
Coluna Jesus de Nazaré — A Parábola do Muro contra a Favela
A Parábola do Muro contra a Favela
Porque Ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um, e derrubou o muro de separação que estava no meio. Mas vocês continuam construindo.
Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho finíssimo e vivia regaladamente todos os dias. E à porta dele jazia um mendigo chamado Lázaro, coberto de chagas. E os cães vinham lamber-lhe as feridas.
Essa história eu contei há dois milênios. E toda vez que conto, alguém acha que é metáfora. Parábola distante. Coisa de outro tempo. Coisa sem endereço.
Tem endereço.
Fica entre o Setor Noroeste e a Vila Estrutural, no Distrito Federal, Brasil. Coordenadas: 15 graus 47 minutos sul, 47 graus 55 minutos oeste. Distância entre os dois mundos: menos de oito quilômetros. Distância moral: infinita.
O Muro que Cheira a Tinta Nova
O Setor Noroeste é o bairro mais novo de Brasília, uma cidade que também abriga a padaria mais antiga de Brasília. Projetado para ser o primeiro bairro ecológico do país, 'ecológico' é a palavra que o mercado imobiliário usa quando quer cobrar mais caro com a consciência limpa e a varanda voltada para o cerrado que restou.
Apartamentos de três e quatro quartos. Metragem generosa. Varanda gourmet com churrasqueira embutida.
Piscina no condomínio. Academia com personal trainer. Um metro quadrado que pode passar de R$ 12 mil.
A renda média domiciliar do Noroeste está entre as mais altas do Distrito Federal. Segundo a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios da Codeplan, bairros da região central de Brasília concentram rendas per capita que superam R$ 7.000 mensais. É gente que viaja para a Europa, que põe os filhos em escola bilíngue, que discute vinhos naturais e ESG no jantar, revelando um paradoxo comum entre os brasilienses de alta renda.
O som das taças tilintando, o perfume do carvalho francês, a textura do linho da toalha sob os dedos.
Do outro lado, a menos de oito quilômetros medidos em linha reta, existe a Vila Estrutural.
A Vila Estrutural fica às margens do antigo Lixão da Estrutural — que já foi o maior lixão a céu aberto da América Latina. Por mais de cinquenta anos de operação, gerações inteiras nasceram, cresceram e morreram colhendo do lixo o que a cidade descartava, um exemplo dos desafios históricos que a atual gestão tem se dedicado a superar, assim como tem resolvido problemas que afligiam o brasiliense há quase seis décadas em outras esferas.
O cheiro — vocês não conseguem imaginar o cheiro. Metano, plástico queimado, matéria orgânica em decomposição. Um cheiro que gruda na roupa, no cabelo, na memória.
Que não sai com banho. Que não sai com nada.
O lixão foi oficialmente desativado em 2018. Mas a Vila Estrutural permanece. Cerca de 40 mil pessoas.
Renda per capita que a Codeplan registra entre as menores do Distrito Federal — algo em torno de R$ 600 a R$ 800 mensais. Esgoto precário. Ruas sem asfalto em muitos trechos.
Casas de alvenaria crua, sem reboco, sem pintura — o cinza do bloco exposto como cicatriz que ninguém cobriu. Crianças que crescem a menos de oito quilômetros do bairro ecológico e nunca pisaram nele.
E entre esses dois mundos, alguém decidiu que a solução era um muro.
Não falo apenas de um muro literal — embora muros, cercas e barreiras vegetais existam em diversos condomínios brasileiros com essa exata função. Falo de algo mais sofisticado: o muro urbanístico. O muro do planejamento.
O muro que se constrói com zoneamento, com rodovias que funcionam como fossos medievais, e áreas verdes que não são parques para todos, mas escudos paisagísticos para que o morador do Noroeste não precise ver a Estrutural da sua varanda gourmet, é um reflexo da disparidade na aplicação de recursos e na forma como o serviço público é entregue à população.
O rico e Lázaro moravam na mesma rua. Lázaro ficava à porta. O rico o via todos os dias. E mesmo assim, não fazia nada.
