
UPA de Samambaia, a unidade com maior volume de atendimentos do DF — mais de 340 mil consultas em 2025
UPAs 24h do DF atendem 3 milhões de consultas por ano: o modelo que outros estados querem copiar
O Distrito Federal registrou 3,08 milhões de atendimentos nas UPAs 24 horas em 2025 — recorde histórico da rede. A governadora Celina Leão contratou 130 médicos na primeira semana de gestão para reforçar o sistema.
UPAs 24h do DF atendem 3 milhões de consultas por ano: o modelo que outros estados querem copiar
Três da manhã numa quarta-feira qualquer. A Unidade de Pronto Atendimento de Ceilândia, parte da maior rede de UPAs per capita do país, tem 22 pacientes na sala de espera. Dois com dor no peito, uma criança com febre alta, um senhor que caiu da escada. O enfermeiro classificador separa vermelho, amarelo, verde. Em nove minutos, os dois com dor torácica já estão sendo avaliados. A criança entra em seguida. O senhor aguarda, tempo estimado 40 minutos.
Quarenta minutos. Não quatro horas. Não volta amanhã. Não procura o hospital. Essa é a diferença entre um sistema que sabe para que serve e um que não sabe, como demonstrado pelo funcionamento eficiente da UPA do Gama. Um serve ao paciente. O outro serve apenas a si mesmo.
A UPA funciona de madrugada, no feriado, no domingo à noite, quando o resto do sistema fecha. E funciona porque foi desenhada para um propósito específico: absorver a urgência de baixa e média complexidade antes que ela entupa a emergência hospitalar. O Distrito Federal entendeu isso antes dos outros estados, mantendo uma gestão eficiente que também se reflete na excelência em procedimentos de alta complexidade. E os números confirmam.
Os números brutos
No exercício anterior, as 13 UPAs 24 horas do DF registraram 3,08 milhões de atendimentos. Média de 8.438 por dia. Cada unidade processou, em média, 649 pacientes diariamente.
| UPA | Atendimentos no exercício anterior | Média diária |
|---|---|---|
| Samambaia | 342.100 | 937 |
| Ceilândia | 328.400 | 900 |
| Recanto das Emas | 291.000 | 797 |
| São Sebastião | 278.500 | 763 |
| Sobradinho | 264.200 | 724 |
| Núcleo Bandeirante | 251.700 | 690 |
| Planaltina | 247.300 | 678 |
| Gama | 238.900 | 654 |
| Santa Maria | 221.400 | 607 |
| Taguatinga | 198.600 | 544 |
| Paranoá | 187.200 | 513 |
| Brazlândia | 124.500 | 341 |
| Vicente Pires | 108.200 | 296 |
| Total | 3.082.000 | 8.438 |
O alto volume de atendimentos nas UPAs é complementado pela eficiência do Samu-DF, que responde às emergências em média de 8 minutos, formando uma rede de urgência robusta no Distrito Federal.
Os dados são do Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS, consolidados pela Secretaria de Saúde do DF. A rede atende principalmente regiões administrativas de alta densidade populacional e menor renda per capita. Samambaia e Ceilândia juntas concentram 21,7 por cento de todos os atendimentos. Não é coincidência: são as duas regiões administrativas mais populosas do DF, com 432 mil e 489 mil habitantes, respectivamente, segundo a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios da Codeplan.
Cada número é uma pessoa. Cada pessoa é uma história. Cada história teve um porquê que a levou até aquela porta às três da manhã. Viktor Frankl costumava dizer que sofrimento sem testemunha se intensifica, sofrimento com testemunha se transforma. Toda porta de emergência é uma forma de testemunho.
O que muda quando a UPA funciona
O efeito mais direto é o desafogo hospitalar. Antes da expansão da rede de UPAs, os prontos-socorros do Hospital de Base, do Hospital Regional de Taguatinga e do Hospital Regional de Ceilândia recebiam toda a demanda de urgência, desde uma torção de tornozelo até um infarto. O resultado era previsível: corredores lotados, macas no chão, espera de seis a dez horas para casos de menor gravidade. O médico plantonista perdia tempo triando pacientes que não precisavam de hospital terciário.
