
Eixão Sul às 7h45: 38 minutos para percorrer 9 quilômetros. A média do brasiliense ao volante.
O brasiliense dirige em média 1h30 por dia — a cidade dos carros é a cidade dos solitários
O carro entra no Eixão às 7h12. O motorista é uma mulher de 43 anos, contadora de uma autarquia federal, mora no Sudoeste, trabalha no Setor Comercial Sul. A distância é de 9,4 quilômetros. O percurso demora 38 minutos. Ela faz isso de manhã. Faz de novo às seis e meia da tarde. Faz de segunda a sexta. Faz há onze anos. Não conversa com ninguém durante o trajeto. Liga o rádio. Às vezes nem isso.
Sete e doze da manhã. O carro entra no Eixão. Dentro dele vai uma mulher de 43 anos, contadora de autarquia federal, mora no Sudoeste, trabalha no Setor Comercial Sul.
Distância: 9,4 quilômetros. Tempo do trajeto: 38 minutos. Ela faz isso de manhã. Faz de novo às seis e meia da tarde. Faz de segunda a sexta. Faz há onze anos.
Não conversa com ninguém durante o trajeto. Liga o rádio. Às vezes nem isso, minha gente.
Dona Codeplan soltou em fevereiro de 2026 a Pesquisa Origem-Destino 2024. É o retrato mais detalhado já feito da relação do brasiliense com o carro, em um Distrito Federal que já ostenta a maior taxa de veículos per capita do Brasil: 32 mil casas visitadas, 78 mil deslocamentos registrados, GPS instalado em 4.200 carros voluntários por duas semanas.
Traduzindo em uma só frase, minha gente: o adulto do Distrito Federal passa em média 91 minutos por dia dentro do carro. Uma hora e meia. Todo santo dia.
É o maior tempo de volante individual do Brasil. São Paulo, que é chamada de inferno do trânsito, tem média de 78 minutos. Rio de Janeiro, 71. Belo Horizonte, 64.
E presta atenção: a diferença não é engarrafamento. Brasília, na verdade, engarrafa menos. A diferença é a distância. A cidade foi desenhada pra ser rodada de carro. E é rodada de carro.
A frota e a malha
O DF tem hoje 2,14 milhões de veículo registrado no Detran. Pra uma população de 3,12 milhões, dá a maior taxa de motorização per capita do país: 686 carro pra cada mil habitantes.
Em São Paulo, são 553. Em Curitiba, 624. Em Recife, 401.
Mas o número de carro não conta a história sozinho, minha gente. O que faz Brasília ser Brasília é a combinação da frota gigante com a malha viária pensada pra ela. São 5.480 quilômetros de via pavimentada. Cinturão, Eixão, EPIA, tudo separando bairro de trabalho, casa de comércio, lazer de moradia.
A análise dos indicadores de mobilidade urbana no Distrito Federal revela uma forte dependência do transporte individual: os brasilienses dedicam, em média, 91 minutos diários ao volante e realizam 58,4% de seus deslocamentos em carro próprio. Essa realidade, que também se reflete na distância média casa-trabalho de 17,2 km, contribui para um trânsito mais intenso e ruas mais cheias, um cenário que o Mirante News já explorou ao detalhar por que as ruas estão mais cheias que em 2019.
A distância média entre casa e trabalho no DF é quase o dobro da média metropolitana brasileira. E o uso do ônibus e do metrô é a metade.
Olha só, minha gente: a Codeplan perguntou em questão aberta por que a pessoa prefere carro. A resposta mais comum foi "não tem ônibus que sirva meu trajeto" (38%). Em seguida, "demora demais" (29%) aparece como um fator crucial, especialmente para o servidor federal de Brasília, que enfrenta rotinas exaustivas e longos deslocamentos. Outros 17% citaram "não me sinto seguro", e apenas 9% disseram "eu gosto do carro".
Ou seja: o brasiliense não dirige porque ama dirigir. Dirige porque a alternativa não existe, ou é pior.
A hora calada
A pesquisa da Codeplan inovou. Incluiu, pela primeira vez, um módulo qualitativo sobre o que o motorista sente durante o trajeto. Foram entrevistadas 1.840 pessoas em profundidade.
A pergunta era simples: "descreva como você se sente no tempo que passa no carro indo trabalhar". Os pesquisadores juntaram as respostas em sete blocos. O resultado dá um pouco de aperto.
| Sentimento | % |
|---|---|
| Tédio, vazio, piloto automático | 31,4% |
| Tensão, ansiedade com o trânsito | 22,8% |
| Descompressão, alívio | 14,1% |
| Cansaço, sono | 12,6% |
| Solidão, silêncio incômodo | 9,3% |
| Produtividade (podcast, ligação) | 6,8% |
| Prazer, gosto de dirigir | 3,0% |
Só 3%, minha gente. Só 3% gostam do trajeto. Mais da metade — 53,2% juntando tédio, ansiedade, cansaço e solidão — descreveu algo negativo ou neutro.