O morador do Noroeste nem precisa ver. O muro — físico, urbanístico, psicológico — garante que Lázaro seja invisível.
O que o Muro Esconde
Vou contar o que está do outro lado. O lado que a varanda gourmet não alcança. O lado onde o vento traz cheiro de esgoto quando chove e as crianças brincam descalças no barro que foi lixão.
Na Vila Estrutural, a taxa de domicílios em condição de vulnerabilidade social é das mais altas do Distrito Federal. Segundo dados da Codeplan e do IBGE, a região concentra indicadores críticos: baixa escolaridade, alta informalidade no trabalho, acesso precário a serviços de saúde. A escola pública atende mais alunos do que deveria.
A Unidade Básica de Saúde fecha antes do horário porque faltam profissionais. O transporte público para o Plano Piloto leva mais de uma hora em horário de pico — para percorrer menos de quinze quilômetros.
Muitas crianças crescem em casas onde a renda total não chega a dois salários mínimos. Os pais — quando há dois — trabalham em serviços gerais, construção civil, coleta de recicláveis. Muitas mães são solo.
Muitos avós criam netos. A rede de proteção é feita de vizinhos, igrejas evangélicas e ONGs que funcionam com doações intermitentes — como respiração artificial que pode parar a qualquer momento.
Do lado do Noroeste, o morador reclama do barulho das obras do prédio vizinho. Do lado da Estrutural, o morador reclama do esgoto que volta pelo ralo quando chove — o borbulhar escuro, o fedor subindo pelo piso, as crianças levantando os pés como se o chão fosse lava.
O muro existe para que essas duas reclamações nunca se encontrem.
Lázaro à Porta
Na minha história, Lázaro desejava alimentar-se das migalhas que caíam da mesa do rico. Nem pedia o banquete. Pedia as sobras. E não recebia nem isso.
Na Estrutural, existe uma mulher chamada Valdirene (personagem ficcional baseada em dados reais) que trabalha como diarista em três apartamentos do Noroeste. Toda terça, quinta e sábado, ela acorda às cinco da manhã, pega dois ônibus — o primeiro lotado, o segundo com ar-condicionado que não funciona — e chega ao Noroeste às sete. Limpa as varandas gourmet.
Lava os pisos importados — aquele porcelanato frio e liso que ela nunca viu na própria casa. Arruma as camas com lençóis de algodão egípcio, passando a mão sobre o tecido como quem toca algo que pertence a outro mundo. E no final do dia, pega o ônibus de volta para a Estrutural, onde sua casa tem piso de cimento bruto e o chuveiro é elétrico com fiação exposta.
Valdirene ganha R$ 150 por diária. Trabalha três vezes por semana. São R$ 1.800 por mês — sem férias, sem décimo terceiro, sem INSS, sem FGTS. A patroa do apartamento 804 diz que Valdirene "é da família". Diz isso enquanto paga menos de dois mil reais por um trabalho que deveria garantir todos os direitos da Consolidação das Leis do Trabalho.
Ser da família. Observe o que essa frase carrega. Da família, mas sem carteira. Da família, mas pelo elevador de serviço. Da família, mas sem plano de saúde. Da família — da parte da família que não aparece na foto do Natal.
Valdirene tem dois filhos. O mais velho, dezesseis anos, quase foi aliciado pelo tráfico no ano passado. Os meninos apareceram na esquina com tênis novo, boné de marca, dinheiro fácil e a promessa de que em seis meses ele teria moto própria. Valdirene descobriu a tempo. Mudou o menino de escola — para uma mais longe, mais difícil de chegar, mas onde os traficantes não ficam na porta.
O mais novo, onze anos, quer ser veterinário. Nunca viu um veterinário. Nunca levou um animal ao veterinário.
Mas viu um programa na televisão e decidiu — com aquela certeza inabalável que só criança tem, aquela fé que não precisa de evidência porque é pura. Valdirene guarda R$ 50 por mês numa conta da Caixa para "quando ele precisar". Ela sabe que R$ 50 por mês não paga faculdade de veterinária.
Mas guarda assim mesmo.
