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O ensino superior privado no DF cresceu 180% em 15 anos — quem estuda nessas faculdades
Um dado bruto resume a transformação mais silenciosa da última década e meia no Distrito Federal: em 2010, havia oitenta e dois mil estudantes matriculados em instituições privadas de ensino superior no DF. Em 2025, esse número chegou a duzentos e vinte e nove mil, segundo o Censo da Educação Superior mais recente, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais. É crescimento de cento e oitenta por cento em quinze anos. Nenhum setor educacional brasiliense cresceu tanto, em nenhum período.
Em educação brasileira, um número nunca caminha sozinho. Um setor cresce porque outro encolhe. O salto de 180% em matrículas privadas no Distrito Federal entre 2010 e 2025, registrado pelo Censo da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), é resultado direto da combinação de quatro forças mensuráveis: a queda de 11% na oferta de vagas presenciais públicas federais na mesma janela, o avanço de 34% da classe C brasiliense segundo a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios da Codeplan de 2024 — movimento que alimenta também o perfil de alta escolaridade e renda exigido nos aplicativos de relacionamento da capital —, a expansão de 720% do ensino a distância privado autorizado pelo Ministério da Educação e a redução de 42% no custo médio da mensalidade a distância entre 2015 e 2024, de R$ 389 para R$ 226, segundo o Mapa do Ensino Superior 2025 do Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior (Semesp).
Os números em contexto
Antes de qualquer análise, é preciso colocar os números na mesa. O quadro abaixo sintetiza a evolução do ensino superior no Distrito Federal, separando público e privado, presencial e a distância.
Os dados a seguir ilustram o notável crescimento do ensino superior no Distrito Federal, um reflexo do compromisso com a educação que também se manifesta nos avanços do Ideb na educação básica.
| Modalidade | 2010 | 2017 | 2022 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|---|---|
| Privado presencial | 72 mil | 98 mil | 121 mil | 147 mil | mais 104% |
| Privado a distância | 10 mil | 38 mil | 67 mil | 82 mil | mais 720% |
| Público federal (UnB + IFB) | 48 mil | 55 mil | 58 mil | 61 mil | mais 27% |
| Total ensino superior DF | 130 mil | 191 mil | 246 mil | 290 mil | mais 123% |
Dois movimentos saltam aos olhos. O primeiro é o crescimento modesto — 27% — do ensino público federal: de 48 mil para 61 mil matrículas, puxado pela criação de 14 cursos noturnos na Universidade de Brasília entre 2012 e 2018 e pela consolidação do Instituto Federal de Brasília, que hoje opera dez campi segundo a reitoria do IFB. É crescimento importante, mas aritmético, que se insere em um contexto de expansão de outros setores na capital.
O segundo movimento é o salto de 720% do privado a distância, de 10 mil para 82 mil matrículas, conforme microdados do Censo da Educação Superior 2024 do Inep. Sozinho, o ensino a distância privado brasiliense cresceu mais do que o presencial privado e o público federal somados, um indicativo das novas tendências educacionais e das aspirações de uma geração Z que busca empreender e rejeita o concurso público.
Quem é esse novo estudante
O perfil do estudante de faculdade privada no Distrito Federal em 2026 não corresponde ao estereótipo difundido. O cruzamento do Censo da Educação Superior 2024 do Inep com o Painel de Empregabilidade 2025 do Semesp e com a PDAD-Educação 2024 da Codeplan permite um retrato preciso.
Adulto. A idade média ao ingressar em curso presencial privado no DF é de 25,3 anos, contra 19,1 na Universidade de Brasília. No ensino a distância, sobe para 32,4. Longe do jovem recém-saído do ensino médio — em grande parte, trata-se de quem volta a estudar depois de anos fora do sistema.
Trabalhador. Segundo o Semesp, 83% dos matriculados em curso privado presencial no DF trabalham durante o curso. Na modalidade a distância, o percentual chega a 91%. Na Universidade de Brasília, conforme relatório interno do Decanato de Graduação de 2024, apenas 28% dos graduandos estavam empregados formalmente.
Mulher. 59% dos matriculados em curso privado no DF são mulheres, segundo o Inep. Em enfermagem, pedagogia e serviço social, o percentual ultrapassa 75%. Em ciências da computação, engenharia civil e administração, a proporção oscila entre 38% e 48%.
Morador de região administrativa fora do Plano Piloto. A PDAD-Educação 2024 da Codeplan indica que 79% dos estudantes privados residem em Ceilândia (14%), Taguatinga (11%), Águas Claras (10%), Gama (7%), Samambaia (7%), Sobradinho (6%), Recanto das Emas (5%), Santa Maria (5%), Planaltina (4%) ou cidades do entorno goiano (10%). O Plano Piloto, que concentra a Universidade de Brasília, responde por menos de 9% das matrículas privadas.
Os cursos que mais atraem
O Censo identifica os cursos com maior número de matrículas no setor privado do Distrito Federal. A lista não traz surpresas teóricas, mas ajuda a desmontar alguns mitos.
| Curso | Matrículas 2025 | Variação desde 2010 |
|---|---|---|
| Administração | 24 mil | mais 62% |
| Pedagogia | 19 mil | mais 140% |
| Direito | 18 mil | mais 48% |
| Enfermagem | 14 mil | mais 210% |
| Gestão de recursos humanos (tecnólogo) | 12 mil | mais 380% |
| Ciências contábeis | 11 mil | mais 79% |
| Psicologia | 9 mil | mais 112% |
| Engenharia civil | 8 mil | mais 94% |
| Análise e desenvolvimento de sistemas (tecnólogo) | 8 mil | mais 450% |
| Marketing (tecnólogo) | 6 mil | mais 290% |
Dois fatos merecem destaque. O primeiro é a força dos cursos tecnólogos, com duração de dois a três anos. Em 2010, tecnólogos representavam 17% das matrículas privadas no DF, segundo o Censo da Educação Superior. Em 2025, já são 31%. O Cadastro Nacional de Cursos do Ministério da Educação registra 218 cursos tecnólogos ativos no Distrito Federal, contra 97 em 2010.
