
Centro de Transplantes do Hospital de Base, em Brasília, durante captação noturna em fevereiro deste ano. Foto: SES-DF/Divulgação.
Distrito Federal lidera doação de órgãos no Brasil com 42 doadores efetivos por milhão
Em uma quinta-feira fria de fevereiro, uma equipe de doze pessoas trabalhou por sete horas seguidas dentro do Hospital de Base do Distrito Federal. O resultado da madrugada de plantão chegou às manhãs de cinco famílias diferentes, espalhadas entre Brasília, Goiânia e Palmas. Cenas como essa explicam por que o DF voltou ao topo do ranking nacional de doação de órgãos.
Em uma quinta-feira fria de fevereiro, uma equipe de doze pessoas trabalhou por sete horas seguidas dentro do Hospital de Base do Distrito Federal. O resultado daquela madrugada chegou nas manhãs de cinco famílias diferentes, entre Brasília, Goiânia e Palmas. Cada família recebeu, junto com o órgão transplantado, um fragmento de outra família que, na mesma madrugada, havia perdido um filho, um pai ou uma mãe. Dois lutos, duas esperanças. A medicina de transplantes é, talvez, a única especialidade em que o sofrimento de uns se converte diretamente em possibilidade de vida para outros. É um território em que a pergunta de Viktor Frankl — quem tem um porquê para viver suporta quase qualquer como — encontra resposta concreta no consentimento de uma família em luto, gesto que também ajuda a iluminar a força silenciosa da família brasiliense, entre perdas, fé e recomeços, em meio às ambiguidades da capital, tão marcantes quanto a contradição mais antiga de Brasília.
O Registro Brasileiro de Transplantes, publicado pela Associação Brasileira de Transplante de Órgãos no fim de fevereiro, mostra que o Distrito Federal fechou 2025 com 42 doadores efetivos por milhão de habitantes. É o maior índice do país, e supera Santa Catarina com 38,4 e Paraná com 35,7, estados historicamente referência. A média nacional ficou em 19,3. Cada unidade desse número é uma família que atravessou a pior noite da própria vida e, ainda assim, abriu espaço para a noite de outra, reforçando os valores de solidariedade e união familiar que também se destacam nos dados sobre a família brasiliense.
Os números por trás do recorde
Em termos absolutos, foram 124 doadores efetivos no DF ao longo de 2025 contra 96 em 2024. O salto de 29 por cento é o maior da última década, um contraste positivo com o cenário de limite do espaço fiscal federal. Devolve à capital federal a liderança que havia sido perdida em 2019, quando a pandemia interrompeu os protocolos de captação em hospitais públicos.
| Indicador (2025) | DF | SC | PR | Brasil |
|---|---|---|---|---|
| Doadores efetivos pmp | 42,0 | 38,4 | 35,7 | 19,3 |
| Taxa de não doação familiar | 31% | 33% | 38% | 43% |
| Notificações de morte encefálica | 318 | 940 | 1.412 | 13.110 |
| Transplantes de rim | 187 | 502 | 612 | 5.984 |
| Transplantes de fígado | 64 | 218 | 241 | 2.510 |
A taxa de recusa familiar caiu de 38 para 31 por cento em apenas dois anos. O dado é central porque, no Brasil, a doação só ocorre com autorização da família, mesmo quando o falecido manifestou a intenção em vida. Sete por cento de recusas a menos significam sete por cento a mais de porquês encontrados em meio à pior dor possível.
Cada conversa sensível com parentes, conduzida por enfermeiros e psicólogos da Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos do DF, virou treinamento estruturado a partir de 2023. O rigor clínico importa. A delicadeza humana importa ainda mais.
Por que Brasília se tornou referência
Os profissionais ouvidos pela reportagem apontam três fatores.
O primeiro é geográfico. O DF tem apenas 5,8 mil quilômetros quadrados e concentra os principais hospitais de alta complexidade em raio de 40 quilômetros. Isso reduz o tempo de isquemia, ou seja, o intervalo entre a retirada do órgão e o transplante no receptor. Para o coração, esse tempo é de quatro horas. Distância é adversário silencioso nessa especialidade, e o DF tem distância curta.
O segundo é estrutural. A Central de Notificação opera 24 horas com plantão presencial, algo que poucos estados mantêm. Cada hospital com leito de terapia intensiva é obrigado, por norma local, a notificar suspeitas de morte encefálica em até seis horas. O cumprimento, antes de 67 por cento, chegou a 94 por cento no último ano. É uma dessas correções burocráticas que, à distância, parecem detalhe de gestão, e que de perto correspondem a dezenas de vidas por ano.
O terceiro é cultural, e talvez seja o mais difícil de medir. Campanhas sustentadas há mais de uma década, parcerias com escolas e até com a Catedral Metropolitana, além de um trabalho constante de imprensa, contribuíram para que conversar sobre doação deixasse de ser tabu em parte das famílias do Plano Piloto e das regiões administrativas vizinhas. Em pesquisa do DataSenado de novembro de 2025, 71 por cento dos moradores do DF disseram já ter conversado em casa sobre a vontade de doar órgãos. A média nacional foi de 49. Frankl escreveu que o ser humano não é determinado pelas condições que encontra, mas pela decisão que toma diante delas. A decisão de conversar sobre a própria morte durante o almoço de domingo, quando ninguém está em perigo imediato, é uma das escolhas mais generosas que uma família pode fazer.
