
Coluna Jesus de Nazaré — A Parábola da Mãe do Sol Nascente
A Parábola da Mãe do Sol Nascente
Em verdade vos digo que tudo o que fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.
O nome dela é Sandra (personagem ficcional baseada em dados reais). Mas poderia ser Maria. Poderia ser Raquel. Poderia ser Rute. Poderia ser qualquer uma das mulheres que eu encontrei na Galileia — mulheres que carregavam o mundo nas costas, uma realidade que, para muitos, se reflete na solidão de longas jornadas diárias, num Distrito Federal onde até o servidor federal, com o maior salário médio do Brasil, declara passar mais de duas horas por dia no deslocamento casa-trabalho, enquanto os homens discutiam quem era o maior.
Sandra tem 38 anos. Mora no Sol Nascente, Trecho 3. Tem dois filhos: Gabriel, de 11, e Sofia, de 9. O pai das crianças sumiu quando Sofia tinha oito meses. Não morreu, não viajou, não foi preso. Sumiu. Como somem tantos pais neste país — pela porta dos fundos, sem aviso, sem pensão, sem vergonha.
Sandra acorda às 4h10 da manhã. Todo dia. Seis dias por semana.
O Dado que Vocês Precisam Saber Primeiro
No ano passado, o Governo do Distrito Federal investiu R$ 2,3 bilhões em obras viárias. Guardem esse número.
O Sol Nascente — maior aglomerado urbano informal da América Latina, mais de 100 mil moradores — recebeu R$ 47 milhões.
Dois por cento do total.
Dois por cento para a maior comunidade informal do continente. O resto foi para o Plano Piloto e entorno — Noroeste, Sudoeste, Park Sul. Regiões que já têm asfalto, iluminação, transporte público (metrô e BRT), e ciclovias. Regiões onde a renda média supera R$ 10 mil.
Quando eu multiplicava pães, distribuía igualmente. Não dava cinco pães para quem já tinha e as migalhas para quem estava com fome.
Agora entendam o que esses 2% significam na carne de Sandra.
O Sol Nascente
O Sol Nascente não é favela no sentido do Rio — não tem morro, não tem viela vertical. É horizontal. Se espalha pelo cerrado como uma mancha de concreto irregular, casas inacabadas de tijolo aparente, lajes expostas com vergalhões apontando para o céu como dedos acusadores.
A renda domiciliar média, de apenas R$ 1.800 por mês, ilustra a realidade de muitas famílias que, em meio a desafios, buscam o sustento diário, por vezes com exemplos de resiliência como o menino de onze anos que entrega comida de bicicleta. Soma-se a isso o fato de quase metade das ruas ainda não possuir asfalto, o esgoto alcançar menos de 35% dos domicílios e a unidade básica de saúde mais próxima do Trecho 3 estar a 2,8 quilômetros, contando com apenas três médicos para atender 40 mil pessoas.
O Sol Nascente não aparece nos cartões postais de Brasília. Não aparece nos roteiros turísticos. Aparece nas estatísticas de violência, evasão escolar, gravidez adolescente, desemprego.
Sandra nasceu ali. Cresceu ali. Vai morrer ali, provavelmente. Não porque queira — porque ninguém construiu uma saída.
A Caminhada
Às 4h10, Sandra levanta. Café preto com pão, quando tem pão. Às vezes só o café. Às vezes nem isso.
Às 4h30, deixa café pronto para Gabriel. Sofia fica com a vizinha Dona Célia (personagem ficcional baseada em dados reais) — 71 anos, cuida de quatro crianças do bloco em troca de R$ 200 por mês de cada mãe. Oitocentos reais para quatro crianças das 5h às 14h. Creche informal. Creche necessária. Creche invisível para o Estado.
Às 4h40, Sandra sai de casa.
Quatro quilômetros a pé até o ponto de ônibus na avenida principal. Quatro quilômetros de terra batida no seco — poeira vermelha que gruda no cabelo, nos cílios, na roupa passada que ela carrega numa sacola para trocar quando chegar. Quatro quilômetros de lama no chuvoso — lama que engole o chinelo e salpica a calça até o joelho.
Os dois primeiros quilômetros no escuro, com o celular na mão como lanterna e arma de chamada de socorro.
Uma mulher. Sozinha. No escuro. Às 4h40.
Eu caminhei muito. Da Galileia a Jerusalém são 150 quilômetros. Fiz esse caminho várias vezes, a pé, em sandálias, por estradas de pedra e poeira. Sei o que são pés cansados. Sei o que é caminhar quando o corpo pede para parar.
Sandra caminha 4 quilômetros de ida. Quatro de volta. Oito por dia. Quarenta e oito por semana. Quase 200 por mês. Dois mil e quatrocentos por ano.
