
Bloco cirúrgico do HRAN durante plantão matutino. Foto: Secretaria de Saúde do DF/Divulgação.
O HRAN faz 120 cirurgias ortopédicas por semana — e virou o maior centro do Centro-Oeste
São 6h05 quando o primeiro paciente entra no bloco cirúrgico do quinto andar do Hospital Regional da Asa Norte. Até o fim do dia, outros 23 passarão pela mesma porta. Em uma semana comum, são 120 cirurgias ortopédicas — número que faz do HRAN o maior centro público do gênero no Centro-Oeste.
São 6h05 quando o primeiro paciente entra no bloco cirúrgico do quinto andar do Hospital Regional da Asa Norte. Chama-se Raimundo, tem 62 anos, é pedreiro aposentado de Planaltina de Goiás e fraturou o fêmur depois de escorregar da laje que construía para o neto. Uma laje inteira construída por ele ao longo de meses, uma queda de segundos, e uma espera de 11 dias até esta manhã — tempo suficiente para reconhecer, como em outras madrugadas de espera no SUS do Distrito Federal e também em histórias que revelam os bastidores da saúde pública, como o sequenciamento da dengue pela Fiocruz Brasília em 72 horas, o peso humano que existe por trás de cada fila e de cada atraso. Raimundo não é uma estatística. É um homem que, durante essas onze manhãs de espera, teve tempo para pensar na própria idade, no neto que ficou sem casa pronta, no corpo que já não obedecia como antes.
Até o fim do plantão, outros 23 pacientes atravessarão a mesma porta automática. Cada um com um acidente, uma queda, um trabalho que deu errado. Em uma semana comum, são 120 cirurgias ortopédicas. Número que transformou o Hospital Regional da Asa Norte, quase por acidente, no maior centro público do gênero no Centro-Oeste. Viktor Frankl, que passou a vida pensando sobre o sentido do sofrimento, observava que a fratura física é, muitas vezes, o começo de uma fratura existencial. O bom trabalho ortopédico, feito a tempo, evita que uma vire a outra — e essa resposta depende de uma rede de urgência forte, como mostram as UPAs 24h do DF, que viraram modelo nacional, fundamental para o bem-estar da população.
O corredor das 120 cirurgias
O serviço de ortopedia e traumatologia do Hospital Regional da Asa Norte ocupa dois andares e opera com 18 leitos de enfermaria masculina, 14 femininos e uma unidade de estabilização pré-cirúrgica com seis leitos. São cinco salas de bloco dedicadas exclusivamente a procedimentos osteomusculares, funcionando das 6h às 22h de segunda a sábado, com plantão de urgência 24 horas, reforçando a excelência da rede hospitalar pública do DF, que também é referência nacional em outras áreas, como na doação de órgãos.
A equipe é composta por 42 médicos ortopedistas efetivos, 11 residentes do programa reconhecido pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, 28 enfermeiros especializados em centro cirúrgico, e um detalhe que impressiona quem visita pela primeira vez: 9 instrumentadores cirúrgicos treinados exclusivamente em traumatologia complexa. O detalhe importa. Cirurgia ortopédica não é feita apenas pela mão do cirurgião. É feita pela coreografia silenciosa da equipe inteira, e essa coreografia depende de quem entrega o instrumento certo no momento certo, em um modelo de excelência que segue a mesma lógica de investimento em alta complexidade que faz do Hospital de Base do DF uma referência em transplantes no Centro-Oeste.
A distribuição semanal, segundo dados internos do serviço consultados pela reportagem, segue um padrão previsível.
A eficiência na gestão pública, como a demonstrada pelo sistema integrado de segurança que agilizou a recuperação de veículos, também se reflete na área da saúde. A tabela abaixo detalha a média semanal de procedimentos ortopédicos de urgência realizados no DF: | Procedimento | Média semanal | % do total | |--------------|---------------|------------| | Osteossíntese de fêmur | 28 | 23,3% | | Artroplastia de quadril | 14 | 11,7% | | Fixação de rádio distal | 22 | 18,3% | | Tornozelo e pé | 19 | 15,8% | | Artroplastia de joelho | 11 | 9,2% | | Coluna (urgência) | 8 | 6,7% | | Outros | 18 | 15,0% |
O chefe do serviço, que pediu para não ser identificado por questões administrativas, resume assim: "A gente não escolheu ser o maior. A gente virou o maior porque os outros hospitais da região pararam de operar trauma complexo. Então tudo converge para cá." Ser o maior por atração gravitacional, não por planejamento, é uma dessas contradições comuns do sistema público. Quando um serviço funciona, ele começa a receber o que outros serviços deixaram de receber. O prêmio pela eficiência é mais trabalho.
De onde vêm os pacientes
Um levantamento conduzido pela própria direção do hospital entre janeiro e março de 2026 ajuda a explicar a pressão permanente sobre o bloco: apenas 41 por cento dos pacientes atendidos no serviço de ortopedia residem no Distrito Federal. Os demais chegam de 73 municípios diferentes.
Os maiores fluxos vêm de Águas Lindas de Goiás, Luziânia, Valparaíso, Formosa, Planaltina de Goiás, Unaí em Minas Gerais e até cidades do Tocantins como Gurupi e Paraíso. Há registro de pacientes transferidos de Palmas pelo serviço aéreo do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência.
"Recebemos três transferências por dia, em média, só da regional de Luziânia", afirma uma enfermeira do setor de regulação, que trabalha ali há oito anos. "Quando é sexta-feira, o número dobra. Trauma de moto não tem fim de semana." Ela diz isso sem drama. Depois de oito anos, o drama não cabe mais. O que cabe é a continuidade.