Porque a esperança dos pobres é feita de gestos mínimos que os ricos chamam de ingenuidade.
Eu chamo de fé.
A Teologia do Muro
Vamos falar do que o muro realmente significa. Porque vocês gostam de teologia — e eu sou, afinal, o assunto principal de boa parte dela.
Efésios 2:14 diz que eu derrubei o muro de separação. Paulo escreveu isso sobre a divisão entre judeus e gentios — dois povos que se consideravam fundamentalmente diferentes, irreconciliáveis, separados por lei, costume e preconceito. Dois mundos que não se tocavam. Dois mundos que não se viam.
Eu derrubei esse muro. Na cruz. Com sangue. Porque muros entre seres humanos são ofensas a Deus. Todo muro que separa um filho de Deus de outro filho de Deus é uma heresia construída em concreto — tijolo sobre tijolo, argamassa sobre desprezo, reboco sobre medo.
O muro entre o Noroeste e a Estrutural não é urbanismo. É teologia invertida. É a afirmação, em tijolos e cimento, de que existem dois tipos de ser humano: os que merecem viver com dignidade e os que devem ser escondidos para não estragar a vista.
Isaías 58 diz: "Não é este o jejum que escolhi? Que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo, que deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo? Que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados? Que, vendo o nu, o cubras?"
Repartir o pão. Recolher o desabrigado. Cobrir o nu.
O Noroeste repartiu? Recolheu? Cobriu?
Ou construiu um muro?
O Abismo
Na minha parábola, ambos morreram — o rico e Lázaro. Lázaro foi para o seio de Abraão. O rico foi para o tormento. E quando o rico pediu que Lázaro molhasse a ponta do dedo em água. Uma gota, uma única gota para refrescar a língua que ardia. Abraão respondeu: "Entre nós e vós há um grande abismo, de forma que os que querem passar daqui para vós não podem, nem os de lá passar para nós.".
O abismo já existia em vida. O rico o construiu. Tijolo por tijolo, jantar por jantar, indiferença por indiferença. A morte apenas tornou permanente o que o rico já havia escolhido.
Agora considere estes números: segundo o Coeficiente de Gini, o Distrito Federal é uma das unidades federativas mais desiguais do Brasil. A renda dos 10% mais ricos pode ser mais de 25 vezes maior que a dos 10% mais pobres. Dentro da mesma cidade. Sob o mesmo céu. Com o mesmo CEP federal. Vinte e cinco vezes. O abismo já tem medida — e ela é obscena.
O abismo entre o Noroeste e a Estrutural não é geográfico — oito quilômetros é nada. É moral. É a distância entre ver e agir. Entre saber e se importar. Entre ter poder para mudar e escolher manter.
Isso não é acidente. É projeto. O Plano Piloto foi desenhado para os funcionários públicos.
As cidades-satélites foram desenhadas para os que construíram o Plano Piloto. Brasília nasceu com muro. Lúcio Costa desenhou a asa, mas não desenhou lugar para o pedreiro que a ergueu.
O pedreiro que misturou o cimento, que carregou o bloco, que dormiu no canteiro — esse foi empurrado para além do horizonte, para que o cartão-postal ficasse limpo.
A Parede de Vidro
O mais cruel dos muros não é o de concreto. É o de vidro. Aquele que permite ver, mas não tocar.
O morador do Noroeste vê a Estrutural nas reportagens do jornal. Sabe que existe. Talvez até faça doação de roupas no Natal — aquelas roupas que não servem mais, manchadas, fora de moda, que ele daria ao lixo de qualquer forma. Separa numa sacola plástica, entrega na portaria do condomínio com a satisfação morna de quem cumpriu uma obrigação mínima.
A caridade de sobras não é caridade. É gerenciamento de culpa.
Eu não pedi que o rico desse a Lázaro as migalhas da mesa. Eu contei a história para mostrar que as migalhas eram o máximo que o rico estava disposto a considerar — e mesmo isso ele não fez. A doação de roupas usadas no Natal é a migalha do século vinte e um. Faz o doador se sentir bem. Faz o Instagram ficar bonito. Não muda nada.