Só para chegar ao ponto de ônibus.
O Ônibus
No ponto, espera. Dez minutos. Trinta. O ônibus que serve o Sol Nascente tem frequência de um a cada 25 minutos no pico. Fora do pico, um a cada 40.
Quando chega, está lotado. Sandra entra espremida entre corpos suados, mochilas, sacolas. O ar é denso — quente, úmido, com cheiro de desodorante barato e cansaço. O motor treme. O banco de plástico queima mesmo de madrugada, aquecido pelo calor de cem pessoas que vieram antes.
Sol Nascente ao terminal de Ceilândia: 35 minutos. Do terminal, outro ônibus — agora para o Lago Sul. Mais 55 minutos, se o trânsito na EPTG colaborar.
Total: entre 1h40 e 2h20 de ida. O mesmo de volta. Três a quatro horas e meia por dia. Oitenta horas por mês.
Oitenta horas. Duas semanas inteiras de trabalho. Dentro de um ônibus.
O passe custa R$ 5,50 por trecho. Quatro trechos por dia: R$ 22. R$ 528 por mês. Trinta e sete por cento do salário mínimo. Antes de comer, antes de pagar luz, antes de comprar o caderno de Sofia.
O Lago Sul
Sandra trabalha no Lago Sul. A renda média domiciliar: R$ 28.500 por mês. A do Sol Nascente: R$ 1.800. Razão de 15,8 para 1.
Sandra mora no polo mais pobre e trabalha no polo mais rico. Cruza o abismo todo dia, duas vezes, dentro de um ônibus lotado.
A casa onde trabalha tem 750 metros quadrados. Quatro suítes. Home theater. Adega climatizada. Piscina com borda infinita e vista para o Lago Paranoá. Valor estimado: R$ 5,2 milhões.
Sandra limpa essa casa. Todos os cômodos, todas as superfícies, todos os pisos. Lava, passa, cozinha quando pedem. Cuida do jardim quando o jardineiro falta.
R$ 1.412 por mês. Com carteira assinada — isso ela reconhece como privilégio, porque a colega da casa ao lado ganha R$ 1.200 sem carteira nenhuma.
R$ 1.412 para limpar R$ 5,2 milhões. Com os pés que caminharam 4 quilômetros antes do sol nascer.
O Contraste
A patroa de Sandra se chama Fernanda (personagem ficcional baseada em dados reais). Tem 43 anos. Não trabalha fora. Fernanda faz pilates às 9h, almoça com amigas às 12h, busca os filhos na escola bilíngue às 15h, janta fora com o marido às 20h.
Fernanda é gentil. Dá o vale-transporte certinho. Paga em dia. No Natal, cesta básica e R$ 200 de bônus. Não maltrata. Não grita. Não humilha.
Mas Fernanda jamais perguntou quanto tempo Sandra leva para chegar ao trabalho. Jamais perguntou onde Sandra mora. Jamais ofereceu carona até o terminal — embora passe de carro pela porta dele três vezes por semana.
Eu disse: "Tive fome e não me destes de comer. Tive sede e não me destes de beber. Fui forasteiro e não me acolhestes."
Sandra é uma das pequeninas. E vocês a veem todo dia — no ônibus, na portaria, no elevador de serviço — sem ver.
A Viagem de Maria
Minha mãe fez uma viagem parecida. Lucas registrou no capítulo 2.
Maria estava grávida de mim — nove meses, barriga enorme, pés inchados. César Augusto decretou que todos deveriam se alistar na cidade de origem. José era de Belém. Então Maria, grávida, caminhou de Nazaré a Belém.
São 150 quilômetros. A pé. Grávida. Por estradas de terra.
Quando chegaram, não havia lugar na hospedaria. A mulher que carregava o Filho de Deus no ventre pariu num estábulo, entre animais, porque o sistema — naquela época chamado "Império" — não reservava espaço para os pobres.
Sandra faz sua viagem de Nazaré a Belém todo dia. Carrega o peso de dois filhos, uma casa de dois cômodos, uma conta de luz atrasada, um aluguel de R$ 650. Consome quase metade do salário, e a certeza surda de que amanhã será igual.
Maria pelo menos tinha José ao lado.
Sandra caminha sozinha.
Os Pés Cansados de Deus
Eu andei por toda a Galileia. Subi montanhas para pregar. Desci vales para curar. Cruzei desertos para orar. Nunca reclamei dos pés cansados, mas eles doíam. Eu era humano. A carne dói.
Quando lavei os pés dos meus discípulos — João 13 — não foi gesto simbólico. Foi gesto prático. Os pés estavam destruídos. Rachados, sujos, calejados. Lavei porque precisavam ser lavados. Porque ninguém mais ia fazer isso.
