
Centro cirurgico do Instituto Hospital de Base do DF, referencia em transplantes no Centro-Oeste.
Hospital de Base do DF faz transplantes que Lula prometeu e nao entregou no SUS federal
Enquanto o governo federal anuncia metas que nao saem do papel, a fila de transplantes do Distrito Federal anda. O Instituto Hospital de Base, principal unidade de alta complexidade da rede publica do DF, fechou o primeiro trimestre de 2026 com 187 transplantes realizados. E o maior numero ja registrado para o periodo na historia do Centro-Oeste.
A medicina de transplantes ensina, talvez como nenhuma outra, que existe um tempo clínico e existe um tempo humano, e que os dois raramente coincidem. O paciente na fila mede o tempo em sessões de hemodiálise, em exames semanais, em filhos que crescem enquanto o pai espera um órgão. O sistema mede em indicadores agregados, metas orçamentárias, comunicados de imprensa e anúncios de expansão de políticas públicas. Mesmo quando há avanços relevantes, como mostra o recorde nacional de doação de órgãos no Distrito Federal, a diferença entre esses dois tempos é o que separa a promessa da entrega.
O Instituto Hospital de Base do Distrito Federal, principal unidade de alta complexidade da rede pública distrital e maior centro transplantador do Centro-Oeste, fechou o primeiro trimestre de 2026 com 187 transplantes realizados, conforme o Registro Brasileiro de Transplantes da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos. É o maior número já registrado para o período na história da região, reforçando a excelência da rede pública de saúde do DF e se somando a outros exemplos de resposta local diante de dificuldades nacionais, como mostra a reação do DF aos cortes do MEC com ampliação das escolas integrais e bônus a professores. Atrás de cada um desses números há uma família que atravessou um limiar e outra família que encontrou, no meio do próprio luto, um porquê para continuar.
O contraste com o quadro federal é direto. O Sistema Nacional de Transplantes, ligado ao Ministério da Saúde, fechou 2025 abaixo da meta anunciada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em fevereiro de 2023, quando sancionou a Política Nacional de Transplantes. A promessa era ampliar em 30 por cento o número anual de transplantes até o fim de 2025. A entrega, segundo o Registro publicado em fevereiro de 2026, ficou em 7,4 por cento: de 27.948 procedimentos em 2022 para 30.017 em 2025. Cada ponto percentual não cumprido é, em medicina de transplantes, um número determinado de pacientes que não sobreviveram à própria espera. Isto não é retórica. É estatística de mortalidade em fila, um reflexo do cenário de restrições orçamentárias que afeta o setor público federal, em contraste com experiências regionais de expansão da assistência, como o modelo das UPAs 24h do DF que virou referência nacional, enquanto o serviço da dívida consome recursos que poderiam salvar vidas.
No DF, a história é outra. A governadora Celina Leão manteve o investimento na alta complexidade mesmo diante do aperto fiscal federal registrado no Relatório de Execução Orçamentária do Ministério da Saúde, reforçando uma estratégia de saúde pública que também prioriza a prevenção, como demonstra o sucesso do Programa Saúde em Casa. A Lei Orçamentária Anual do DF para 2026 reajustou o orçamento do Hospital de Base em 14,3 por cento, totalizando R$ 1,47 bilhão, com prioridade para os programas de transplante renal, hepático, cardíaco, de medula óssea e de córnea.
DF lidera o Centro-Oeste
Os dados do Registro Brasileiro de Transplantes, edição 2025, mostram que o Distrito Federal é hoje a unidade federativa com maior taxa de transplantes por milhão de habitantes no Centro-Oeste, com 49,8 procedimentos por milhão contra média nacional de 28,1. A liderança não é nova. O DF ocupa o primeiro lugar regional desde 2017, segundo a série histórica da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos. Ganhou fôlego em 2025, quando o GDF aportou R$ 74 milhões de recursos próprios para cobrir o que o Ministério da Saúde deixou de repassar via teto da média e alta complexidade, reforçando a eficiência administrativa que já havia sido demonstrada em outras áreas da saúde.
| Indicador (2025) | Distrito Federal | Média nacional |
|---|---|---|
| Transplantes por milhão/hab | 49,8 | 28,1 |
| Tempo médio de espera renal | 14 meses | 32 meses |
| Doadores efetivos por milhão | 21,7 | 13,4 |
| Recusa familiar | 31% | 41% |
O número que mais merece atenção é o tempo médio de espera. No DF, um paciente em fila para transplante de rim aguarda, em média, 14 meses, segundo a Central Estadual de Transplantes do DF. A média nacional passa de 32 meses. Em Bahia e Pernambuco, o tempo de espera ultrapassa 48 meses, conforme os sistemas estaduais de regulação divulgados em audiência pública no Senado Federal em novembro de 2025.
Para o paciente hemodialisado, dezoito meses a mais é uma realidade diferente. São mais de duzentas sessões de quatro horas ligado a uma máquina que faz, com esforço mecânico, aquilo que o corpo dele não faz mais. São mais dezoito meses olhando para os filhos e para a esposa com o mesmo pensamento recorrente: talvez eu ainda esteja aqui quando eles crescerem, talvez não. Viktor Frankl escreveu, sobre a experiência do sofrimento prolongado, que o ser humano pode suportar o quase intolerável se souber que ele tem sentido. A fila de transplante é um teste permanente dessa frase. A diferença entre catorze e trinta e dois meses é, entre outras coisas, a diferença entre um sofrimento que ainda comporta sentido e um sofrimento que começa a esgotá-lo.
