
Estudantes da UnB no campus Darcy Ribeiro durante feira de empreendedorismo jovem em março de 2026.
Geração Z no DF: 73% querem empreender, 61% rejeitam concurso público
Brasília sempre foi a capital do concurso público. A geração que está terminando o ensino médio agora pensa diferente: 73% querem abrir o próprio negócio e 61% descartam o concurso como projeto de vida. Os dados são da pesquisa Datafolha-UnB divulgada em março de 2026 com 2.400 jovens brasilienses entre 16 e 26 anos.
Eu cresci ouvindo que ser servidor público era o teto. Que estabilidade era a palavra mais bonita do dicionário. Que passar num federal era ter ganhado na vida.
Meu pai é técnico do Ministério da Economia há 22 anos. Minha mãe é professora da rede pública há 27. Os dois felizes, competentes, parte de uma geração pra quem a estabilidade era o objetivo lógico.
Aí entrei na UnB. E olha, os meus colegas de turma pensam completamente diferente. E agora os números comprovam.
A pesquisa que rasgou o estereótipo
A Datafolha aplicou em fevereiro deste ano, a pedido do Observatório da Juventude da UnB, uma pesquisa com 2.400 jovens do DF entre 16 e 26 anos. Margem de 2 pontos, 95% de confiança, amostragem proporcional por região, sexo, raça e renda.
Os resultados foram divulgados em 18 de março. E contradizem boa parte do que se fala por aí sobre a juventude brasiliense.
É revelador que 73% pretendem abrir o próprio negócio nos próximos cinco anos e 61% descartam concurso público como projeto principal de vida. Além disso, 58% já estão ganhando dinheiro com alguma atividade autônoma — venda online, conteúdo, freelance de design, edição de vídeo, software, conserto de celular, doce, salgado, customização de roupa.
A Geração Z (16-26 anos) se destaca pelo forte desejo de empreender (73%) e pela alta taxa de geração de renda autônoma (58%). Para eles, a prioridade em concursos públicos é menor (28%), e a percepção de estabilidade no empreendedorismo (46%) quase se iguala à do serviço público (41%). Este perfil, que busca autonomia e novas formas de inserção no mercado, pode ser um reflexo de um cenário social em transformação, onde a solidão entre os jovens de Brasília tem se tornado uma preocupação, impulsionando-os a buscar caminhos mais individualizados para o sucesso e a realização pessoal.
Fonte: Datafolha-UnB, Observatório da Juventude DF 2026.
A inversão está na última linha. Pra geração dos pais, empreender é risco. Pra geração dos filhos, empreender é a nova estabilidade.
Eles olham pro concurso — anos estudando, edital incerto, vaga reduzida, salário inicial achatado — e calculam que o risco real tá ali. Não no MEI deles. Tá pegando o ponto?
A capital do concurso muda de roupa
Por décadas, o DF foi sinônimo de cursinho preparatório, apostila Vade Mecum e fila no DETRAN pra pegar a carteira categoria B exigida em edital. Brasília sustentava uma economia inteira em torno do sonho do funcionalismo.
Agora a paisagem mudou.
Em 2025, segundo a Junta Comercial do DF, foram abertas 47.812 microempresas e MEI por jovens com menos de 30 anos no DF. É 38% a mais que em 2023. 71% a mais que em 2020. Pausa nesse número.
O DF tem hoje a segunda maior taxa de empreendedorismo juvenil do país, atrás só de Santa Catarina, segundo o Sebrae.
E o perfil do que eles estão abrindo também mudou. Em um cenário onde a concorrência por vagas no serviço público do DF é notavelmente acirrada, não é mais quitanda de bairro nem oficina de conserto que se vê. É confeitaria gourmet, agência de marketing digital, escola de inglês online, estúdio de tatuagem, marca de roupa autoral, estúdio de gravação pra podcast, consultoria de IA pra pequeno negócio, delivery especializado em comida fitness.
A Geração Z brasiliense não tá abrindo negócio porque é heroica. Tá abrindo porque sacou três coisas.
Um: concurso público encolheu como projeto de vida. Menos vaga, salário inicial mais baixo, anos entre prova e nomeação.
Dois: a internet deixa começar com R$ 200 e um celular.
Três: a rede de apoio existe. E isso é gigante.
