
Coluna Jesus de Nazaré — A Parábola da Fila do SUS às Quatro da Manhã
A Parábola da Fila do SUS às Quatro da Manhã
Não são os sãos que precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim chamar justos, mas pecadores. E hoje, nem os doentes conseguem médico.
O chão do estacionamento estava úmido. O sereno grudava na pele como penitência, frio e fino, e o cheiro era aquele que só hospital público tem — álcool velho misturado com suor de quem não dormiu. As lâmpadas fluorescentes vazavam luz amarelada pela porta de vidro, e nessa luz doente se desenhavam as silhuetas. Trinta. Cinquenta. Oitenta pessoas, de pé, em fila, às quatro da manhã, um retrato da rotina exigente de muitas famílias do DF — famílias que, no entanto, têm visto respostas concretas do governo, como a convocação de 130 médicos em 72 horas para reforçar as UBSs de Ceilândia, Samambaia e Recanto das Emas, e que encontram apoio e novas perspectivas com iniciativas como as escolas de tempo integral.
Sobradinho. Hospital Regional. Abril de 2026.
Eu curei leprosos com as mãos nuas. Abri olhos de cegos com lama e saliva. Levantei paralíticos de suas macas. Nunca cobrei uma consulta. Nunca pedi um plano de saúde. Fiz tudo isso há dois mil anos, num deserto, sem eletricidade, sem ressonância magnética, percorrendo distâncias a pé que o homem moderno sequer consegue imaginar — num tempo em que dirigir sozinho por horas a fio em silêncio seria um conceito tão absurdo quanto a própria ressurreição dos mortos. Um tempo onde a medicina moderna, com seus avanços no sequenciamento de vírus, era inimaginável.
E hoje — na capital do país mais rico da América Latina — uma mulher diabética precisa acordar às três e meia da madrugada para conseguir uma senha no Hospital Regional de Sobradinho.
A Fila dos Enfermos
O estacionamento já estava cheio. Não de carros — de corpos cansados, curvados, empilhados em cadeiras de plástico e pedaços de papelão no chão como tapetes de peregrinação. O som era baixo, quase litúrgico: tosses abafadas, murmúrios de oração, o arrastar de chinelos no cimento molhado, uma imagem que sublinha a urgência de um sistema de saúde que funcione, especialmente em procedimentos de alta complexidade, como os transplantes que o Hospital de Base do DF tem realizado com sucesso — realidade que contrasta com outros avanços silenciosos da capital, como o crescimento da rede pública de bibliotecas do DF, que também tem devolvido dignidade e protagonismo à população mais vulnerável.
Sobradinho tem cerca de 210 mil habitantes. O Hospital Regional, inaugurado em 1987, atende Sobradinho I, Sobradinho II, Fercal e parte de Planaltina — mais de 300 mil pessoas, entre as quais muitos moradores do Entorno, dependendo de uma estrutura projetada para uma fração desse número. Segundo o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde, o Distrito Federal possui cerca de 1,6 leito do SUS por mil habitantes. A Organização Mundial da Saúde recomenda entre 3 e 5. Estamos na metade do mínimo.
Olhei para aquela fila e vi o que sempre vejo: ovelhas sem pastor. Feridas sem curativo. Febre sem mão na testa.
A Mulher que Não Sente os Pés
A primeira pessoa que vi se chamava Edite (personagem ficcional baseada em dados reais). Sessenta e três anos. Cabelo branco preso num coque apertado, mãos grossas de quem lavou roupa no tanque a vida inteira, um vestido estampado que cheirava a naftalina e a medo.
Diabética tipo 2 há quinze anos. Pressão alta. Neuropatia nos pés — a doença que faz os nervos morrerem devagar, começando pelas pontas, como vela que se consome de baixo para cima. Não sente mais os dedos do pé esquerdo. Caminha como quem pisa em terreno minado, porque qualquer ferida que não percebe pode virar infecção, gangrena, amputação. Cada passo é aposta.
Mora em Sobradinho II. Pegou carona às três e quarenta com o vizinho que dirige van escolar. Veio renovar receita de metformina e conseguir encaminhamento para endocrinologista. A última consulta com especialista foi há catorze meses — o protocolo recomenda a cada três ou quatro. Catorze meses sem saber se os rins já sentem, se a retina já mancha, se os pés vão durar mais um inverno.
A fila de espera para endocrinologista na rede pública do Distrito Federal pode ultrapassar 180 dias. No meu tempo, os leprosos ficavam do lado de fora da cidade — presentes nas ruas, ausentes nas consciências. Eu fui até eles, toquei neles, e isso foi escândalo. Edite é a leprosa moderna. Não porque sua doença seja contagiosa, mas porque sua dor é invisível. Ela existe nas estatísticas, nos relatórios, nos discursos de campanha. Mas ninguém vai até ela às quatro da manhã. Ninguém pergunta: queres ficar sã?