Se eu estivesse em Brasília hoje, lavaria os pés de Sandra. Não como poesia. Como gesto literal. Água morna, pano limpo, sentado no chão da casa de dois cômodos no Trecho 3. Lavando aqueles pés que caminham 8 quilômetros por dia para limpar a casa de quem não sabe que ela existe.
E diria: "Descansa, filha. Eu seguro o mundo por uma noite."
A Parábola
Vou contar como parábola — porque é assim que falo, e é assim que a verdade atravessa a armadura.
Um rei governava uma cidade dividida em duas.
Na metade norte: palácios com fontes de água cristalina, jardins que floresciam o ano inteiro, crianças brincando em praças de mármore.
Na metade sul: casas de barro, um poço que secava todo verão, mulheres que carregavam água na cabeça por quilômetros, crianças descalças em ruas de pedra.
O rei visitava a metade norte todo dia. Conhecia o nome de cada nobre. Jantava com os ricos. Prometia mais fontes, mais praças, mais palácios.
Na metade sul, nunca ia. "É perigoso", diziam os conselheiros. "É sujo", diziam os ministros. "O povo de lá não vota em nós", diziam os assessores.
Um dia — ouçam bem — uma mulher da metade sul carregou água por 4 quilômetros, tropeçou numa pedra e quebrou o cântaro. A água derramou na terra seca. Toda. A mulher sentou no chão e chorou.
Não por dor.
Por cansaço. Aquele cansaço que entra nos ossos e não sai mais.
Um estrangeiro que passava viu a mulher. Parou. Pegou os cacos do cântaro. Foi até o poço, encheu seu próprio cantil e trouxe água para ela beber. Sentou ao lado até que parasse de chorar. Depois, colocou a mulher no jumento e levou-a até em casa.
O rei nunca ficou sabendo. Estava ocupado inaugurando uma fonte nova na praça dos nobres.
Eu pergunto: quem governou naquele dia?
O rei no palácio — ou o estrangeiro na estrada de terra?
Aos Que Têm Ouvidos
Sandra vai acordar amanhã às 4h10. Vai caminhar 4 quilômetros no escuro. Vai pegar dois ônibus. Vai limpar uma casa de R$ 5,2 milhões. Vai voltar às 19h30, com os pés doendo, a coluna travada, e a obrigação de fazer janta, ajudar na lição e colocar dois filhos para dormir.
E depois vai dormir. E acordar. E repetir.
Sandra não quer pena. Sandra quer asfalto. Quer ônibus. Quer creche pública para Sofia. Quer um postinho de saúde que funcione. Quer o mínimo — o absolutamente mínimo.
Se vocês são cristãos — e este país se diz o maior país cristão do mundo — então Sandra é a medida da fé de vocês. Não o tamanho da igreja. Não o volume do louvor. Não o valor do dízimo. Sandra. O que vocês fazem por Sandra. O que vocês cobram do governo em nome de Sandra.
Porque no último dia, quando eu separar os bodes das ovelhas — e esse dia vem — não vou perguntar quantas vezes foram à igreja. Vou perguntar quantas vezes viram Sandra e pararam.
Ela caminha 4 quilômetros todo dia. Vocês precisam caminhar só até a consciência de vocês.
É mais perto.
Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
Coluna produzida por inteligência artificial na persona de Jesus de Nazaré, sob supervisão editorial humana. Os dados populacionais do Sol Nascente são da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD/Codeplan). Os dados de transporte são do DFTrans e Agência Brasília. As referências bíblicas são de Lucas 2:1-7, Mateus 25:31-46 e João 13:1-17.
A coluna Jesus de Nazaré é uma voz editorialmente independente dentro do Mirante News. As posições aqui expressas não representam necessariamente a linha editorial do veículo. Os personagens são composições ficcionais baseadas em dados reais do Distrito Federal.
Perguntas Frequentes
- Qual é a situação de Sandra como mãe solo?
- Sandra tem 38 anos, dois filhos (Gabriel 11, Sofia 9), é mãe solo desde Sofia ter oito meses, caminha 4 km até ponto de ônibus e limpa mansões de R$ 5 milhões no Lago Sul por renda mínima.
- Qual é a proporção de investimento do GDF no Sol Nascente?
- GDF investiu R$ 2,3 bilhões em obras viárias, sendo apenas 2% (R$ 47 milhões) para Sol Nascente (maior aglomerado informal da América Latina com 100 mil moradores), resto para Plano Piloto e entorno.
- Qual é o horário de trabalho de Sandra?
- Sandra acorda às 4h10 todos os dias, seis dias por semana, caminhando duas horas apenas para chegar ao ponto de ônibus, ilustrando carga invisível do trabalho reprodutivo e de cuidado.
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