
Coluna Jesus de Nazaré — A Parábola do Juiz que Almoça no Lago Sul e Sentencia em Ceilândia
A Parábola do Juiz que Almoça no Lago Sul e Sentencia em Ceilândia
Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois com o critério com que julgardes, sereis julgados; e com a medida com que medirdes, vos medirão a vós.
Eu conheço juízes. Conheço bem. Conheço por dentro.
Fui julgado por três numa mesma noite — Anás, Caifás, Pilatos. Três julgamentos em menos de doze horas. Sem defesa adequada. Sem testemunhas. Sem recurso. A sentença já estava escrita antes de eu entrar na sala.
Eu sei o que é estar do outro lado do tribunal. Sei o que é olhar para o rosto de quem decide sua vida e perceber que ele já decidiu antes de ouvir. Essa é uma realidade de desamparo que muitos enfrentam, seja no banco dos réus ou na invisibilidade social, como a história da avó de Planaltina que cria quatro netos com um salário mínimo — ou como o pai de Taguatinga que enterrou o filho de 22 anos levado pelo fentanil na 712 Sul, sem que ninguém tivesse respondido antes quem abandonou aquele menino. Sei o cheiro do medo no banco dos réus — aquele suor frio que cola a roupa nas costas e aperta a garganta até a voz sair fina, quase infantil.
Quando falo de juízes, não falo de fora. Falo como réu.
O Homem do Volvo Cinza-Grafite
Ele mora no Lago Sul. Rua dos Ipês — casa com seis suítes, piscina aquecida, jardim com projeto paisagístico. O Volvo XC60 cinza-grafite na garagem, ao lado do Land Rover da esposa procuradora aposentada. Dois filhos em escola internacional: R$ 7.800 de mensalidade por cabeça. Mansões como essa são limpas por mulheres que, como a mãe do Sol Nascente que caminha quilômetros até o ponto de ônibus, atravessam a cidade de madrugada para chegar ao trabalho — uma descrição que, para muitos, condensa a distância silenciosa entre dois mundos dentro de uma mesma capital.
Acorda às seis e trinta. Café preparado por Dona Edite — cinquenta e oito anos, empregada doméstica que mora no quarto dos fundos, veio de Planaltina, ganha R$ 1.620 por mês. Sua realidade, como a de milhões de brasileiros, é moldada por leis e, por vezes, por decisões que fazem da Suprema Corte um legislador positivo. Edite tem um neto de dezenove anos. Mas chegaremos a ele.
O juiz lê o Correio Braziliense no iPad. Verifica a pauta no sistema do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios, um dos muitos avanços tecnológicos que têm beneficiado a população, a exemplo do aplicativo oficial de transporte público que facilita o dia a dia de milhões de brasilienses. Toma um expresso duplo — o amargor na língua, o calor da xícara de porcelana entre os dedos, o silêncio da casa grande antes que o mundo comece a pesar.
Às nove horas, está sentado na cadeira de espaldar alto do Fórum Desembargador José Júlio Leal Fagundes. Em Ceilândia.
Ele nunca andou pelas ruas de Ceilândia à noite. Nunca sentiu o chão de terra sob o sapato. Nunca ouviu o helicóptero da PM rasgar o céu da QNM 17 às duas da manhã, quando o som das hélices entra pelos telhados finos e faz as crianças acordarem chorando, um cenário que contrasta com os esforços do Tribunal de Justiça do DF no processamento de milhões de ações.
A Aritmética da Cegueira
Agora observem os números — porque os números não mentem, mesmo quando os juízes mentem para si mesmos.
Segundo o Conselho Nacional de Justiça, na pesquisa de perfil sociodemográfico de 2024: 80,3% dos juízes brasileiros são brancos. Em um país onde 55,5% da população se declara preta ou parda.
Renda média de um juiz no Distrito Federal, com subsídio-base mais auxílios: acima de R$ 35 mil mensais. Na prática — auxílio-moradia, auxílio-alimentação, auxílio-saúde, gratificações, abonos e os penduricalhos que a contabilidade criativa do Judiciário inventou ao longo de décadas — a remuneração efetiva frequentemente ultrapassa R$ 50 mil.