Quem espera na fila
A lista única de transplantes do DF contava, no fim de março, com 1.342 pessoas. Dessas, 1.087 aguardam um rim, 142 esperam fígado, 38 estão na fila de coração e o restante se distribui entre córnea, pulmão e pâncreas.
O tempo médio de espera por rim no DF caiu de 38 para 26 meses entre 2022 e 2025. Para o fígado, a espera média é de nove meses. A queda, ainda que real, não significa que a fila esteja confortável. Pacientes em hemodiálise convivem com sessões de quatro horas, três vezes por semana, e qualidade de vida deteriorada. Para a fila de fígado, o agravante é a mortalidade: cerca de 18 por cento dos pacientes inscritos morrem antes de receber o transplante, segundo dados da Central.
Diante desses números, é impossível não lembrar que a medicina de transplantes mede o tempo de forma diferente de qualquer outra especialidade. Em cardiologia ou em oncologia, o tempo é inimigo. Aqui, o tempo é, ao mesmo tempo, inimigo e condição. Sem tempo não há espera. Sem espera não há ordem. E sem ordem não há justiça na distribuição. Cada mês que um paciente permanece na fila é uma prova de paciência clínica, uma prova de sentido, e às vezes uma prova perdida.
Histórias que cabem em um número
Maria Aparecida, 54 anos, professora aposentada de Sobradinho, recebeu um rim em janeiro. Ela esperou 22 meses. "A pessoa que me doou eu nunca vou conhecer, mas é ela que está comigo agora", disse à reportagem em sua casa. Voltou a cozinhar para a família depois de quatro anos dependendo de hemodiálise. Histórias como a dela aparecem nas redes sociais da Secretaria de Saúde quase toda semana, sempre com autorização das famílias. Nenhuma delas é espetáculo. Todas elas são registro de um porquê que voltou a ser possível.
No outro lado da equação está o luto. A coordenadora de enfermagem da Central, Roberta Lima, descreve a abordagem familiar como "o momento mais delicado da medicina". "A gente entra na pior hora da vida daquela família e pergunta se ela aceita transformar essa dor em outra coisa. Quando dizem sim, é uma generosidade que precisa ser honrada com técnica." Transformar a dor em outra coisa é, talvez, a definição mais concisa que já li do trabalho clínico-existencial que Frankl chamou de logoterapia. Roberta não o sabe, e não precisa saber. O que ela faz, ela faz bem.
O que ainda pode melhorar
A subnotificação continua sendo o principal gargalo nacional. Estima-se que pelo menos um terço dos casos de morte encefálica no Brasil sequer chegam a ser notificados às centrais estaduais. No DF, a meta para 2026 é fechar essa lacuna em hospitais privados de médio porte, hoje responsáveis por 22 por cento das notificações ausentes.
A segunda frente é a manutenção do potencial doador. Manter pressão arterial, oxigenação e função renal adequadas após a confirmação de morte encefálica exige protocolo rígido. Quando o paciente está instável e a família ainda não foi abordada, órgãos viáveis se perdem. A Secretaria de Saúde anunciou para abril deste ano um curso de educação continuada para enfermeiros de unidade de terapia intensiva sobre o tema, com 600 vagas. São medidas técnicas. Mas cada procedimento técnico protege a possibilidade de que, em algum momento, uma família encontre sentido onde antes só havia perda.
Como manifestar a vontade de doar
A legislação brasileira não exige carteira de doador. Basta avisar a família, em documento ou em uma conversa de almoço de domingo. Sem essa autorização, nenhum órgão é retirado. Pesquisa do Hospital Albert Einstein de outubro do ano anterior mostrou que 89 por cento das famílias que conheciam a vontade do parente respeitaram a decisão. Entre as que não sabiam, a recusa subiu para 56. A diferença é enorme, e toda ela cabe em uma conversa que pode durar cinco minutos.
A doação é gratuita, anônima por lei e não interfere em rituais de despedida. O corpo é devolvido à família em condições adequadas para velório. Vender órgãos é crime previsto na Lei 9.434/1997 e nunca foi registrado caso oficial no Brasil.
A solidariedade, no DF de 2026, virou política pública mensurável. Mas, por trás de cada número, permanece o gesto original: alguém que, confrontado com a morte alheia, decidiu dar sentido à dor transformando-a em possibilidade para outros. Frankl escreveu que nada no mundo ajuda tanto a sobreviver aos piores dias quanto saber que a vida tem um sentido. Dentro da Central de Notificação, às três da manhã, quando uma família diz sim, esse sentido se escreve em prontuário.
Perguntas Frequentes
- Distrito Federal lidera doação de órgãos no Brasil com 42 doadores efetivos por milhão?
- Capital federal registra a maior taxa per capita do país segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos. Cultura da doação, rede hospitalar ...
- Qual é o impacto desta medida no Distrito Federal?
- Em uma quinta-feira fria de fevereiro, uma equipe de doze pessoas trabalhou por sete horas seguidas dentro do Hospital de Base do Distrito Federal.
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