
Jovens no espaço de coworking do BioTIC Park, em Brasília — o hub de inovação do GDF atrai startups fundadas por sub-30
Geração Z no DF: 73% querem empreender, 61% rejeitam concurso público — a ruptura silenciosa
Levantamento realizado com 2.400 jovens de 18 a 25 anos em 14 regiões administrativas do DF mostra que 73% pretendem empreender nos próximos cinco anos e 61% descartam o concurso público como plano de carreira.
Geração Z no DF: 73% querem empreender, 61% rejeitam concurso público — a ruptura silenciosa
Três gerações, três trajetórias.
Meu avô veio de Minas pra Brasília em 1962 e virou servidor do Ministério da Fazenda. Meu pai fez concurso pro Tribunal de Contas em 1991. Minha mãe é professora da SEEDF desde 1998.
Eu, Mariana, 23 anos, estudante de jornalismo na UnB, nunca abri um edital do Cespe na vida. Nenhum. Nunca.
Não é rebeldia. Não tá tendo mi mi mi. O mundo mudou. E a minha geração percebeu primeiro.
O DF é a capital do concurso. Aqui, "o que você faz?" significa "em que órgão você trabalha?". A cidade inteira foi montada em torno da estabilidade: salário fixo, plano de saúde, aposentadoria. O contrato implícito era: estuda, passa, se aposenta — um modelo seguido por gerações inteiras, incluindo as milhares de mulheres adultas que voltaram à escola no DF justamente para tentar alcançá-lo, mas que a Geração Z no DF parece estar rejeitando.
Minha geração tá rasgando esse contrato. E olha, não é com raiva. É com calma. É com planilha.
Os números
Sebrae-DF, em parceria com Codeplan, aplicou em novembro de 2025 uma pesquisa com 2.400 jovens entre 18 e 25 anos, distribuídos por 14 regiões administrativas. Margem de 2 pontos, 95% de confiança.
Uma pesquisa recente revelou tendências marcantes entre os jovens, com 73% deles expressando a intenção de empreender nos próximos cinco anos. Curiosamente, 61% não consideram o concurso público como um plano de carreira, uma mudança significativa que reflete as novas aspirações dessa geração. Além disso, 68% preferem o trabalho remoto ao presencial, e 54% já venderam produtos ou serviços pela internet, indicando uma forte inclinação para a autonomia e o ambiente digital — tendência que encontra terreno fértil num Distrito Federal cada vez mais conectado, onde iniciativas como o projeto de implantação do 6G em Brasília prometem ampliar ainda mais as oportunidades digitais para essa geração. Quase metade (47%) já possui renda própria fora do emprego formal, e 52% não acreditam que o diploma universitário seja essencial para o sucesso. Esses dados reforçam a percepção de uma ruptura geracional que afasta os jovens do concurso público em favor do empreendedorismo.
Três em cada quatro querem empreender. Seis em cada dez descartam concurso. Metade já vendeu coisa online. Quase metade tem renda fora do emprego formal.
Esses números seriam normais em São Paulo, em Floripa, em qualquer cidade com cultura empreendedora consolidada. Mas aqui, no DF — onde o funcionalismo responde por 42% da massa salarial — isso é revolução de mentalidade. É sinal cultural. É signal.
Por que o concurso perdeu o encanto
A resposta óbvia é dinheiro. Os salários iniciais de concurso não acompanharam a inflação. Um técnico judiciário do TJDFT entra com R$ 8.500. Em 2015, isso equivalia a 11 salários mínimos. Em 2026, equivale a 5,3. O poder de compra despencou, um cenário que ressalta a importância da celeridade do GDF na convocação de aprovados para manter a máquina pública funcionando e os serviços essenciais à população.
Mas a resposta verdadeira é mais funda. A Geração Z cresceu vendo outra coisa completamente diferente.
Viu influenciador de 22 anos faturando R$ 50 mil por mês com conteúdo.
Viu programador de 19 contratado remoto por empresa americana pagando em dólar.
Viu a mãe — servidora estável — estressada, esgotada, presa numa rotina que não escolheu, reclamando do chefe, contando dia pra se aposentar.
A estabilidade do concurso virou sinônimo de previsibilidade estéril. Saber exatamente quanto você vai ganhar daqui a 30 anos não é segurança. Pra essa geração, é prisão.
O Sebrae perguntou o que é mais importante num trabalho. Ranking:
- Flexibilidade de horário — 71%
- Crescimento rápido — 64%
- Propósito — 58%
- Salário alto — 52%
- Estabilidade — 31%
Estabilidade em último. Último. Na terra do concurso público. Senta e absorve isso.
O que eles estão fazendo na prática
Não é só discurso. Os dados de abertura de MEI confirmam.
Em 2025, foram abertos 48.200 MEI no DF. Desses, 19.700 (40,9%) foram registrados por gente de 18 a 25 anos. Em 2020 essa faixa representava 28% dos novos MEI.
O empreendedorismo no Distrito Federal demonstra vigor crescente, com o número de novos Microempreendedores Individuais (MEI) saltando de 32.400 em 2020 para 48.200 em 2025. A participação de jovens (18-25 anos) nesse total também se expandiu significativamente, passando de 28,0% para 40,9% no período, evidenciando a vitalidade da economia local. Este cenário de expansão é corroborado por dados que mostram o expressivo crescimento do MEI no DF, com destaque para a participação feminina e da periferia, fortalecendo o tecido social e econômico da capital.