A coordenadora da pesquisa me disse, em entrevista ao Mirante semana passada, que o achado mais inesperado foi a palavra "ninguém". Apareceu em 412 das 1.840 entrevistas. Escreviam frases do tipo: "passo uma hora e meia sem falar com ninguém", "chego no trabalho sem ter dito uma palavra", "no carro eu não existo pra ninguém".
A pesquisa de mobilidade virou, sem querer, termômetro de saúde mental urbana.
Quem dirige mais
O perfil do motorista que mais tempo passa no volante tem rosto bem definido, minha gente. Mulher entre 35 e 49 anos, com filho em idade escolar, trabalhando no Plano, morando em Águas Claras, Sudoeste, Park Way, Sobradinho ou Vicente Pires.
Essa pessoa passa 112 minutos por dia no carro. Quase duas horas. Por quê? Porque acumula trajeto. Leva filho na escola, vai ao trabalho, sai na hora do almoço pra resolver coisa do filho, busca filho na escola, leva no inglês, leva na natação, vai no supermercado, volta pra casa.
A Codeplan contou: média de 4,8 deslocamentos por dia pra essa faixa, contra 2,3 pro motorista homem da mesma idade.
A divisão de tarefa doméstica no DF tem rosto, tem endereço e tem volante.
Homem dirige em média 78 minutos por dia. Mulher, 104. Diferença de 26 minutos por dia, vezes 22 dias úteis, dá 9,5 horas a mais por mês ao volante. Vezes 12 meses, dá 114 horas por ano. Quase cinco dias inteiros.
É trabalho invisível, minha gente. Remunerado em zero.
A conta do modelo
A Semob calculou em 2024 quanto custa manter o modelo rodoviarista no DF. Combustível, manutenção, seguro, depreciação, IPVA, estacionamento, financiamento: R$ 1.480 por mês em média pra quem tem carro popular e roda 1.200 km por mês. Pra quem tem carro de R$ 100 mil ou mais, passa de R$ 2.600.
Numa família com dois carros — situação de 41% dos domicílios do Plano Piloto, Lago Sul, Lago Norte e Águas Claras — o gasto passa de R$ 3.800 por mês. É mais do que essa mesma família gasta com comida, segundo cruzamento com a Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE.
E tem a conta que ninguém vê, minha gente. 91 minutos por dia, vezes 22 dias úteis, vezes 12 meses, dá 401 horas por ano. Dezesseis dias inteiros. Se o salário-hora médio do trabalhador formal do DF é R$ 38, o custo de oportunidade do tempo perdido no carro chega a R$ 15.238 por ano. Por pessoa.
Quinze mil reais no farol vermelho.
Pra onde vai
O Plano de Mobilidade do DF, em revisão pela Semob desde 2024, propõe três frentes pros próximos dez anos. Ampliar o metrô pra Samambaia Sul e Ceilândia Sul. Criar 18 corredores BRT cruzando regiões administrativas sem passar pelo Plano Piloto. Implantar 240 km de ciclovia conectada.
Se tudo sair no prazo, a previsão é reduzir o tempo médio no volante em 14 minutos por dia até 2034. É pouco, minha gente. Menos de 16% do total. E ainda depende de obra que historicamente atrasa.
O metrô do DF foi inaugurado em 2001 com promessa de chegar em Samambaia Sul em 2008. Chegou em 2014. A extensão pra Ceilândia Sul, prometida em 2018, ainda está em licitação.
A contadora do Sudoeste, do começo da matéria, fez a conta pro repórter. Quantas horas passou no carro nos onze anos em que faz o mesmo trajeto? Deu 4.412 horas. Cento e oitenta e quatro dias inteiros. Seis meses da vida dela.
Sentada no Eixão. Sozinha. Olhando pro farol vermelho. Esperando.
Perguntas Frequentes
- Qual é o tempo médio que um brasiliense passa dirigindo por dia?
- De acordo com a Pesquisa Origem-Destino da Codeplan, o morador do Distrito Federal dirige em média 1 hora e 30 minutos por dia.
- O que revela a Pesquisa Origem-Destino da Codeplan sobre o DF?
- A pesquisa revela os hábitos de deslocamento dos moradores, incluindo tempo médio ao volante, horários de pico e detalhes sobre trajetos típicos, como o de uma contadora que percorre 9,4 km em 38 minutos.
- Qual é um exemplo de trajeto típico de um morador do DF para trabalhar?
- Um exemplo citado é o de uma mulher de 43 anos, contadora, que mora no Sudoeste e trabalha no Setor Comercial Sul, percorrendo 9,4 quilômetros em 38 minutos no Eixão, geralmente às 7h12 da manhã.
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