
Saguao de embarque do Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek em dia de movimento intenso
O aeroporto de Brasília é o único lugar da cidade onde todo mundo se encontra
O Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek recebeu 16,2 milhões de passageiros em 2025, segundo a concessionária Inframerica, consolidando-se como o terceiro maior do país e — menos óbvio — como o único espaço público verdadeiramente transversal da capital federal.
O aeroporto de Brasília é o único lugar da cidade onde todo mundo se encontra
Imaginem o saguão de desembarque do Juscelino Kubitschek num domingo de Páscoa de 2026, quatro e dezessete da tarde. Cheiro de café passado vindo da rede padrão da entrada, ar-condicionado gelado batendo no rosto, o ranger constante das rodinhas das malas no piso de granito polido, ao longe, uma criança chorando porque o pai sumiu por trinta segundos. Observe a cena: Conceição Barbalho, 71 anos, costureira aposentada de Samambaia — uma das muitas cidadãs que transitam pelo comércio popular do Distrito Federal, do shopping do povo que nunca fecha na Rodoviária de Brasília até os terminais de embarque —, está em pé há quarenta e dois minutos junto ao portão B12, segurando uma sacola plástica com um bolo de fubá embrulhado em papel-toalha. Ela espera a neta Marília Bressan, 22 anos, que volta de Teresina com a primeira certidão de conclusão de curso da família — Pedagogia, UFPI, três anos e meio.
Quando Marília atravessa as portas automáticas, Conceição não corre. Caminha. Trinta passos lentos. Para a um metro da neta. Olha. Levanta a sacola do bolo, oferece com a mão trêmula, diz: "Pra tu não ter que comer comida de avião na volta." Marília abraça primeiro, recebe a sacola depois, e fica os dois minutos seguintes chorando no ombro da avó. Reparem o que está acontecendo a três metros desse abraço: um diplomata brasileiro de paletó cinza-chumbo despede-se da esposa para embarcar a Genebra. Ele olha o abraço da Conceição. A esposa olha o abraço da Conceição. Por uma fração de segundo, ambos esquecem o próprio embarque. É uma das raras imagens em que a Brasília inteira cabe num único quadro de doze metros quadrados — a mesma cidade que reorganiza silenciosamente a vida de suas famílias, como mostram as escolas de tempo integral que já transformaram a rotina de 60 mil crianças no Distrito Federal, um lembrete de que os vínculos mais verdadeiros desta capital se constroem longe dos holofotes.
Há lugares em que uma cidade se mostra por inteiro, e há cidades em que esses lugares não existem. Brasília, a princípio, pertencia ao segundo grupo. A capital foi desenhada em setores, em quadras, em eixos, em escalas. Cada um tinha o seu público designado, o seu modo de estar, o seu perímetro. O servidor federal nos ministérios, o morador do Entorno nas rodoviárias, o turista nos mirantes, o diplomata nas embaixadas, a família do Lago Sul em seus condomínios discretos. Poucos lugares prestavam o serviço modesto de juntá-los.
Há um, no entanto, e fica a 11 quilômetros da Esplanada. Chama-se Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek. Ali, por alguma conspiração da geografia e da burocracia, todas as Brasílias se esbarram.
Dezesseis milhões de personagens
O número é seco, mas convém repeti-lo. Dezesseis milhões, duzentos mil passageiros passaram pelos saguões do JK em 2025. É o terceiro maior fluxo do país, atrás apenas de Guarulhos e Galeão. A Inframerica, concessionária que administra o terminal, dividiu esse contingente em categorias úteis a quem gosta de estudar gente, um universo que também inclui o tempo que o brasiliense dedica ao volante em seu dia a dia.
A análise dos perfis de quem frequenta o Distrito Federal revela uma composição diversificada. Entre os visitantes e moradores, 18% são servidores federais em missão, predominantemente do Plano Piloto. Turistas a lazer representam 22%, vindos principalmente de São Paulo, Rio e Nordeste, muitos dos quais certamente se encantam com as belezas arquitetônicas e as obras que modernizaram a capital, como a icônica Ponte JK. Além disso, 19% são executivos a negócios, 14% moradores do Entorno em viagem, 15% vêm para visitar parentes, 3% são diplomatas em missão internacional e 9% se enquadram em outros motivos declarados.