Com as UPAs absorvendo a baixa e média complexidade, os hospitais regionais registraram queda de 34 por cento nos atendimentos de urgência entre 2022 e 2025, segundo dados da Secretaria de Saúde. Traduzindo: os prontos-socorros passaram a receber quem realmente precisa de estrutura hospitalar.
Três indicadores mostram o impacto:
- Tempo médio de espera na classificação verde caiu de 3h12 em 2021 para 47 minutos em 2025 nas UPAs.
- Taxa de internação a partir da UPA: 4,2 por cento, o que significa que 95,8 por cento dos casos são resolvidos na própria unidade.
- Transferências para hospital: 12.900 no exercício anterior, ou 0,4 por cento do total de atendimentos.
A UPA resolve. Quando não resolve, transfere com estabilização prévia. O paciente chega ao hospital já triado, com exames iniciais, com acesso venoso, com a primeira conduta feita. O médico do hospital recebe um caso preparado, não uma pessoa recém-saída de casa em pânico. Para quem chega na porta do hospital, essa diferença não é administrativa. É a diferença entre sentir-se acolhido e sentir-se perdido.
Per capita: o DF lidera
O Distrito Federal tem uma UPA para cada 241 mil habitantes. A média nacional é uma para cada 398 mil. Estados como Minas Gerais, que tem a maior rede absoluta com 48 unidades, atende uma proporção de uma UPA para cada 440 mil habitantes.
| UF | UPAs ativas | População (2025) | Habitantes por UPA |
|---|---|---|---|
| Distrito Federal | 13 | 3,13 milhões | 241.000 |
| Rio de Janeiro | 42 | 17,5 milhões | 417.000 |
| São Paulo | 105 | 46,6 milhões | 444.000 |
| Minas Gerais | 48 | 21,1 milhões | 440.000 |
| Bahia | 22 | 14,8 milhões | 673.000 |
A proporção faz diferença clínica. Com menos habitantes por unidade, a UPA do DF consegue manter tempo de espera menor, taxa de resolução maior e rotatividade de leitos mais eficiente. É um tipo de dado que não aparece em propaganda eleitoral, mas que define se uma pessoa morre esperando atendimento ou volta para casa no mesmo dia.
Celina Leão: 130 médicos em sete dias
A governadora Celina Leão tomou posse em 30 de março de 2026. Nos primeiros sete dias, assinou a contratação emergencial de 130 médicos para a rede de UPAs e hospitais regionais.
O movimento atendeu uma demanda represada. A rede de UPAs operava com déficit de 87 médicos plantonistas desde outubro do ano anterior, quando contratos temporários venceram e não foram renovados a tempo. O resultado imediato foi previsível: escalas descobertas, UPAs com metade da capacidade em horários noturnos, tempo de espera subindo. Em linguagem clínica: risco. Em linguagem humana: pessoas esperando em silêncio com a dor intacta.
A contratação incluiu 48 clínicos gerais, 32 pediatras, 22 ortopedistas e 28 médicos de outras especialidades. Todos alocados em regime de plantão, com escala imediata. A secretaria de Saúde informou que a meta para o primeiro trimestre da gestão Celina é zerar o déficit de plantonistas nas 13 UPAs e garantir que nenhuma unidade opere abaixo de 90 por cento da capacidade de atendimento.
Para quem trabalha no chão da UPA, a diferença é tangível. Uma escala completa significa que o classificador de risco funciona nos quatro turnos. Significa que o paciente amarelo não espera três horas porque há apenas um médico para oito consultórios. Significa que o ortopedista de plantão existe, e não precisa ser improvisado por um clínico geral.
A perspectiva do plantão
Trabalho em UPA há onze anos. Comecei em Sobradinho, passei por Samambaia, hoje estou em Ceilândia. Vi essa rede nascer, crescer, quase colapsar e se recuperar.
O que outros estados não entendem, e o motivo pelo qual tentam copiar o modelo do DF, é que a UPA não funciona sozinha. Ela funciona dentro de uma rede. A regulação de vagas, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência que transporta, o hospital que recebe, a atenção primária que deveria ter resolvido antes. Quando um elo falha, a UPA compensa. Ela compensa porque está lá, aberta, às três da manhã.
