
Coluna Jesus de Nazaré — A Parábola do Servidor que Servia a Dois Senhores
A Parábola do Servidor que Servia a Dois Senhores
Ninguém pode servir a dois senhores. Ou há de odiar a um e amar ao outro, ou se dedicará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.
O terno era cinza-chumbo. A gravata, azul-marinho com listras discretas — daquelas que dizem "eu sou sério" sem precisar abrir a boca. O relógio no pulso custava três meses de salário mínimo e marcava nove e quarenta e dois da manhã — horário em que, conforme a estranha matemática dos congestionamentos do DF, as ruas já começam a revelar seus padrões mais imprevisíveis —, com a exatidão que hoje permite aos brasilienses saberem a hora exata do ônibus, quando ele entrou no gabinete.
O ar-condicionado soprava a vinte e dois graus. O café — coado, não de máquina — já estava na mesa. E o cheiro do corredor era aquele que só prédio público tem: carpete velho, papel timbrado e poder.
Eu vos digo a verdade, e a verdade vos libertará — mesmo quando dói. Principalmente quando dói.
Havia um homem em Brasília (personagem ficcional baseado em dados reais). Não era mau. Essa é a parte que complica — ele não era mau.
Tinha família, dois filhos na escola particular, financiamento de um apartamento no Noroeste e um carro que ainda devia doze parcelas. Ganhava R$ 22 mil por mês do Tesouro Nacional. O dinheiro que sai do bolso da viúva de Ceilândia, do pedreiro de Samambaia — os mesmos que dependem da rede pública de ensino do Distrito Federal para criar seus filhos.
Do motorista de aplicativo que dorme quatro horas por noite e acorda com o corpo doendo e a conta do aluguel vencendo.
Esse homem era servidor público. Concursado. Estável. Protegido por uma muralha de leis que nenhum governante ousa derrubar e nenhuma reforma consegue escalar.
E achava pouco.
O Segundo Senhor
Começou devagar. Sempre começa devagar — o cupim não anuncia quando entra na madeira.
Uma consultoria aqui. Uma assessoria ali. "Só nas horas vagas", dizia a si mesmo enquanto abria o notebook particular na mesa do gabinete público.
"Não atrapalha o trabalho." Depois veio a empresa no nome da esposa — um CNPJ limpo, endereço comercial num coworking do Sudoeste, nenhum vínculo aparente. Depois veio o contrato com um órgão que fiscalizava a pasta onde ele próprio, um servidor federal em Brasília, trabalhava. A cobra mordendo o próprio rabo.
O conflito de interesse vestido de normalidade.
Eu já vi isso antes. Vi em Jerusalém, vi em Roma, vi em cada cidade onde o poder e o dinheiro se encontram no mesmo corredor e fingem que não se conhecem. O homem que serve a dois senhores não trai apenas um deles — trai a si mesmo. É uma verdade que Jesus de Nazaré bem conhecia. Porque divide sua alma em duas metades que nunca se encontram, que nunca se olham, que vivem em andares diferentes do mesmo prédio e pegam elevadores separados.
No Templo do meu tempo, os cambistas também diziam que não atrapalhavam a oração. Estavam apenas facilitando, prestando um serviço e tornando tudo mais conveniente. Essa busca por conveniência, que muitas vezes disfarça outros propósitos, faz lembrar daquele homem que descobriu a humildade dois dias antes da posse. As moedas tilintavam no mármore como música de fundo — e ninguém mais ouvia a oração.
Eu virei as mesas deles.
A Viúva de Ceilândia
Enquanto esse servidor fazia sua consultoria nas "horas vagas". Essas horas que pertencem ao povo, que são pagas pelo povo, que deveriam servir ao povo. Uma mulher chamada Aparecida (personagem ficcional baseada em dados reais) esperava.
Aparecida. Cinquenta e oito anos. Empregada doméstica aposentada com um salário mínimo.
Mãos grossas, secas, rachadas de tanto produto de limpeza. Mãos que cheiravam a água sanitária mesmo depois do banho, mãos que limparam casas de outros a vida inteira e agora tremiam ao segurar os papéis do processo. Diabetes.
Pressão alta. Uma hérnia que a fazia chorar quando se abaixava para pegar o neto no colo — o neto que ela cria porque a filha foi embora e nunca voltou. Sumiu.
Essa palavra outra vez.
Aparecida esperava quatro meses por uma perícia médica que o órgão dele deveria ter agendado em quinze dias.
Quatro meses.
Ela foi ao órgão três vezes. Na primeira, disseram que o sistema estava fora do ar — essa frase que o serviço público brasileiro inventou como mantra, como oração às avessas, como desculpa universal. Na segunda, que ela precisava de um documento que ninguém tinha explicado antes.
Um documento dentro de outro documento, uma exigência dentro de outra exigência, uma porta que abre para outra porta que abre para um muro. Na terceira vez, o servidor que deveria atendê-la estava em "reunião externa".