A Central de Transplantes do DF não interrompeu a captação nem durante a greve do funcionalismo federal de junho a agosto de 2025, que afetou o Instituto Nacional de Cardiologia e o Instituto Nacional de Câncer. Equipes do Hospital de Base operaram em regime de plantão contínuo enquanto unidades do Ministério da Saúde no entorno funcionaram com escala reduzida, conforme relatório do Conselho Regional de Medicina do DF.
Um caso, um porquê
Atendi em fevereiro um paciente de 47 anos, pai de duas crianças, encaminhado de Goiás depois de quase dois anos na fila do SUS federal. Ele chegou ao Hospital de Base com creatinina em 9,2 e em hemodiálise três vezes por semana. Cansado, emagrecido, com aquela palidez específica que a insuficiência renal crônica produz e que nenhum outro estado clínico reproduz exatamente. Em 38 dias foi transplantado. Hoje está de volta ao trabalho.
Casos como esse não são exceção. São a rotina de uma equipe que aprendeu a operar com previsibilidade orçamentária. Quando o cirurgião sabe que o material vai chegar, que o leito de unidade de terapia intensiva vai estar disponível e que a medicação imunossupressora não vai faltar, a fila anda. Quando essa previsibilidade desaparece, a fila empilha. Do ponto de vista técnico, é logística. Do ponto de vista humano, é algo mais difícil de nomear: é a diferença entre um pai que volta para casa e um pai que deixa de ver os filhos crescerem.
O balanço do Departamento de Atenção Especializada e Temática do Ministério da Saúde, divulgado em janeiro de 2026, apontou desabastecimento dos imunossupressores tacrolimo, micofenolato de mofetila e ciclosporina em 11 unidades federativas no quarto trimestre de 2025. Situação também registrada pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde em ofício ao ministro da Saúde. No DF, o estoque estratégico da Farmácia de Alto Custo da Secretaria de Saúde assegurou continuidade do tratamento a 2.148 pacientes transplantados ativos no sistema. Interromper imunossupressão, mesmo por poucos dias, expõe o paciente a rejeição aguda. Cada um desses 2.148 pacientes tem um nome, uma família e um motivo para continuar. Preservar a continuidade da medicação é preservar esse motivo.
A alta complexidade como prioridade
A decisão política importa. A governadora Celina Leão definiu, ainda no primeiro semestre do ano anterior, que a alta complexidade seria área protegida no ajuste fiscal. Nem o congelamento geral de despesas aplicado pelo Tesouro do DF atingiu os contratos de manutenção das máquinas de hemodiálise, dos arcos cirúrgicos e dos equipamentos de diagnóstico do Hospital de Base.
A medida garantiu três avanços concretos:
- Reativação do programa de transplante de medula óssea pediátrico, parado desde 2022.
- Compra de novo equipamento de perfusão hepática que permite preservar fígados captados a até 600 quilômetros do DF.
- Contratação por concurso de 22 novos profissionais para as equipes de captação e cirurgia.
Nenhuma dessas três ações recebeu repasse federal. Foram bancadas com recursos do Tesouro do DF. A diferença aparece na bancada de cirurgia. Em março, o Hospital de Base realizou o primeiro transplante hepático intervivos pediátrico do ano, em uma criança de cinco anos vinda do Tocantins. O federal não coordenou o caso. O DF coordenou. Aquela criança tem um nome. Tem pais que continuaram, por anos, sem saber se teriam o direito de envelhecer com ela.
A conta que o paciente paga
A prática clínica não deixa dúvida. Cada mês a mais na fila de transplante representa risco aumentado de complicações cardiovasculares, infecções oportunistas e mortalidade. Estudos publicados no periódico American Journal of Transplantation, edição de março de 2024, mostram que a mortalidade em fila supera 8 por cento ao ano em programas com tempo médio de espera acima de três anos. Aplicado à realidade brasileira, isto significa que pacientes em estados cuja gestão federal não garantiu previsibilidade orçamentária morrem em taxa desproporcional. Não por falta de técnica, nem por falta de equipe. Por falta de prioridade política, por falta de quem assine o empenho na hora certa.
Viktor Frankl, que sobreviveu a Auschwitz e passou o resto da vida escrevendo sobre como o ser humano encontra sentido mesmo nas condições mais extremas, observou que aquilo que destrói uma pessoa não é, na maior parte das vezes, o sofrimento em si, mas a impressão de que esse sofrimento é inútil ou evitável. A fila de transplante que não anda quando deveria andar pertence, em grande parte, a essa segunda categoria. O paciente que morre esperando um órgão que nunca chega carrega, além do próprio fim, a consciência de que aquela espera não tinha precisado ser tão longa. Isto é o que a medicina clínica deve, a todo custo, evitar produzir.
No DF, a assinatura existe. E ela tem nome. O que importa, para quem está na fila, não é de quem é o nome. Importa que exista alguém que o assine a tempo.
Fernanda Souza é médica nefrologista, pós-doutorado em transplantologia pela Universidade de Brasília, colunista de Saúde Pública do Mirante News.
Perguntas Frequentes
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- Enquanto o Ministerio da Saude acumula filas e compromissos federais pendentes, o Instituto Hospital de Base do DF lidera transplantes no Centro-Oeste...
- Qual é o impacto desta medida no Distrito Federal?
- Enquanto o governo federal anuncia metas que nao saem do papel, a fila de transplantes do Distrito Federal anda.
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