
Jovens estudantes em frente à Biblioteca Central da UnB: a pesquisa da Codeplan ouviu 1.840 moradores entre 18 e 25 anos das 33 regiões administrativas.
A solidão dos jovens de Brasília: 38% dos 18-25 dizem não ter amigo próximo
Brasília tem uma juventude que cresce conectada a tudo e a quase ninguém. O dado mais duro de uma pesquisa inédita conduzida pela Codeplan em parceria com a PUC-SP, divulgada na última semana, mostra que 38% dos jovens entre 18 e 25 anos do Distrito Federal declaram não ter um único amigo próximo a quem possam recorrer em momentos difíceis. Em 2018, esse índice era de 21%. O salto, em sete anos, é o retrato de uma geração que aprendeu a estar perto de longe — e longe de perto.
Senta aqui que eu preciso te contar uma coisa.
A pesquisa "Juventudes do Distrito Federal 2026", coordenada pela Codeplan em parceria com o Laboratório de Estudos sobre Juventudes da PUC-SP, ouviu entre setembro e dezembro de 2025 um total de 1.840 jovens entre 18 e 25 anos, distribuídos pelas 33 regiões administrativas, revelando o perfil da Geração Z no DF em um contexto em que o servidor federal lotado na capital concentra os maiores salários médios do país. A amostra foi representativa por idade, gênero, renda e região.
O número que mais impressionou os pesquisadores foi o mais simples de medir. Pergunta: "você tem ao menos um amigo próximo, que não seja parente, a quem possa recorrer num momento difícil?"
38% responderam que não. Trinta e oito.
Em 2018, na primeira rodada da pesquisa, era 21%. Em 2022, durante o rebote pós-pandemia, subiu pra 31%. Agora 38%.
A cada quatro anos, mais jovens se descrevem sem ninguém de confiança fora da família. Isso não é curva. Isso é um alerta grande piscando vermelho.
O que mudou em sete anos
Helena Abramo, coordenadora do estudo na PUC-SP, identifica três fatores.
Um: estrutural. A transição da amizade presencial pra digital reduziu a profundidade do vínculo.
Dois: psicológico. A geração que entrou na vida adulta entre 2020 e 2024 viveu a pandemia justamente nos anos de formação dos laços.
Três: socioeconômico. A precarização do trabalho jovem encurtou o tempo de convivência cara a cara.
"Não é que os jovens tenham menos contato. Têm muito mais contato do que qualquer geração anterior. O que eles têm menos é confidência. A diferença entre conhecer alguém e poder ligar pra alguém às três da manhã virou um abismo", diz Abramo. É uma geração que cresce sob pressão constante — a mesma que enfrenta, por exemplo, um concurso público no DF com 1 vaga para cada 620 candidatos —, o que talvez ajude a explicar por que a confidência, e não o contato, tornou-se o bem mais escasso.
Essa frase dela. Para nela. Releia.
Os dados confirmam. O jovem médio do DF segue 412 pessoas nas redes e conversa regularmente por mensageria com 17. Mas quando a pergunta fica específica — "quantas dessas pessoas você convidou pra sua casa nos últimos doze meses?" —, a média cai pra 2,3. Em 2018 era 4,8.
Enquanto a Geração Z no DF demonstra uma notável preferência por empreender e rejeitar o concurso público, dados recentes também revelam uma tendência preocupante em seus vínculos afetivos, conforme detalhado na tabela a seguir:
| Vínculo afetivo (18-25 anos) | 2018 | 2022 | 2025 |
|---|---|---|---|
| Sem amigo próximo (%) | 21 | 31 | 38 |
| Pessoas convidadas pra casa (média) | 4,8 | 3,1 | 2,3 |
| Encontros presenciais semanais | 6,4 | 3,8 | 2,9 |
| Sente-se sozinho frequentemente (%) | 18 | 27 | 34 |
| Tem confidente fora da família (%) | 71 | 58 | 49 |
| Acha que pode contar com alguém em emergência (%) | 84 | 72 | 63 |
Fonte: Codeplan, PUC-SP, "Juventudes do Distrito Federal 2026".
Olha a coluna de 2025 inteira. Toda cai. Todas descendo. Isso não é notícia boa.
A geografia da solidão
Os dados mostram padrão geográfico forte. Regiões com maior proporção de jovens sem amigo próximo: Águas Claras (44%), Sudoeste/Octogonal (42%), Park Way (41%), Lago Sul (40%) e Vicente Pires (39%). O Plano Piloto fica em sexto, com 37%.
Menores taxas: Ceilândia (29%), Samambaia (30%), São Sebastião (31%), Planaltina (32%).