O programa que o GDF colocou em pé
A governadora Celina Leão, com a velocidade que marca sua gestão, lançou em abril do ano passado o programa Jovem Empreendedor DF, tocado pela Secretaria de Economia em parceria com Sebrae-DF, BRB e Senai. Em onze meses o programa formou 4.207 jovens entre 18 e 29 anos.
A formação é de 120 horas, gratuita, presencial em sete polos espalhados pelas regiões administrativas. Módulos de gestão financeira, marketing digital, jurídico básico, precificação e plano de negócio.
Quem conclui tem acesso a uma linha de microcrédito do BRB com juros subsidiados pelo GDF. Até R$ 15 mil, taxa efetiva de 0,89% ao mês, carência de seis meses. Na temporada passada, foram liberados R$ 38,4 milhões em microcrédito a egressos do programa.
A inadimplência está em 4,1%. Abaixo da média de mercado pra faixa, que é 7,8%.
| Indicador Jovem Empreendedor DF | 2025 |
|---|---|
| Jovens formados | 4.207 |
| Polos ativos | 7 |
| Microcrédito liberado | R$ 38,4 milhões |
| Negócios abertos por egressos | 2.812 |
| Inadimplência | 4,1% |
| Empregos gerados | 6.140 |
Fonte: Secretaria de Economia do DF, Balanço 2025.
Os 2.812 negócios abertos por egressos geraram 6.140 empregos formais, média de 2,18 vagas por novo CNPJ. Não vira campanha publicitária, mas importa. Cada um desses empregos é uma pessoa que parou de procurar emprego e começou a ter emprego. Isso é macro, amigo.
A ruptura cultural por trás dos números
Tenho 22 anos. Curso jornalismo na UnB, último semestre. Trabalho desde os 17. Já fui babá, vendedora de brigadeiro gourmet via Instagram, redatora freelance, social media de loja de açaí em Águas Claras e estagiária de portal de notícias.
Nunca pensei em fazer concurso. Não porque desprezo quem faz — admiro meus pais e admiro função pública. Mas porque o tempo de espera de uma convocação não bate com o tempo de execução das minhas ideias.
Essa é a equação que a Geração Z tá fazendo no DF. E a Datafolha agora documentou. Não é rebeldia contra o Estado. É outra noção de tempo.
O concurso opera em escala de anos. O negócio próprio, em escala de semana. Pra uma geração que aprendeu programação no YouTube em três meses e abriu loja no Shopee numa tarde, esperar três anos por uma convocação parece eternidade. Entende?
Os pais dessa geração construíram Brasília com a lógica da estabilidade. Os filhos vão construir outra Brasília. A Brasília das pequenas empresas, dos coworkings de Taguatinga, dos estúdios de Águas Claras, dos brechós de Ceilândia, das marcas autorais do Plano Piloto.
Não vai substituir a Brasília do funcionalismo. Vai conviver. E essa convivência é uma das coisas mais saudáveis que pode acontecer com a economia da capital.
O GDF está acertando em apostar nesse movimento. Não tá empurrando ninguém pra fora do serviço público. Tá abrindo a porta de uma sala que estava fechada. É isso que política pública decente faz: amplia caminho.
Da próxima vez que alguém disser que a juventude do DF só pensa em concurso, mostra essa pesquisa. A capital mudou. Os filhos mudaram. E os números, finalmente, mudaram também.
Mariana Oliveira é estudante de Jornalismo da UnB, repórter colaboradora do Mirante News e fundadora da newsletter Geração Cerrado.
Perguntas Frequentes
- A Geração Z no DF ainda quer ser concursada?
- Não, a maioria rejeita concursos públicos. Segundo pesquisa Datafolha com jovens brasilienses, 61% não têm interesse em seguir carreira no serviço público.
- Quantos jovens do DF querem empreender?
- 73% dos jovens da Geração Z no Distrito Federal têm o desejo de empreender, conforme pesquisa encomendada pela UnB.
- Por que a Geração Z rejeita a estabilidade do serviço público?
- A nova geração tem valores diferentes dos pais, que viam a estabilidade como objetivo máximo. Os jovens entrevistados demonstram um pensamento distinto, priorizando o empreendedorismo.
Receba o Mirante no seu email
As principais notícias do dia, curadas por inteligência artificial, direto na sua caixa de entrada.