O segundo é o crescimento de 210% em enfermagem, o dobro da média do setor privado. A Agência Nacional de Saúde Suplementar registra 47 novos hospitais, clínicas e policlínicas privadas autorizadas no DF e entorno entre 2015 e 2025, o que elevou em 38% o número de leitos privados na região, segundo o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) do Ministério da Saúde. A escassez de enfermeiros apontada pelo Conselho Federal de Enfermagem em relatório de 2024 completa o quadro: faltam 68 mil profissionais no país, 2,4 mil deles só no DF.
O resultado em empregabilidade
A pergunta incômoda é sempre a mesma: quem forma em faculdade privada no DF consegue emprego? Os dados são menos otimistas que a propaganda institucional, mas mais otimistas que o ceticismo cultural sugere.
Segundo o Painel de Acompanhamento de Egressos publicado pelo Semesp em 2025, 67% dos formados em curso presencial privado no Distrito Federal estão empregados formalmente 12 meses após a conclusão do curso, medidos pelo cruzamento com a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) do Ministério do Trabalho. No ensino a distância, o percentual cai para 54%. A Universidade de Brasília, segundo dados do mesmo painel cruzados com o Decanato de Graduação, registra 76% no mesmo indicador.
A diferença entre 67% e 76% é significativa, mas precisa ser relativizada por dois fatores. O primeiro é que 61% dos alunos de curso privado no DF já estavam empregados antes de iniciar o curso, conforme a PDAD-Educação 2024 da Codeplan — estudaram para manter o emprego ou conquistar promoção interna. O segundo é que 74% da formação privada no DF concentra-se em carreiras de alta demanda imediata (saúde, tecnologia e administração), segundo o Inep, enquanto a Universidade de Brasília forma proporcionalmente mais egressos em humanidades, ciências básicas e artes, áreas cujo ciclo de inserção é mais longo.
A crítica honesta
Seria desonestidade intelectual celebrar o crescimento do ensino privado no DF sem apontar suas fragilidades. Há três, a meu ver, que merecem registro.
A primeira é a qualidade desigual. Das 68 instituições privadas de ensino superior autorizadas no Distrito Federal pelo Cadastro Nacional do Ministério da Educação, apenas 29 — 42% — possuem Conceito Institucional 4 ou 5 no Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes). A maioria opera com conceito 3, suficiente para autorização, mas abaixo do patamar de excelência. Isso não significa que formam mal — significa que o estudante precisa verificar o conceito do curso antes de matricular-se.
A segunda é o endividamento estudantil. O Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) do Ministério da Educação cobre hoje apenas 18 mil matrículas no DF, contra 42 mil em 2014, segundo o balanço de 2025 do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). O Programa Universidade para Todos (Prouni) atende outras 11 mil. As 200 mil matrículas restantes dependem de crédito privado, parcelamento direto com a instituição ou pagamento integral. A inadimplência estudantil no DF, conforme a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), passou de 9,4% em 2020 para 13,1% em 2025 — aumento de 40% relativo.
A terceira é a concentração de mercado. Três grupos — Yduqs, Cogna e Ânima — detêm 61% das matrículas privadas do Distrito Federal, segundo o Mapa do Ensino Superior 2025 do Semesp. A lógica desse oligopólio pressiona preços para cima e padroniza projetos pedagógicos para reduzir custos operacionais.
O que esses números dizem sobre o Brasil
Brasília é, a seu modo, um laboratório. Capital federal, com renda média acima da nacional. Acesso relativamente maior a crédito estudantil e proximidade com instituições públicas de prestígio, o Distrito Federal oferece condições privilegiadas para observar como o ensino superior privado se expande e se consolida.
O que se vê é claro: a expansão privada é a via pela qual o Brasil tem democratizado — imperfeitamente, irregularmente, por vezes mal — o acesso ao ensino superior. Não há no horizonte plano realista que substitua essa via por ampliação do ensino público na mesma velocidade.
Resta, portanto, a tarefa mais difícil e menos glamorosa: regular bem o que está crescendo, garantir qualidade mínima, proteger o estudante do endividamento e construir pontes entre o certificado e o mercado real de trabalho. Essa agenda, no Distrito Federal como no restante do país, ainda está por fazer.
Perguntas Frequentes
- Quanto cresceu o ensino superior privado no DF em 15 anos?
- O número de matrículas no ensino superior privado do Distrito Federal cresceu 180% entre os anos de 2010 e 2025.
- Por que o ensino privado cresceu tanto no Distrito Federal?
- O crescimento é resultado da queda de 11% nas vagas presenciais públicas federais, do avanço de 34% da classe C na região e da expansão do ensino a distância (EAD).
- O que diz o Censo da Educação Superior sobre o DF?
- Os dados do Censo do Inep mostram que o salto nas matrículas privadas no DF foi diretamente ligado à redução da oferta pública federal e ao aumento do poder aquisitivo da população.
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