Leu isso? Quanto maior a renda, maior a chance de o jovem se declarar sem confidente. Estatisticamente significativo. Dinheiro, no sentido de vínculo, é trade-off. Aprende rápido.
A pesquisadora Camila Boaventura, da UnB, explica o padrão assim: "Em regiões mais ricas, os jovens crescem em condomínio fechado, escola particular, rotina individualizada de transporte e atividade. A vida coletiva é menor desde a infância. Em Ceilândia ou Samambaia, a rua ainda é palco. O ônibus, a fila do posto, o jogo no campinho. Esses encontros forçados criam vínculo". Essa busca por conexões e vida comunitária também se manifesta no fenômeno do retorno de jovens à missa matinal em Brasília.
Encontro forçado cria vínculo. Guarda essa.
O preço silencioso da solidão
A Organização Mundial da Saúde classificou em 2024 a solidão como questão de saúde pública. Adultos cronicamente sozinhos têm risco 26% maior de mortalidade prematura. Equivale a fumar 15 cigarros por dia.
Entre jovens, a solidão crônica está associada a ansiedade generalizada, depressão e ideação suicida.
No DF, dados do DataSUS mostram que as internações de jovens entre 15 e 24 anos por transtorno depressivo cresceram 47% entre 2020 e 2025. O coeficiente de suicídio entre jovens distritais subiu de 8,1 pra 11,3 por 100 mil habitantes no mesmo período. A média nacional é 7,9.
Não dá pra ler esses números com distanciamento. São vidas.
O que os jovens dizem
A pesquisa teve uma seção qualitativa com 84 entrevistas em profundidade.
Uma estudante de comunicação social de 22 anos, moradora do Sudoeste, descreveu a rotina dela assim: "Eu falo com gente o dia inteiro. Mensagem, story, voz. Mas se eu sumir uma semana, ninguém vai estranhar. Acho que essa é a definição de não ter amigo".
Releu? Esse texto é poesia triste.
Um jovem de 24 anos, técnico de informática em Águas Claras, falou outra coisa dura: "Tenho uns 50 contatos no WhatsApp. Mas pra ir pro hospital de madrugada eu chamo Uber. Nem meu pai eu chamo, porque ele dorme cedo".
Cara, isso é doloroso. Eu leio isso e quero abraçar esse rapaz.
Iniciativas em curso
Diante dos números, a Secretaria da Juventude do DF anunciou em fevereiro o programa "Pontos de Encontro". Meta: criar 22 espaços comunitários de convivência juvenil até o fim de 2026. Salas equipadas em centro cultural, biblioteca e equipamento esportivo, com programação semanal de atividade não competitiva — clube do livro, oficina, jogo de tabuleiro, roda de conversa.
Orçamento inicial de R$ 14 milhões. A avaliação de impacto prevista pra 2027 vai medir não só a frequência aos espaços, mas mudança no número de amigos próximos relatados pelos participantes, usando a mesma metodologia da pesquisa da Codeplan.
Helena Abramo encerra a conversa com a reflexão que deveria tá em letra grande na porta de toda secretaria de juventude do país: "A solidão não é defeito moral, nem sinal de fraqueza. É produto de como a gente organiza as cidades, o trabalho, as escolas e as casas. Se quiser combater, vai ter que repensar todas essas coisas. E a primeira delas é o tempo. A amizade exige tempo presencial sem propósito. E é exatamente disso que essa geração tem menos".
Tempo presencial sem propósito. Essa é a receita.
Se você leu até aqui e se importa com um jovem, qualquer um, chama ele pra um café esse fim de semana. Só isso. Só um café. Esse é o marketing strategy que nenhuma geração nunca vai conseguir automatizar: care. É de graça. E salva vidas.
Perguntas Frequentes
- Qual porcentagem de jovens em Brasília não tem um amigo próximo para ligar em crise?
- 38% dos jovens entre 18 e 25 anos em Brasília não têm um amigo próximo para chamar em uma crise, um aumento significativo comparado a 21% em 2018 e 31% em 2022.
- Qual é a diferença de isolamento entre regiões ricas e pobres no DF?
- Regiões mais ricas têm maior isolamento: Águas Claras 44%, Sudoeste 42%, Park Way 41%, Lago Sul 40%. Regiões periféricas como Ceilândia (29%) e Samambaia (30%) têm índices inferiores.
- Qual é o número médio de contatos regulares de um jovem em Brasília?
- Jovens em Brasília mantêm uma média de 17 contatos regulares por messaging e recebem apenas 2,3 visitas a domicílio por mês, queda significativa dos 4,8 em 2018. O número de seguidores digitais (412) não compensa a qualidade de amizade.
Receba o Mirante no seu email
As principais notícias do dia, curadas por inteligência artificial, direto na sua caixa de entrada.