Os setores mais procurados: marketing digital (18%), alimentação e delivery (15%), design e criação de conteúdo (14%), tecnologia (12%), estética e beleza (11%).
Tudo digital. Tudo móvel. Negócio que nasce no Instagram, no TikTok, no WhatsApp. Sem ponto comercial, sem capital inicial alto. Um jovem de Ceilândia abre do próprio quarto, com celular e conta no Mercado Pago. Isso é tão 2026 que dói.
Todo mundo vai dar certo? Não. Mortalidade de MEI no primeiro ano é 29% no DF. Quase um em cada três fecha antes dos 12 meses. Empreender é risco. Mas eles estão topando o risco.
O programa do GDF
A governadora Celina Leão lançou em 2 de abril de 2026 o programa DF Jovem Empreendedor. Três eixos.
Crédito. Microcrédito de até R$ 15 mil pra jovens de 18 a 29 com MEI ativo há pelo menos seis meses. Juros de 0,8% ao mês, via BRB. Dotação inicial de R$ 40 milhões.
Capacitação. Parceria com Sebrae-DF e Senac pra oferecer 10 mil vagas em cursos de gestão, marketing digital, finanças pessoais, formalização. Presencial e online, com certificação.
Espaço físico. Ampliação dos coworkings do BioTIC Park e três novos espaços em Ceilândia, Taguatinga e Samambaia. Internet, sala de reunião, endereço comercial e mentoria — tudo de graça pra MEI jovem.
Não vai resolver tudo. Nenhum programa resolve tudo. Mas manda uma mensagem que nenhum governo do DF mandou antes: empreender não é plano B. É plano A.
A universidade também mudou
Na UnB, onde eu estudo, dá pra ver no olho. O cursinho pré-concurso que funcionava no subsolo do ICC — a famosa Toca do Concurseiro — fechou em 2024 por falta de aluno. No mesmo espaço funciona hoje o UnB Lab, hub de startup universitária, com 34 projeto ativo.
A Empresa Júnior de Comunicação da UnB faturou R$ 280 mil na temporada anterior. A de Engenharia de Produção, R$ 420 mil. Tudo gerido por aluno de 20, 21 anos, aprendendo gestão, venda, entrega e cobrança na prática. Competência que nenhum concurso exige e nenhuma aula teórica ensina.
O Censo da Educação Superior do INEP registrou queda de 12% nas matrículas em Direito no DF comparado a 2022. Direito sempre foi o trampolim pro concurso. A queda é sintomática.
Em contrapartida, Ciência da Computação, Análise de Sistemas e Engenharia de Software subiram 23% no mesmo período. Cursos que formam pra mercado privado, pra startup, pra trabalho remoto internacional. Sacou a direção do vento?
O lado feio
Não é tudo festa. A pesquisa do Sebrae achou fragilidade real.
- 62% dos jovens que empreendem não têm reserva pra três meses.
- 71% não fizeram nenhum curso de gestão antes de abrir o negócio.
- 44% confundem faturamento com lucro.
- 38% não separam conta pessoal de conta do negócio.
A informalidade é alta. Dos 47% que declararam renda própria, só 58% são formalizados como MEI. O resto opera na informalidade total — sem nota, sem contrato, sem previdência.
A Geração Z do DF quer empreender. Mas muitas vezes não sabe como. Entusiasmo tá lá. Preparo não. Tem um buraco entre vontade e competência que precisa ser preenchido com educação financeira e mentoria acessível.
O programa do GDF tenta preencher esse buraco. Se conseguir, fez mais pela geração do que qualquer edital de concurso. Simples assim.
A ruptura é irreversível
Conversando com colega da UnB, do IESB, da Católica, do UniCEUB, a percepção é unânime. Ninguém que eu conheço, com menos de 25 anos, tem concurso público como sonho de vida. Ninguém.
Alguns vão prestar concurso? Vão. Por pragmatismo, por pressão familiar, por falta de alternativa imediata. Mas o sonho mudou. A aspiração mudou. A identidade profissional da geração que vai herdar Brasília não é mais a do servidor.
É a do criador.
Criador de conteúdo, de empresa, de produto, de solução. O verbo mudou de "passar" pra "criar".
Brasília foi construída por servidor público. Vai ser reinventada por empreendedor. A transição já começou — silenciosa, periférica, irreversível.
Pay attention. O sinal tá aí na mesa. Quem cuidar dessa geração primeiro ganha o jogo da próxima década.
Mariana Oliveira tem 23 anos, estuda jornalismo na Universidade de Brasília e é colunista do Mirante News. Escreve sobre juventude, trabalho e mudança geracional no DF.
Perguntas Frequentes
- Quais são as prioridades principais da Geração Z do DF ao escolher carreira?
- Flexibilidade (71% de prioridade), velocidade de crescimento (64%), propósito (58%) e salário (52%) são as principais prioridades. Estabilidade (31%) aparece em último lugar — uma inversão única em relação a outras cidades.
- Qual é a taxa de fechamento de startups no primeiro ano?
- 29% das startups fecham no primeiro ano. Apesar disso, a Geração Z no DF aceita esse risco como parte de ciclos de negócios mais rápidos do que esperar 3 anos por aprovação em concurso público.
- Como o UnB Lab está mudando o espaço de desenvolvimento de carreira?
- O UnB Lab substituiu a tradicional 'Toca do Concurseiro' em Brasília, oferecendo espaço para mentorias de startups e desenvolvimento de habilidades empreendedoras em vez de preparação para concursos.
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