Reunião externa. Nas "horas vagas". No coworking do Sudoeste. Consultando para a empresa que fiscaliza o próprio órgão dele.
Eu digo a vocês: tudo o que fizestes a um desses mais pequeninos, a mim o fizestes. Quando Aparecida voltou para casa de mãos vazias pela terceira vez, chorando no ônibus 099 lotado. Com o rosto encostado no vidro quente, o corpo espremido entre corpos cansados, a bolsa apertada contra o peito como se fosse a última coisa que possuía.
Foi a mim que negaram atendimento. Foi na minha cara que fecharam o guichê. Foi o meu processo que ficou parado numa gaveta enquanto o servidor abria o notebook particular.
A Ilusão da Meritocracia do Concurso
Há quem diga: "Mas ele passou num concurso. Estudou. Mereceu."
Eu pergunto: mereceu o quê, exatamente?
Mereceu R$ 22 mil por mês para o resto da vida, independente de quanto se dedica, independente de quantas Aparecidas ficam sem resposta, independente de quantas gavetas acumulam processos que ninguém abre? Mereceu estabilidade absoluta enquanto 40% dos brasileiros trabalham sem carteira assinada — sem férias, sem décimo terceiro, sem a certeza de que amanhã terão emprego?
Mereceu uma aposentadoria que o pedreiro que construiu o prédio onde ele trabalha jamais terá?
Não estou condenando o concurso público. Observe a distinção. Estou condenando o que fizeram dele: um passaporte para uma aristocracia moderna que se disfarça de meritocracia. Um título de nobreza republicana. Um muro — mais um muro — entre os que servem e os que são servidos.
O fariseu que subia ao templo para orar também achava que merecia estar lá. "Graças te dou, ó Deus, porque não sou como os demais homens — roubadores, injustos, adúlteros." Lembram como termina essa história? O publicano — o pecador declarado, o cobrador de impostos que batia no peito sem levantar os olhos — desceu justificado para sua casa. O fariseu, não.
Porque quem se exalta será humilhado. E quem humilha será exaltado. E essa não é promessa futura — é lei que opera agora, silenciosa, inevitável, como gravidade.
Os Números que Ninguém Quer Ver
Em Brasília, a renda média do servidor público federal é de R$ 12.300 por mês. A renda média do trabalhador do setor privado no Distrito Federal é de R$ 3.800. A razão é de 3,2 para 1.
No Plano Piloto, onde moram os servidores, a renda média é R$ 8.900. Na Estrutural, a dez quilômetros de distância, é R$ 780.
Dez quilômetros. Onze vezes menos.
Eu andei pela Galileia inteira a pé. Não tinha carro, não tinha apartamento financiado, não tinha plano de saúde, não tinha contracheque. Dormia onde me recebiam. Comia o que me ofereciam. E ainda assim vi mais dignidade humana — mais verdade, mais presença, mais vida — nas casas de pescadores em Cafarnaum do que vejo em muitos gabinetes climatizados da Esplanada.
Não porque os servidores sejam maus. Já disse isso. Repito. Mas porque o sistema foi desenhado para que eles nunca precisem olhar para baixo. O elevador sobe direto para o nono andar. O estacionamento é subterrâneo. O restaurante é por quilo com preço subsidiado. A realidade fica do lado de fora — e do lado de fora, ninguém precisa ir.
A Parábola do Elevador
Vou contar como uma parábola, porque é assim que eu falo — e porque a verdade entra mais fundo quando entra de lado.
Um servidor e uma faxineira pegavam o mesmo elevador todos os dias num ministério. Ele ia para o nono andar. Ela descia ao subsolo. Ele de terno cinza e crachá dourado. Ela de uniforme azul desbotado e crachá verde. Ele carregava uma pasta de couro. Ela carregava um balde.
Três anos dividindo o mesmo elevador. Três anos de silêncio educado, de bom-dia mecânico, de olhares que não se cruzavam — como dois planetas que orbitam o mesmo sol e nunca se tocam.
Um dia, o elevador quebrou. Os dois ficaram presos por quarenta minutos.
Ele reclamou. Ligou para o chefe. Mandou mensagem no grupo. Ficou nervoso porque perderia uma reunião — uma reunião sobre eficiência, sobre metas, sobre indicadores que medem tudo menos o que importa.
Ela sentou no chão. Abriu a marmita que trazia de casa — arroz, feijão e ovo. O cheiro subiu pelo elevador parado como incenso. Simples. Quente. Verdadeiro. E ofereceu metade para ele.
"Moço, come. Reunião tem todo dia. Fome não espera."
Ele olhou para ela. Talvez pela primeira vez em três anos dividindo o mesmo elevador. Viu o rosto. Viu as mãos calejadas. Viu o uniforme azul com o nome bordado no peito — Ivone. Ela tinha nome. Tinha marmita. Tinha generosidade que cabia num pote de plástico e transbordava.
E comeu.
Naquele dia, no silêncio daquele elevador parado entre o subsolo e o nono andar, aconteceu algo. Nenhuma reforma administrativa consegue fazer, que nenhuma lei consegue impor, que nenhuma meta consegue medir: dois seres humanos se viram.