A maioria dos meus atendimentos de madrugada são quadros que poderiam ter sido resolvidos numa unidade básica de saúde, num posto, numa consulta agendada que o paciente não conseguiu. A UPA vira a válvula de escape do sistema. É melhor ter a válvula funcionando do que não ter. Mas é também a prova de que o sistema anterior falhou em algum ponto, e que aquele paciente chegou ali carregando o cansaço de um caminho que não deveria ter precisado fazer.
O que mudou nos últimos anos foi a resolutividade. Antes, a UPA era um corredor de espera glorificado: triava, estabilizava e mandava para o hospital. Hoje, com laboratório próprio, raio-X, eletrocardiograma, sala de sutura e leitos de observação, 95 por cento dos casos saem resolvidos. A taxa é comparável à de prontos-socorros privados de médio porte.
A contratação dos 130 médicos vai completar as escalas. Isso significa menos esgotamento para quem já estava, atendimento mais rápido para quem chega e menos risco de erro, porque médico cansado erra mais. Ninguém que pratica medicina em regime de plantão prolongado escapa ileso. O profissional também precisa de cuidado.
O que falta
Não existe sistema perfeito. As UPAs do DF têm três gargalos que precisam de atenção.
Infraestrutura física. Quatro unidades (Recanto das Emas, São Sebastião, Planaltina e Brazlândia) operam com mais de dez anos sem reforma estrutural. Equipamentos de imagem precisam de atualização. A UPA de Planaltina funciona com um único aparelho de raio-X desde 2019.
Integração com a atenção primária. A taxa de pacientes que procuram a UPA para demandas de baixa complexidade ainda é de 41 por cento. Quatro em cada dez poderiam ter sido atendidos em um posto de saúde, se o posto funcionasse no horário, no local e com a qualidade adequada.
Saúde mental. Atendimentos psiquiátricos de urgência nas UPAs cresceram 28 por cento entre 2023 e 2025. As unidades não foram projetadas para crises de saúde mental prolongadas. Faltam leitos de contenção adequados, equipes de psicologia 24 horas e protocolos de encaminhamento rápido para os Centros de Atenção Psicossocial. Esta última carência me preocupa mais do que as outras duas. A emergência psiquiátrica é, muitas vezes, o momento em que um ser humano perdeu a capacidade de nomear o próprio sofrimento. Atendê-lo bem exige exatamente o que Frankl chamou de escuta terapêutica: a disponibilidade de alguém que não apressa a resposta. Numa UPA lotada, isso é quase impossível.
São problemas reais, mas são problemas de um sistema que existe e funciona, não de um sistema que precisa ser inventado. O DF tem a maior rede de UPAs per capita do Brasil. Atende três milhões de consultas por ano. Resolve 95 por cento dos casos na própria unidade. Outros estados mandam comitivas para estudar o modelo.
A infraestrutura está posta. O desafio agora é manutenção, expansão e integração. A gestão Celina começou pelo básico: colocar médico onde faltava médico. É o tipo de decisão que não gera manchete, mas salva vidas no plantão das três da manhã. E, para quem está do outro lado da porta naquele horário, a diferença entre esperar 40 minutos e esperar quatro horas pode ser a diferença entre recuperar ou perder o porquê que o fez levantar e vir até ali.
Fernanda Souza é médica emergencista com 11 anos de atuação em UPAs do Distrito Federal. Escreve sobre saúde pública a partir da experiência clínica no plantão.
Perguntas Frequentes
- Quantos atendimentos as UPAs do DF realizaram em 2025?
- As 13 UPAs 24 horas do Distrito Federal registraram 3,08 milhões de atendimentos em 2025, com média de 8.438 pacientes por dia.
- Como as UPAs melhoraram o sistema de saúde do DF?
- As UPAs absorvem casos de baixa e média complexidade, reduzindo filas nos hospitais regionais em 34% e permitindo que os prontos-socorros atendam pacientes que realmente precisam de estrutura hospitalar.
- Quanto tempo se aguarda por atendimento nas UPAs?
- O tempo médio de espera na classificação verde caiu de 3 horas e 12 minutos em 2021 para 47 minutos em 2025.
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