Dezoito por cento de servidores federais é um perfil que nenhum outro aeroporto do Brasil tem. Quinze por cento de visita a parente também não é estatística banal. Revela o vínculo afetivo da capital com o Nordeste e o Norte — regiões de onde vieram os pais, os avós, os tios-avós que ergueram a cidade no começo dos anos sessenta.
A medida que voce pondera essas porcentagens, voce nota a coisa estranha: nenhum perfil tem maioria. Nenhuma tribo manda no aeroporto. Considerem a raridade: é provavelmente o único equipamento público brasileiro onde nenhum grupo controla o terreno.
A democracia discreta do saguão
Num domingo de Páscoa, o saguão de desembarque é o teatro mais honesto que Brasília oferece de graça. Uma moça de vestido florido, recém-chegada de Teresina, abraça a avó que mora em Samambaia. Um grupo de servidores volta de um congresso em Salvador carregando sacolas de lembrança. Uma família italiana desembarca com três malas e um manual de turismo pela primeira vez na capital, perguntando a uma senhora de óculos escuros se a catedral fica muito longe.
Ninguém é apresentado. Todos se cumprimentam.
O aeroporto é o único espaço público de Brasília em que a cerimônia é dispensada sem ofensa. Na Esplanada dos Ministérios, o protocolo reina. Em uma cafeteria do Sudoeste, a intimidade pertence ao grupo fechado. No shopping do Plano, a conversa é breve. Aqui, no entanto, o desconhecido é tolerado, porque todo mundo está de passagem, e a passagem é o grande igualador.
É interessante anotar que nos demais equipamentos públicos da capital a convivência é rara. A Torre de TV recebe turista e passeante, mas não costuma atrair o servidor em horário de almoço. O Parque da Cidade é frequentado por moradores do Plano, por famílias de Taguatinga e por corredores matinais, mas em horários diferentes e em setores separados do gramado. O Eixão aberto no domingo é popular, mas intermitente. Já o aeroporto, esse é diário, contínuo e vinte e quatro horas por dia.
O que cada um encontra ali
O servidor federal vai buscar um parente ou embarcar para uma reunião em Brasília-Recife-Brasília no mesmo dia. É o chamado comandante do diário da CNBB, que decola às seis da manhã e volta às dez da noite, com a pasta cheia de pareceres ainda não lidos.
O executivo de São Paulo, que desembarca, encontra no JK o primeiro gosto da capital. Um café caro demais, um wi-fi razoável, um motorista esperando com uma plaquinha. É um aeroporto que, do ponto de vista do viajante corporativo, funciona. Pontualidade média de 81% no exercício anterior, de acordo com os dados da Agência Nacional de Aviação Civil.
O turista a lazer chega curioso e, muitas vezes, decepcionado na primeira impressão, porque o saguão de Brasília é funcional, não é cenográfico. A cidade lá fora exige o trajeto de táxi pela via L4 para se mostrar. Dentro do terminal, o turista vê lojas de lembrança, uma estátua de Juscelino Kubitschek e a informação útil de que a linha 0.111 de ônibus vai até a rodoviária do Plano Piloto por R$ 12.
O morador do Entorno, vindo de Luziânia, Valparaíso, Águas Lindas ou Formosa, é o viajante menos mapeado pelas estatísticas do turismo. Ele costuma voar ao Nordeste para visitar família, comprar passagem de promoção, viajar em período de férias. Para ele, o JK é mais perto do que São Paulo e mais barato do que Goiânia. É ali que ele encontra, em um mesmo corredor, o servidor da Esplanada e o executivo de Pinheiros, sem que nenhum dos três perceba o encontro.
