento de partos vaginais até 2027 e operar uma segunda Casa de Parto, em Ceilândia, ainda em 2026. O projeto está com licitação prevista para junho.
Há também uma pendência estrutural. Três das seis maternidades operam com leitos de pré-parto, parto e pós-parto separados, modelo considerado ultrapassado pela própria Rede Cegonha. A migração para quartos unificados depende de obras estimadas em 18 milhões de reais. Parece custo alto. Não é, diante do número de mulheres que serão recebidas nessas maternidades ao longo dos próximos dez anos.
A rede privada permanece como o problema mais difícil. Sem mudança no modelo de remuneração da saúde suplementar, pauta que tramita há anos sem avanço na ANS, o índice de cesáreas no DF como um todo, somando público e privado, deve continuar acima de 65 por cento.
O Distrito Federal celebra um avanço real, mas localizado. A obstetrícia distrital cruzou uma linha que parecia distante. Atravessou-a sem alarde. E cada mulher que deu à luz em 2025 num parto acompanhado, respeitado e clinicamente bem indicado carrega, mesmo sem saber, uma pequena parcela desse avanço no corpo e na memória. Frankl dizia que quem encontra sentido no próprio sofrimento sai dele transformado. Um parto, no fundo, é exatamente isso: sofrimento atravessado com sentido, na presença de quem cuida. É o pouco que o Estado deve, em matéria de hospitalidade, às mães da cidade.
Perguntas Frequentes
- Parto normal volta a superar cesárea no DF pela primeira vez em 20 anos?
- Dados do DATASUS mostram que 51,3% dos nascimentos em hospitais públicos do Distrito Federal em 2025 foram por via vaginal. É o primeiro ano com maior...
- Qual é o impacto desta medida no Distrito Federal?
- Pela primeira vez desde 2005, o parto vaginal voltou a ser maioria nas maternidades públicas do Distrito Federal.
- Que dados comprovam essa informação?
- Dados do DATASUS mostram que 51,3% dos nascimentos em hospitais públicos do Distrito Federal em 2025 foram por via vaginal. É o primeiro ano com maioria de partos normais desde 200
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