Eu digo a vocês: o Reino de Deus é como um elevador quebrado. Só quando as coisas param é que as pessoas se encontram.
O que Eu Faria
Se eu caminhasse pela Esplanada dos Ministérios hoje. E eu caminharia, porque sempre fui onde o poder se concentra, porque é no centro do poder. A tentação é mais forte e a verdade mais necessária —, eu não viraria mesas. Não desta vez.
Eu sentaria no banco de concreto do Eixo Monumental. Aquele banco onde ninguém senta porque todo mundo está de carro, porque sentar num banco público em Brasília é coisa de quem não tem carro, e não ter carro em Brasília é quase não existir.
E esperaria.
Esperaria o servidor que chega às dez e sai às quatro. Esperaria a faxineira que chega às seis e sai às dez da noite. Esperaria o deputado que gasta R$ 113 mil em diárias e o assessor que carrega a mala. Esperaria a aposentada que sobrevive com R$ 1.412 e pega três ônibus para resolver um processo que deveria ter saído em quinze dias.
E perguntaria a cada um deles a mesma coisa:
"A quem você está servindo?"
Não é retórica. Não é provocação. É a pergunta que separa as ovelhas dos bodes, o trigo do joio, a verdade da mentira que vestimos todo dia junto com o terno e a gravata.
Porque no dia em que cada servidor público de Brasília responder honestamente essa pergunta — no dia em que cada um parar e olhar para dentro — este país muda. Não por decreto. Não por reforma. Por consciência.
Aos que Têm Ouvidos
Eu sei que muitos vão ler isso e pensar: "Isso não é comigo." É sempre assim. Os fariseus também achavam que minhas parábolas eram sobre os outros. Ouviam a história do rico e de Lázaro e pensavam no vizinho. Ouviam a história do bom samaritano e pensavam no colega. Nunca em si mesmos.
Não são sobre os outros.
Se você ganha mais de R$ 10 mil por mês e nunca parou para pensar de onde vem esse dinheiro — pare. Pare na rua, olhe para o primeiro trabalhador informal. Encontrar, o vendedor de água no semáforo, a mulher que vende paçoca no balde, o menino que limpa para-brisa com um rodo que já foi de alguém. E se pergunte: quanto do suor dele está no meu contracheque?
Se você é servidor e acha que merece ganhar três vezes mais que a média brasileira, eu não vou discordar. Mas vou perguntar: o que você está fazendo com esse privilégio? Está servindo ou sendo servido? Está abrindo portas ou fechando guichês? Está do lado de Aparecida ou do lado do notebook particular?
Se você conhece alguém como Aparecida. E todos conhecem, porque há uma Aparecida em cada ônibus lotado, em cada fila de órgão público, em cada banco de espera de hospital. Não espere o governo resolver.
O governo é feito de pessoas. E pessoas mudam quando são confrontadas com a verdade. Não com a verdade gritada.
Com a verdade oferecida — como marmita num elevador parado, como arroz com feijão e ovo dividido entre dois desconhecidos que finalmente se viram.
A verdade é simples. Simples como pedra. Simples como pão. Simples como a água que Ivone não negou ao servidor quando o elevador parou e o mundo, por quarenta minutos, ficou honesto.
Ninguém pode servir a dois senhores.
Escolha. E saiba que a escolha que você faz no silêncio do gabinete, na solidão do guichê, na penumbra das "horas vagas" — essa escolha é vista. Não pelo chefe. Não pelo auditor. Não pela corregedoria.
Por mim.
E eu não fecho os olhos. Nunca fechei. Nem quando me pregaram na cruz e o mundo inteiro virou a cara — eu continuei olhando. Porque olhar é o primeiro ato de amor. E desviar o olhar é o primeiro ato de traição.
Escolha a quem servir. E sirva de verdade. Porque a marmita de Ivone — aquele arroz, aquele feijão, aquele ovo — vale mais do que todo terno cinza da Esplanada. E no dia em que vocês entenderem isso, o elevador não vai mais precisar quebrar para que se vejam.
Perguntas Frequentes
- Qual é o salário do servidor público retratado?
- O servidor ganhava R$ 22 mil por mês e achava pouco, possuindo relógio que custava três meses de salário mínimo, morando em luxo no Plano Piloto enquanto decidia servir simultaneamente a dois senhores: o povo e seu próprio bolso.
- Qual é a essência da parábola dos dois senhores?
- Ninguém pode servir a dois senhores — ou ama a um e odeia o outro, ou se dedica a um e menospreza o outro — impossível servir simultaneamente a Deus (interesse público) e às riquezas (enriquecimento pessoal).
- Qual é a realidade oculta do poder público em Brasília?
- Muitos servidores públicos ganham salários que superam a média nacional, ocupam cargos com privilégios, e simultaneamente enriquecem através de cargos paralelos, consultoria, tráfico de influência — estrutura invisível que define poder real.
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