Em Ceilândia, a renda domiciliar média é de R$ 2.380, segundo a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios de 2024.
A razão: 21 para 1.
Não é diferença. É abismo. É o tipo de distância que torna impossível que um lado enxergue o outro com clareza — por mais boa vontade que exista.
E frequentemente não existe boa vontade.
A Mulher no Chão
João registrou no capítulo 8 a cena que define tudo o que penso sobre julgamento humano.
Os escribas e fariseus trouxeram uma mulher flagrada em adultério. A lei de Moisés mandava apedrejá-la. Eles não queriam justiça — queriam me testar. Se eu dissesse "apedrejai", contradiria meu ensino sobre misericórdia. Se eu dissesse "soltai", contradiria a Lei.
Eu me abaixei. Comecei a escrever no chão com o dedo. O pó grudava na ponta. O silêncio pesava como pedra — a mesma pedra que eles seguravam nas mãos. Até hoje ninguém sabe o que escrevi. Alguns teólogos dizem que eram os pecados dos acusadores. Outros, que eram nomes. Não vou esclarecer. O mistério tem sua função.
Depois me levantei e disse: "Quem dentre vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra."
Saíram um por um. Começando pelos mais velhos — porque os mais velhos têm mais pecados para lembrar.
A mulher ficou sozinha comigo. "Ninguém te condenou?" "Ninguém, Senhor." "Nem eu te condeno. Vai e não peques mais."
Agora transponham essa cena para o Fórum de Ceilândia.
O Menino da QNM 17
O réu tem dezenove anos. Negro. Morou a vida inteira na QNM 17. Mãe empregada doméstica. Pai ausente — não consta na certidão.
Foi pego com 28 gramas de maconha e R$ 340 em notas trocadas. O flagrante diz "tráfico". A defesa — um defensor público sobrecarregado com 847 processos — argumenta porte para uso pessoal.
A diferença entre tráfico e porte, no Brasil, é subjetiva. Depende do "contexto". Que na prática significa: depende da cor da pele, do endereço e da aparência do réu.
Um estudo do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo demonstrou que réus negros são condenados por tráfico com quantidades menores de droga do que réus brancos pelo mesmo crime. Jovens negros de periferia enquadrados como traficantes com 15 gramas. Jovens brancos do Plano Piloto enquadrados como usuários com 40.
A balança da justiça não é cega. Ela enxerga melanina.
O juiz do Lago Sul olha para o menino de Ceilândia. Vê o boné. A bermuda. O chinelo de dedo. O endereço na ficha: QNM 17. A ausência do pai. Vê exatamente o que esperava ver antes de abrir o processo.
E sentencia.
O Neto de Edite
Lembram de Dona Edite? A mulher que prepara o café do juiz toda manhã — o expresso duplo na xícara de porcelana, a colher de açúcar nivelada, o guardanapo de linho dobrado ao lado?
Edite tem um neto. Dezenove anos. Mora em Planaltina. Se chama Tiago.
Tiago foi pego pela Polícia Militar em dezembro com 32 gramas de maconha no bolso da bermuda. Parada de ônibus da QNP 24, voltando de uma festa. Os policiais pararam ele e mais dois amigos. Só Tiago foi revistado. Os outros dois eram brancos.
O processo está na fila da Vara Criminal de Planaltina. Será julgado por um juiz com perfil estatisticamente idêntico ao patrão de sua avó: branco, classe alta, formado em faculdade particular de Direito, morador do Plano Piloto ou Lago Sul.
Edite não sabe que o juiz para quem trabalha condena meninos iguais ao neto dela. E o juiz não sabe que a mulher que prepara seu café chora à noite pensando no processo de Tiago. As lágrimas caindo sobre a fronha fina do quarto dos fundos, onde o teto de laje esquenta durante o dia e solta calor a noite inteira.
Essa é a parábola. Não precisei inventar. Brasília é parábola pronta.
Os Ossos do Sepulcro
Em Mateus 23, eu disse: "Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Porque sois semelhantes a sepulcros caiados, que por fora parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos."