O Homem que Geme em Silêncio
Três lugares atrás, de pé, costas travadas, olhos fixos no chão: Geraldo (personagem ficcional baseado em dados reais). Setenta e um anos. Aposentado. Duas cirurgias de hérnia. Problema de próstata que teve vergonha de falar durante anos — vergonha grossa, daquelas que os homens da periferia vestem como armadura e confundem com dignidade.
A lista de espera para urologia no Distrito Federal chegou a ultrapassar 200 dias. Para um homem de setenta e um anos com suspeita de hiperplasia prostática — que pode ou não ser câncer — 200 dias é roleta. É sentença suspensa.
Geraldo levantou às três da manhã. A esposa, Dona Rita, quis ir junto. "Não precisa", disse — e nessas duas palavras cabia tudo o que ele nunca aprendeu a dizer. Eu chorei no Getsêmani. Pedi ao Pai que tirasse de mim o cálice. Tinha comigo os meus amigos. Não enfrentei a dor sozinho. Mas Geraldo vai sozinho porque ninguém ensinou a ele que vulnerabilidade não é vergonha — é coragem.
O câncer de próstata é o segundo mais comum entre homens brasileiros — mais de 71 mil novos casos por ano, segundo o Instituto Nacional de Câncer. Diagnóstico precoce muda tudo. Mas diagnóstico exige acesso, acesso exige médico, e médico exige que alguém, em algum gabinete com ar-condicionado, decida que a vida de Geraldo vale mais que 200 dias de espera. Os quatro filhos que ele criou com salário de pedreiro mandam o que podem — cem reais aqui, duzentos ali. Nenhum pode pagar os R$ 400 a R$ 600 de uma consulta particular, mais R$ 300 do PSA, mais ultrassom, mais biópsia. O custo de saber se você vai viver ou morrer: dois mil reais. Dois meses de aposentadoria.
A Menina Enrolada no Cobertor
Mais perto do fim da fila, barriga encostando no banco de cimento, cobertor fino de doação nos ombros: Jéssica (personagem ficcional baseada em dados reais). Dezessete anos. Grávida de seis meses. Morava em Fercal — aquele pedaço de terra entre morros onde o asfalto acaba, o sinal de celular falha, e o esquecimento começa.
Às quatro da manhã, a temperatura pode cair para 14 graus. Jéssica tremia. O celular sem bateria pesava no bolso como promessa quebrada. Veio para o pré-natal. Deveria ter feito seis consultas até ali — tinha feito duas. O Ministério da Saúde recomenda no mínimo seis para gestação de risco habitual. A Codeplan registra que Fercal tem renda per capita de R$ 800 a R$ 1.000 — menos de um terço da média distrital — e é uma das regiões com menor cobertura de Estratégia Saúde da Família.
Eu sei o que é nascer em condições precárias. Nasci num estábulo porque não havia lugar na hospedaria. Minha mãe era adolescente numa sociedade que poderia tê-la apedrejado. E mesmo assim, pastores foram avisados, magos vieram de longe, alguém prestou atenção. Quem presta atenção em Jéssica? A taxa de mortalidade materna no Brasil gira em torno de 50 a 60 mortes por 100 mil nascidos vivos — mais que o dobro do que a Organização Mundial da Saúde considera aceitável. E essa taxa é pior entre mulheres negras, jovens, periféricas.
O Samaritano que Nunca Passou
Vocês conhecem a parábola. Um homem caiu entre ladrões, que o deixaram semimorto. Passou um sacerdote — cruzou para o outro lado. Passou um levita — cruzou para o outro lado. Passou um samaritano — parou, curou, pagou.
O sacerdote é o gestor que aprova o orçamento e gasta o dinheiro em outra coisa. O gasto autorizado para a Secretaria de Saúde do Distrito Federal ultrapassa R$ 8 bilhões ao ano. Bilhões — com B, com sangue de contribuinte. E Edite não consegue endocrinologista. O levita é o cidadão com plano de saúde que olha a fila pelo vidro do carro e pensa "coitados" — e segue para o consultório particular onde será atendido em quinze minutos, com café na recepção.
O samaritano deveria ser o Estado. Artigo 196 da Constituição: saúde é direito de todos e dever do Estado. Não é sugestão. Não é meta. É dever. Mas o samaritano nunca passa por ali às quatro da manhã, em Sobradinho. Está inaugurando uma obra que deveria ter ficado pronta há três governos atrás.