Os dados do DATASUS confirmam o que o corredor já sabia. O Hospital Regional da Asa Norte responde por 34 por cento de todas as internações ortopédicas do Sistema Único de Saúde no Distrito Federal e por aproximadamente 19 por cento das cirurgias osteomusculares realizadas no SUS em toda a macrorregião Centro-Oeste, considerados os dados consolidados de 2025.
O gargalo da prótese
Nem tudo é eficiência. A lista de espera por artroplastia eletiva (o procedimento em que uma articulação desgastada é substituída por prótese) era de 1.317 pacientes em 1º de abril deste ano, segundo o painel público da Secretaria de Saúde. A espera média atingiu 14 meses para quadril e 19 meses para joelho.
"A urgência é absorvida, mas a eletiva sangra", diz um dos ortopedistas na sala de descanso, entre uma cirurgia e outra. "Eu opero em quatro horas uma senhora de 78 anos que quebrou o colo do fêmur porque, se ela esperar mais de 48 horas, ela morre. Mas a outra senhora, de 71 anos, que está esperando prótese de quadril há 17 meses, vai continuar esperando porque não tem sala livre, não tem instrumental disponível, não tem prótese no estoque."
Dezenove meses de espera por uma prótese de joelho é, para a paciente, dezenove meses sem caminhar direito, sem acompanhar o neto na praça, sem subir uma escada sem dor. O sofrimento eletivo, embora não coloque a vida em risco imediato, corrói o sentido dos dias. Frankl escreveu que, quando o sofrimento não é evitável, ele pode ser transformado em oportunidade de crescimento interior. Quando é evitável e mesmo assim persiste, vira cicatriz institucional. Esta segunda forma é a mais difícil de justificar.
Em 2025, o serviço realizou 741 artroplastias. A demanda represada, calculada pelo próprio hospital, é de 2.400 procedimentos por ano. A conta não fecha. Cada número que não fecha é uma pessoa esperando.
O que mudou em três anos
Em 2022, o hospital realizava, segundo relatórios internos, média de 72 cirurgias ortopédicas por semana. A marca dos 120 foi atingida em outubro do ano anterior, depois de três mudanças concretas.
A primeira foi a reforma do quinto andar, concluída em julho de 2024, que adicionou duas salas de bloco ao serviço. A segunda foi a criação do protocolo de fast-track para fratura de fêmur proximal em idosos, que reduziu o tempo médio entre internação e cirurgia de 72 horas para 38 horas, dado apresentado pelo próprio serviço no Congresso Brasileiro de Ortopedia em novembro passado. A redução não é detalhe. Em idoso com fratura de colo de fêmur, cada 24 horas a mais de espera aumenta significativamente a mortalidade. Encurtar esse intervalo é medicina no sentido mais frankliano do termo: agir a tempo para que a pessoa continue podendo buscar o seu próprio porquê.
A terceira mudança foi menos visível, mas decisiva: a contratação, por concurso, de 14 novos ortopedistas em 2024 e mais 8 no exercício anterior. A folha do serviço cresceu 52 por cento em dois anos.
"A gente tinha as salas, tinha os pacientes, não tinha gente para operar", resume o diretor-adjunto do hospital. "Quando a Secretaria abriu o concurso, mudou tudo." O concurso abriu a escala. A escala devolveu a possibilidade de começar o dia às seis da manhã sem estar já atrasado.
O paciente que veio de Paranã
Dos 24 pacientes operados no turno que a reportagem acompanhou, um chegou de mais longe: João Batista, 54 anos, lavrador de Paranã, interior do Tocantins, a 727 quilômetros de Brasília. Fraturou a tíbia ao cair de um cavalo em fevereiro. Foi atendido primeiro em Dianópolis, transferido para Porto Nacional, depois para Palmas e, por fim, regulado para o Hospital Regional da Asa Norte no dia 14 de março.
"Lá no hospital de Palmas falaram que não tinha como operar do jeito que precisava. Que era para mandar para Brasília", conta a esposa dele, Maria do Socorro, esperando no corredor do sexto andar com um saco plástico contendo três mudas de roupa e uma toalha. Ela dormiu três noites na rodoviária antes de conseguir uma vaga na casa de apoio da Pastoral da Saúde.
Três noites na rodoviária. Um saco plástico como única bagagem. Uma mulher que deixou a rotina em Paranã para atravessar o país atrás do marido. Cada corredor de hospital contém, se a gente olhar com atenção, uma dessas caminhadas de amor que não cabem em indicadores.
Às 14h32, João Batista saiu da sala. A cirurgia, uma osteossíntese com placa bloqueada, durou duas horas e 11 minutos. O prognóstico, segundo o cirurgião, é de recuperação completa em quatro meses. Às 14h34, a próxima paciente entrou. O hospital tinha mais seis cirurgias programadas para aquele dia. O trabalho continua porque a dor continua chegando. Entre um caso e outro, há sempre alguém esperando do outro lado da porta que ainda não sabe quanto tempo vai demorar, mas sabe que precisa existir alguém ali para receber.
Perguntas Frequentes
- O HRAN faz 120 cirurgias ortopédicas por semana — e virou o maior centro do Centro-Oeste?
- Dentro do Hospital Regional da Asa Norte, o maior serviço de ortopedia do Centro-Oeste opera pacientes que chegam de Goiás, Tocantins e do Entorno. Re...
- Qual é o impacto desta medida no Distrito Federal?
- São 6h05 quando o primeiro paciente entra no bloco cirúrgico do quinto andar do Hospital Regional da Asa Norte.
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