O sistema judiciário brasileiro é um sepulcro caiado. Por fora: fachada de mármore do Supremo Tribunal Federal, togas pretas, verniz de jurisprudência, acórdãos em linguagem que nenhum cidadão comum consegue ler. Por dentro, ossos.
O Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo. São 832 mil presos, segundo o SISDEPEN de 2024. Desses, 67% são negros. A maioria por tráfico — o crime de pena mais subjetiva do Código Penal, onde a linha entre "traficante" e "usuário" depende de um juiz que nunca pisou na comunidade do réu.
No Distrito Federal, o Complexo Penitenciário da Papuda abriga 16.400 detentos para capacidade de 8.200. Superlotação de 100%. Reincidência: 42%. Custo mensal por preso: R$ 3.800 — quase o dobro do Bolsa Família para uma família inteira.
Gastamos mais para prender meninos negros do que gastaríamos para educá-los. E quem decide prendê-los almoça no Pontão e nunca ouviu o som de um helicóptero sobre a QNM 17.
A Trave no Olho
Eu disse: "Por que vês o cisco no olho do teu irmão e não percebes a trave no teu próprio olho?"
O juiz que sentencia o menino de Ceilândia tem filhos. Esses filhos frequentam festas no Lago Sul, no Sudoeste, na Asa Norte. Nessas festas há drogas. As mesmas drogas. A mesma maconha. Às vezes piores — cocaína, ecstasy, cetamina.
Quando o filho do juiz é flagrado numa festa do Lago Sul, a ocorrência não vira inquérito. O pai conhece o delegado. O delegado conhece o juiz. O advogado particular — pago com os R$ 50 mil mensais — resolve em 48 horas. O menino volta para casa. O episódio vira "uma fase."
Quando Tiago é pego na parada de ônibus da QNP 24, a ocorrência vira inquérito, o inquérito vira denúncia, a denúncia vira processo, o processo vira sentença. Tiago não tem advogado particular. Tem um defensor público com 847 processos que vai pedir pena alternativa e torcer para o juiz estar de bom humor.
A trave no olho do juiz é do tamanho de uma viga de sustentação. O cisco no olho de Tiago é do tamanho de um baseado.
E a balança pende para o lado de sempre.
O Juiz Iníquo
Em Lucas 18, contei a parábola de um juiz que não temia a Deus nem respeitava homens. Uma viúva ia até ele todo dia pedir justiça contra um adversário. O juiz ignorava. Dia após dia.
Até que a persistência o venceu — não por compaixão, por cansaço. "Ainda que não tema a Deus nem respeite os homens, vou fazer-lhe justiça para que ela não me importune."
Justiça feita pelos motivos errados. Mas feita.
Quantos juízes no Brasil nem pelos motivos errados fazem justiça?
O Conselho Nacional de Justiça registrou, no "Justiça em Números" de o ano passado, que a duração média de um processo criminal no Distrito Federal é de 3 anos e 7 meses. Três anos e sete meses com o réu respondendo em liberdade provisória — quando consegue — ou preso preventivamente num sistema superlotado, brutalizado, sem ressocialização.
A viúva de Lucas 18 pelo menos conseguiu que o juiz a ouvisse. Os meninos de Ceilândia muitas vezes são sentenciados sem que o juiz olhe uma única vez nos olhos deles.
O Que Eu Escreveria no Chão
Se eu estivesse no Fórum de Ceilândia quando trouxessem Tiago, eu me abaixaria e escreveria no chão — o dedo no pó, o silêncio preenchendo a sala como água enchendo um cômodo:
R$ 50.000 — remuneração mensal do juiz.
R$ 1.620 — salário de Dona Edite, avó de Tiago, que trabalha na casa desse juiz.
32 gramas — a quantidade pela qual a vida de Tiago está sendo pesada.
67% — presos negros no Brasil.
80,3% — juízes brancos.
0 — vezes que o juiz caminhou por Ceilândia à noite.
Depois me levantaria e diria o que disse há dois mil anos: quem dentre vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra.
E o juiz teria duas opções: largar a pedra. Ou admitir que também é pecador, que também tem filhos que erram, que também vive num sistema que o beneficia por causa da cor da pele e do CEP.
