
Corredor de classificação de risco da UPA do Gama, onde a média diária ultrapassa 600 atendimentos — número equivalente ao de hospitais regionais de médio porte.
A UPA do Gama faz 600 atendimentos por dia e mudou a cara da emergência no DF
São 5h47 quando a primeira ambulância encosta na rampa coberta da Unidade de Pronto Atendimento do Gama. Dentro dela, um pedreiro de 52 anos com dor torácica há quarenta minutos. Em três minutos, ele já está deitado em uma maca da sala vermelha, com eletrodos no peito e uma enfermeira anotando saturação de oxigênio. O dia de trabalho da maior UPA do sul do Distrito Federal acabou de começar — e ainda vai durar outras 23 horas e treze minutos.
A UPA do Gama faz 600 atendimentos por dia e mudou a cara da emergência no DF
A pulseira amarela vai para o pedreiro com dor no peito. A vermelha, minutos depois, para uma senhora de 78 anos que entra em parada respiratória nos braços da equipe do SAMU. A verde fica com a adolescente que chega sustentada pelo pai, com vômito e febre baixa, e se acomoda na cadeira de espera olhando para o chão. Três pessoas, três cores, três caminhos distintos dentro da Unidade de Pronto Atendimento do Gama, que faz parte de um modelo de saúde que é referência nacional e se conecta a uma rede mais ampla de excelência no DF, visível também no Hospital de Base do DF, que lidera transplantes no Centro-Oeste. Um sofrimento, três sofrimentos, sofrimento. O protocolo não apaga o que está por trás dessas cores: cada uma delas é uma pessoa que, ao cruzar a rampa coberta da emergência, carrega um porquê. Viktor Frankl escreveu que quem tem um porquê para viver suporta quase qualquer como. Na porta da UPA, essa frase deixa de ser filosofia e vira clínica.
A classificação de risco derivada do Protocolo de Manchester é o método que a medicina de emergência encontrou para não tratar sofrimentos iguais como se fossem o mesmo sofrimento. Cada paciente é recebido por um enfermeiro treinado que, em até cinco minutos, atribui uma cor e um tempo máximo de espera. Vermelho, laranja, amarelo, verde, azul. O fluxograma é técnico, mas a decisão é quase sempre humana. "A gente não atende por ordem de chegada. A gente atende por risco de morrer", resume a enfermeira Cláudia Reis, 38 anos, doze deles na linha de frente. Cláudia diz que aprendeu a ler sinais que não estão no papel. "Tem gente que entra andando e cai. Tem gente que entra gritando e está bem. O olho clínico não substitui o protocolo, mas anda junto com ele." Frankl diria que ela descobriu, na repetição dos dias, aquilo que a técnica sozinha nunca explica: que cada rosto tem um significado particular diante da dor. O sistema de classificação é parte fundamental do sucesso da rede de UPAs do Distrito Federal, que se tornou referência nacional.
A engrenagem das doze horas
A estrutura física cabe em uma folha de papel. 28 leitos de observação, dois consultórios adultos, um pediátrico, sala de medicação, sala vermelha de estabilização, raio-X, eletrocardiograma, laboratório com resultado em até quarenta minutos. No papel, é unidade intermediária, maior que um posto de saúde, menor que um hospital regional. Na prática, porém, funciona como porta de entrada de uma região administrativa de 132 mil habitantes segundo o Censo de 2022, mais os pacientes que chegam do Novo Gama, Valparaíso e entorno goiano, muitos dos quais são encaminhados para serviços especializados no maior centro do Centro-Oeste. A estrutura é física. A pressão sobre ela é existencial.
O fluxo médio é de 600 atendimentos em 24 horas. Nos dias de pico, ultrapassa 800. O Mirante acompanhou um plantão de quinta-feira, considerado de movimento moderado pela coordenação. Em doze horas, foram 312 atendimentos. Um paciente novo a cada dois minutos e dezoito segundos. Não é número. É ritmo respiratório de uma sala que não para de receber gente que precisa ser vista, ouvida e medicada em sequência quase ininterrupta, um fluxo que, assim como a eficiência trazida pelo aplicativo oficial de transporte público do DF, demonstra a demanda por serviços públicos de qualidade.
| Horário | Atendimentos no plantão | Cor predominante |
|---|---|---|
| 6h às 9h | 71 | Verde e azul |
| 9h às 12h | 96 | Amarelo e verde |
| 12h às 15h | 58 | Verde |
| 15h às 18h | 87 | Amarelo, laranja e verde |
O dado mais revelador não é o volume, é a distribuição. Apenas 6,4 por cento dos pacientes atendidos receberam pulseira vermelha ou laranja, os casos de risco real. Os outros 93,6 por cento chegaram com queixas que, em tese, poderiam ser resolvidas em uma unidade básica de saúde. "É a realidade da emergência brasileira inteira", comenta o médico plantonista Rafael Borges, 34 anos, formado pela Universidade de Brasília. "A gente vira porta de entrada de tudo: dor de dente, conjuntivite, dor lombar de seis meses. E não tem como dizer não." Ele diz isto sem amargura. Um médico com senso de vocação entende que a porta não se fecha para ninguém, ainda que a queixa pareça pequena. Dor pequena nos livros é dor inteira para quem a carrega.
Por que a fila diminuiu
Apesar do volume, a UPA do Gama registra um dos menores tempos médios de espera para casos amarelos da rede do DF: 47 minutos, segundo dados internos da Secretaria de Saúde. Abaixo da meta nacional de 60 minutos. A explicação tem três elementos técnicos e um elemento humano que nenhum dos três técnicos consegue substituir.