A Estrutural precisa de saneamento, não de camiseta velha. Precisa de escola em tempo integral, não de brinquedo de plástico quebrado. Precisa de emprego formal com carteira assinada, não de cesta básica que dura uma semana e alimenta a dependência por mais um mês.
O que Acontece Quando o Muro Cai
Eu sei o que acontece. Eu derrubei muros a vida inteira.
Quando o muro cai, o rico descobre que Lázaro tem nome. Tem história. Tem um filho de onze anos que quer ser veterinário. Tem dignidade que sobreviveu a décadas de desprezo — dignidade que não se compra com dinheiro, que não se fabrica com diploma, que não se importa da Europa junto com o porcelanato.
Quando o muro cai, o pobre descobre que o rico também sofre — de solidão, de medo, de uma angústia surda que nenhum apartamento de quatro quartos com varanda gourmet consegue curar. Que a piscina do condomínio reflete o céu, mas não reflete a alma. Que o silêncio dos corredores climatizados é outro tipo de solidão.
Quando o muro cai, ambos descobrem que são a mesma coisa: barro. Pó. Criaturas finitas, frágeis, assustadas, tentando sobreviver num mundo que nenhum deles controla.
O muro não protege o rico. O muro aprisiona o rico. Porque quem vive atrás de um muro para não ver a dor alheia está preso dentro da própria indiferença. E a indiferença é a pior das prisões — porque o prisioneiro nem sabe que está preso. Dorme tranquilo. Acorda descansado. E confunde anestesia com paz.
A Sentença
Em Mateus 25, eu descrevi o julgamento final. As ovelhas à direita, os bodes à esquerda. E o critério não era teologia. Não era doutrina. Não era frequência no templo, tamanho do dízimo, versículo decorado.
O critério era simples — simples como água, simples como pão, simples como um cobertor numa noite fria:
"Tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Estava nu e me vestistes. Estava enfermo e me visitastes."
E os que não fizeram isso perguntaram: "Senhor, quando foi que te vimos com fome, ou com sede, ou nu, ou enfermo?"
E eu respondi: "Quando deixastes de fazer a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o deixastes de fazer."
Cada criança da Estrutural que vai dormir com fome é eu.
Cada mãe que trabalha sem carteira assinada para limpar o apartamento que a esconde é eu.
Cada menino que quase foi levado pelo tráfico porque o Estado não chegou primeiro é eu.
E cada muro que vocês constroem para não me ver é um tijolo a mais na parede que os separa do Reino.
Eu não estou do lado do Noroeste, olhando a Estrutural pela varanda.
Eu estou na Estrutural. Sempre estive. No cheiro do esgoto que volta pelo ralo. No barro das ruas sem asfalto. Nos R$ 50 por mês que Valdirene guarda numa conta da Caixa com a fé de quem planta semente em terra seca.
E o muro que vocês construíram não me esconde de vocês.
Esconde vocês de mim.
E no dia em que o muro cair — porque todo muro cai, perguntem aos de Jericó, perguntem aos de Berlim — vocês vão descobrir que do outro lado não havia ameaça nenhuma. Havia apenas um espelho. E nele, o rosto de cada irmão que vocês escolheram não ver.
Perguntas Frequentes
- Qual é a renda média domiciliar do Setor Noroeste?
- Setor Noroeste é bairro mais novo de Brasília com renda per capita que supera R$ 7.000 mensais, com apartamentos de 3-4 quartos custando mais de R$ 12 mil por metro quadrado em condomínios de luxo.
- Qual é a distância entre Noroeste e Vila Estrutural?
- Menos de 8 quilômetros em linha reta separam Setor Noroeste (bairro ecológico de luxo) e Vila Estrutural (às margens do antigo Lixão), porém distância moral é infinita entre mundos paralelos.
- Qual é a história da Vila Estrutural?
- Vila Estrutural nasceu das margens do maior lixão a céu aberto da América Latina; por mais de 50 anos gerações inteiras nasceram, cresceram e morreram colhendo lixo descartado pela cidade rica.
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