O diplomata e o retirante
Existe uma cena que se repete, e que poucos observadores registram. No portão de embarque internacional, o diplomata brasileiro despede-se da família antes de embarcar para Genebra, Bruxelas ou Viena. Poucos metros adiante, no portão doméstico que vai para Teresina ou Imperatriz, um trabalhador retirante, vindo do Gama ou da Ceilândia, embarca para visitar a mãe no sertão pela primeira vez em cinco anos.
Os dois compartilham o mesmo lounge, a mesma fila do raio-x, o mesmo café da manhã da rede padrão. O fato de nenhum dos dois notar o outro não é indiferença. É Brasília operando a sua geometria mais civilizada. No aeroporto, a classe não precisa ser abolida para ser suspensa, ao menos por duas horas.
A única praça pública que a cidade construiu
Brasília foi pensada para não ter praça no sentido europeu do termo. A superquadra tem o seu miolo arborizado, mas ele é essencialmente vizinho. A Praça dos Três Poderes é ampla, mas solene, e foi desenhada para o ritual do Estado, não para a convivência cotidiana. O Parque da Cidade é parque, não é praça.
O resultado é que, paradoxalmente, sessenta e cinco anos depois de Lucio Costa, a capital acabou encontrando o seu único grande espaço de sociabilidade transversal em um aeroporto.
Há algo de melancólico nisso, e há algo de belo. Melancólico porque revela a cidade que não soube inventar o seu centro. Belo porque mostra a cidade que, apesar de todos os planos, encontrou o próprio encontro no lugar mais improvável.
Voltemos à Conceição Barbalho e à neta Marília, da abertura desta crônica. Quando saíram do saguão de desembarque, naquela tarde de domingo, foram a pé até o ponto de ônibus do lado de fora — porque Conceição não tinha dinheiro para o táxi e Marília queria atravessar Brasília devagar, contando à avó cada lugar do trajeto. Pegaram o 0.111 até a rodoviária do Plano. De lá, pegaram o expresso para Samambaia. Total da viagem: duas horas e onze minutos. Na sacola entre as duas, o bolo de fubá esmagado pelas malas, mas ainda comível. Reparem: a Brasília inteira atravessada num único trajeto de catorze reais.
Aquela viagem inteira começou no aeroporto. E o aeroporto, sem nenhum plano urbanístico, sem nenhum decreto, sem nenhuma lei, fez o que sessenta e cinco anos de planejamento não fizeram: deu à cidade o seu primeiro umbral comum.
Por isso, sempre que o cronista puder, recomenda uma visita sem bagagem ao JK num domingo de tarde. Não para embarcar, não para desembarcar, mas para sentar em um dos bancos do saguão de desembarque e assistir por quarenta minutos à mais democrática das novelas brasilienses. Levem um caderno se quiserem anotar. Levem só os olhos se preferirem só sentir. O importante é ir.
Todo mundo está ali. Todo mundo. E quando todo mundo está ali, ainda que ninguém se conheça, a cidade — essa cidade que tanto se acusa de fria — descobre, por duas horas, que sabe como aquecer estranhos sob o mesmo teto. Talvez seja só isso o que sobrou do plano original de Lucio Costa: não a praça que ele esqueceu de desenhar, mas o saguão que JK, sem querer, deixou de presente.
Perguntas Frequentes
- Quantos passageiros passaram pelo Aeroporto Juscelino Kubitschek em 2025?
- O Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek recebeu 16,2 milhões de passageiros em 2025, consolidando-se como o terceiro maior do país, atrás apenas de Guarulhos e Galeão.
- Qual é a composição de passageiros do aeroporto de Brasília?
- Os passageiros incluem 18% servidores federais em missão, 22% turistas a lazer, 19% executivos a negócios, 14% moradores do Entorno, 15% visitantes de parentes, 3% diplomatas e 9% por outros motivos.
- Por que o Aeroporto JK é único como espaço público em Brasília?
- É o único espaço público verdadeiramente transversal de Brasília onde nenhum grupo demográfico tem maioria e todas as Brasílias se cruzam sem cerimônia, diferente de outros equipamentos que separam grupos em horários e locais distintos.
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