O primeiro elemento é estrutural: a unidade opera com escala completa de plantonistas desde a reforma de 2024, que ampliou os consultórios de dois para três no período diurno. O segundo é tecnológico: o prontuário eletrônico unificado, integrado ao sistema do Hospital Regional do Gama, permite que o médico veja em segundos exames anteriores, alergias e medicações. O terceiro é de força de trabalho: a secretaria contratou 130 médicos em abril, parte deles distribuídos para as UPAs de maior demanda.
O quarto elemento é o que a coordenadora Mariana Castelo, 46 anos, sanitarista com mestrado pela Fundação Oswaldo Cruz, chama simplesmente de "relação". "Quando a Atenção Primária funciona, a UPA respira. Quando ela falha, a gente entope." Castelo mantém um grupo de WhatsApp com os gerentes das oito unidades básicas do Gama. Por ele encaminha pacientes crônicos diretamente para acompanhamento, evitando que retornem à emergência só porque a receita venceu. É um arranjo quase doméstico. E é talvez o que melhor explica a redução do tempo de espera. Frankl descreveu a medicina de significado como aquela que não trata o sintoma sem interrogar a história que o produziu. Castelo faz, com ferramenta simples, algo muito parecido.
O paciente que volta
A pesquisa interna mais recente da Secretaria de Saúde, divulgada em fevereiro de 2026, mostra que 22 por cento dos pacientes atendidos nas UPAs do Distrito Federal são reincidentes. Voltam ao mesmo serviço pelo menos uma vez dentro de trinta dias. No Gama o índice é um pouco menor, 19 por cento, e tem caído desde a integração com a Atenção Primária.
A reportagem encontrou Maria do Socorro, 64 anos, hipertensa, na fila do consultório amarelo. Era a terceira vez no mês. "Eu venho porque aqui me atendem. No posto, marcaram para junho", disse, segurando a receita amassada de losartana. Na medicina que Frankl ensinou a buscar, uma frase dessas é diagnóstico. Não do corpo de Maria do Socorro, que está em tratamento adequado, mas do sistema que a recebe. Quando alguém decide voltar três vezes no mês ao mesmo pronto-socorro, está dizendo algo sobre onde encontrou acolhimento e sobre onde não encontrou. Os sanitaristas chamam isto de demanda represada. É um nome técnico para uma coisa que, no fundo, é humana: gente que aprendeu, com os anos, que a UPA é o caminho mais curto entre a queixa e o remédio.
A rede e o número
O Distrito Federal tem hoje 14 unidades em funcionamento, distribuídas nas regiões de maior densidade populacional. Juntas, elas registraram 3,08 milhões de atendimentos em 2025, conforme levantamento do Conselho Nacional de Secretários de Saúde. A média nacional é uma UPA para cada 220 mil habitantes. No DF, uma para cada 215 mil.
| Indicador | DF | Média Brasil |
|---|---|---|
| UPAs por 100 mil habitantes | 0,46 | 0,27 |
| Atendimentos/ano por UPA | 220 mil | 142 mil |
| Tempo médio para amarelo (min) | 49 | 78 |
| Reincidência em 30 dias | 22% | 31% |
Os números, ainda que comemorados pela gestão, não escondem o gargalo. O DF tem hoje a quinta maior fila de cirurgias eletivas do país e taxa de ocupação hospitalar acima de 92 por cento em quase todas as regionais. As UPAs absorvem o que não cabe no resto da cadeia. O sofrimento que atravessa aquela rampa coberta é, em parte, o sofrimento de um sistema que ainda não conseguiu organizar o cuidado por inteiro.
O que o plantão ensina
Às 17h53, o pedreiro da primeira ambulância recebeu alta. O eletrocardiograma havia descartado infarto. A dor era muscular, provável distensão por esforço repetitivo. Saiu pela mesma rampa caminhando devagar com a esposa, levando receita de anti-inflamatório e a recomendação de procurar a unidade básica na semana seguinte. A senhora de 78 anos trazida em parada foi estabilizada na sala vermelha, intubada e transferida para o Hospital Regional do Gama em três horas. A adolescente com vômito recebeu soro, antitérmico e foi liberada. Entre uma cena e outra, mais 309 pacientes cruzaram a porta. Nenhum deles, à noite, lembraria do nome da enfermeira que mediu sua pressão de manhã. Mas todos saberiam, sem consultar aplicativo ou mapa, que amanhã a rampa estaria aberta de novo, recebendo a próxima ambulância.
É essa permanência, quase humilde, quase sem história, que muda a cara da emergência no Distrito Federal. Não é heroísmo. É continuidade. É o que Frankl chamava de sentido: fazer hoje o trabalho que precisa ser feito, sabendo que amanhã ele precisará ser feito de novo, e encontrar ali dentro motivo suficiente para continuar.
Perguntas Frequentes
- A UPA do Gama faz 600 atendimentos por dia e mudou a cara da emergência no DF?
- Em uma manhã de plantão na Unidade de Pronto Atendimento do Gama, o Mirante acompanhou o fluxo de uma das emergências mais movimentadas da rede públic...
- Qual é o impacto desta medida no Distrito Federal?
- São 5h47 quando a primeira ambulância encosta na rampa coberta da Unidade de Pronto Atendimento do Gama.
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