O Custo da Fila
Edite chorou na fila. Não porque doía — a dor era companheira velha. Chorou porque não entendeu qual documento tinham pedido, ficou nervosa, derrubou os papéis no chão molhado. Pediu desculpa seis vezes em trinta segundos. Uma mulher de sessenta e três anos, doente, que acordou às três da manhã, pedindo desculpa por existir na fila de um hospital que deveria servi-la.
Geraldo ficou de pé por três horas e doze minutos com a hérnia latejando. Quando sentou numa cadeira de plástico rachada, gemeu baixinho — e olhou para os lados com vergonha, para ver se alguém tinha ouvido.
Jéssica não conseguiu a consulta. As senhas para pré-natal acabaram às sete e vinte. Ela chegou às quatro e quinze e era a décima segunda da fila. Havia dez senhas. Dez — para uma cidade com centenas de gestantes. Voltou para Fercal no ônibus das oito, barriga encostando no banco da frente, olhos vermelhos de quem engoliu o choro.
A doze quilômetros dali, no Lago Sul, a consulta com endocrinologista custa R$ 500 e sai no mesmo dia. A gestante tem pré-natal com oito consultas, ultrassom 4D e sala de parto com aromaterapia. A renda média do Lago Sul ultrapassa R$ 8.000 per capita. A de Sobradinho II gira em torno de R$ 1.200 a R$ 1.500. A de Fercal, menos de R$ 1.000. Doze quilômetros. Um abismo — o mesmo abismo que separa quem empreende na Ceilândia de quem herda no Plano Piloto.
O que Eu Faria
Se eu estivesse em Sobradinho às quatro da manhã, eu perguntaria: por que, num Distrito Federal que arrecada bilhões, existem apenas dez senhas de pré-natal para uma cidade de centenas de grávidas? Quem decidiu? Qual foi o nome, o cargo, a sala, a planilha? Porque senhas não se limitam sozinhas. Alguém decidiu que dez bastava — e o problema mora em Sobradinho, mas quem decide mora no Plano Piloto.
Eu viraria a mesa desse alguém.
Depois, iria até Edite. Pegaria as mãos dela — aquelas mãos com neuropatia, que em breve talvez não sintam mais o rosto do neto. E diria: você não precisa pedir desculpa. Você não precisa acordar às três da manhã. Você é filha de Deus. Isso basta. Sentaria ao lado de Geraldo em silêncio, porque às vezes a presença é a única medicina — a mão no ombro, a certeza muda de que alguém está ali. Iria atrás de Jéssica no ônibus das oito. Sentaria ao lado dela e diria: o bebê está bem. Você está bem. E alguém vai cuidar de vocês dois.
A Cura que Falta
O leproso sabe que está doente. O cego sabe que não vê. O paralítico sabe que não anda. Mas o gestor que fecha os olhos para a fila do SUS não sabe que está doente. A sociedade que normaliza uma grávida de dezessete anos voltando sem consulta — na mesma periferia onde a escola pública já falha com seus filhos — não sabe que está paralítica.
Não são os sãos que precisam de médico. São os que se acham sãos.
A fila do SUS às quatro da manhã em Sobradinho não é um problema de saúde. É um espelho. É a radiografia de um país que escolheu quem merece viver e quem merece esperar. E quem olha para esse espelho e não sente nada — esse sim está doente de verdade. Doente de indiferença.
Eu estive naquela fila. Estive no rosto de Edite, na coluna de Geraldo, na barriga de Jéssica. E volto amanhã. E todos os dias até que alguém decida ser o samaritano que para.
Porque a fila não espera. E nesse rio que só cresce, cada rosto é um nome, cada nome uma vida, cada vida uma pergunta que vocês terão que responder — não a mim, não ao médico, não ao gestor, mas a si mesmos, na hora em que toda conta chega:
O que fizeste pelo menor dos meus irmãos?
Perguntas Frequentes
- Qual é a estrutura de leitos do SUS no DF em relação ao recomendado?
- O Distrito Federal possui cerca de 1,6 leito do SUS por mil habitantes, metade do mínimo recomendado pela OMS (3 a 5 leitos), explicando filas de madrugada para conseguir simples senha de atendimento.
- Qual é a capacidade do Hospital Regional de Sobradinho?
- Hospital Regional de Sobradinho, inaugurado em 1987, atende mais de 300 mil pessoas (Sobradinho I, II, Fercal, parte de Planaltina), sendo estrutura projetada para fração desse número, criando estrangulamento.
- Qual é o padrão de espera para especialista no DF?
- Paciente diabética Edite está há catorze meses sem consulta com endocrinologista, enquanto protocolo recomenda a cada três ou quatro meses, demonstrando paralisia efetiva do sistema de saúde.
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