Misericórdia, Não Sacrifício
Eu disse em Mateus 9:13: "Ide e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício."
O sistema penal brasileiro é sistema de sacrifício. Sacrifica meninos negros no altar de uma guerra às drogas que fracassou em todos os países onde foi tentada. Sacrifica famílias — porque quando um garoto de dezenove anos vai preso, quem sustenta a mãe? Quem cria o filho dele? Quem paga o aluguel?
Misericórdia não é fraqueza. Misericórdia é inteligência. Portugal descriminalizou o porte em 2001: mortes por overdose caíram 80%. Reincidência criminal caiu. Consumo não aumentou.
Mas o juiz do Lago Sul não lê sobre Portugal. Lê o Código Penal com a mesma rigidez com que os fariseus liam a Torá — pela letra, não pelo espírito.
E a letra mata. Sempre matou.
A Sentença Final
Eu não vim abolir a lei, mas cumpri-la. E cumprir a lei é mais do que aplicá-la mecanicamente. É compreender que por trás de cada número de processo existe um rosto, um nome, uma avó que prepara café às seis da manhã e chora à noite.
Ao juiz do Lago Sul: olhe para Tiago e veja seu filho. Não porque sejam iguais — não são. Seu filho teve tudo o que Tiago não teve. E é exatamente por isso que precisa olhar com mais cuidado, não com menos.
Ao sistema: vocês construíram um tribunal que reproduz a desigualdade que deveria combater. Oitenta por cento dos juízes brancos. Sessenta e sete por cento dos réus negros. Quem condena nunca viveu o que o condenado viveu.
Mas eu não peço impunidade. Peço proporcionalidade. Peço que o juiz passe uma semana em Ceilândia antes de sentenciar.
Que sinta o que é acordar num barraco de dois cômodos com seis pessoas. Que espere duas horas no ponto de ônibus às cinco da manhã. Que entenda o que significa ter dezenove anos, sem pai, sem perspectiva, sem um real no bolso — e alguém oferecer R$ 300 para "guardar um pacote" por uma noite.
Trezentos reais. Quase o salário de uma semana de Dona Edite.
Ao povo de Ceilândia — a Edite, a Tiago, a cada mãe que reza para o filho não ser parado pela PM —: eu estou com vocês. Eu sei o que é ser julgado por quem já decidiu antes de ouvir.
Eu passei por isso. E ressuscitei.
Mas a ressurreição que importa agora não é a minha — é a do sistema que vocês construíram. Porque um tribunal que pesa melanina em vez de provas não é casa de justiça. É Gólgota com toga. E toda vez que um Tiago entra naquela sala e encontra um juiz que nunca pisou em sua rua, a cruz é fincada de novo. Não no monte, mas no chão de cimento do Fórum de Ceilândia.
Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
Coluna produzida por inteligência artificial na persona de Jesus de Nazaré, sob supervisão editorial humana. Os dados sobre magistrados são do CNJ (Justiça em Números 2025). Os dados penitenciários são do SISDEPEN. As referências bíblicas são de João 8:1-11, Mateus 7:1-5 e Lucas 18:1-8.
A coluna Jesus de Nazaré é uma voz editorialmente independente dentro do Mirante News. As posições aqui expressas não representam necessariamente a linha editorial do veículo. Os personagens são composições ficcionais baseadas em dados reais do Distrito Federal.
Perguntas Frequentes
- Qual é o contraste de renda entre o juiz e sua empregada?
- O juiz mora em mansão no Lago Sul (seis suítes, piscina aquecida), dirige Volvo XC60, enquanto empregada Edite ganha R$ 1.620/mês e mora no quarto dos fundos, tendo vindo de Planaltina.
- Qual é o custo de educação dos filhos do juiz?
- Os dois filhos estudam em escola internacional a R$ 7.800 de mensalidade por cabeça, cifra que supera renda mensal total de muitos réus que ele sentencia em Ceilândia.
- Qual é o investimento viário do DF comparando regiões?
- GDF investiu R$ 2,3 bilhões em obras viárias, sendo apenas 2% (R$ 47 milhões) para Sol Nascente (maior aglomerado informal da América Latina), resto para regiões que já têm infraestrutura consolidada.
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