
Caricatura de costumes do século XIX revisitada para a Brasília de 2026. A conversão pública é uma forma muito antiga de teatro político, e o cronista observa a estreia da temporada com a paciência de quem já viu a peça.
Daquele homem que descobriu a humildade dois dias antes da posse
Vi, há poucos dias, na televisão da sala de jantar, um homem chorar. Não era um homem qualquer. Era um homem público, daqueles cujo nome a coluna evita por delicadeza, e cuja altivez, ao longo dos últimos quinze ou vinte anos, se tornou parte do mobiliário urbano desta capital — como o eixo monumental, como a estátua dos candangos, como aquele relógio do aeroporto que ninguém sabe se funciona ou apenas finge.
Quarta-feira, 25 de março de o ano de 2026, oito e meia da noite. Sala de jantar de um apartamento da 308 Norte. Sobre a mesa: sopa de mandioquinha já fria e meio copo de vinho tinto. A cozinha exalava cheiro morno de cebola refogada.
Na televisão, ao vivo, falava um homem público que esta coluna chamará, por discrição, de senhor Otacílio Pinheiro Bandeira. Belarmino Tavares assistia da poltrona. Aposentado de 68 anos, ex-fiscal da Receita, três décadas de serviço público.
Belarmino largou a colher. Ajustou os óculos. Ficou olhando a tela como quem assiste a um eclipse.
Na televisão, Otacílio chorava. Pediu perdão a vagas entidades — ao povo brasileiro, à juventude, aos mais carentes, à própria família. Confessou erros que, segundo ele, foram sempre erros do passado. Disse-se transformado por uma experiência interior recente, cujo conteúdo exato não detalhou. E concluiu o monólogo com uma frase dessas que se gravam na memória do telespectador médio: agora é tempo de escutar.
Belarmino, na sala de jantar, tomou um gole frio do vinho e disse para a mulher: "Esse homem toma posse depois de amanhã, não toma?" A mulher, sem desviar os olhos da tela, respondeu: "Sexta-feira, dez da manhã."
Quarenta e oito horas. Foi o tempo, segundo entendi, entre a confissão pública e a coroação oficial.
Do calendário das almas
Há uma cronologia que os santos antigos respeitavam e que parece ter sido abandonada pelos homens públicos contemporâneos.
A conversão verdadeira, segundo os tratados medievais que li em outras vidas, segue um curso reconhecível. Primeiro vem a inquietação. Depois a dúvida. Depois a leitura. Depois o recolhimento. Depois a vergonha. Depois o ato corretivo. Depois a reparação concreta dos danos.
Só então vem a exposição pública. E quando vem, ocorre por imposição alheia — não por iniciativa do convertido.
O processo todo costumava levar anos. Em alguns casos, décadas. Santo Agostinho levou cerca de quinze anos entre o primeiro espasmo de inquietação e a publicação das Confissões. Nesse intervalo, ele não tomou posse de cargo nenhum. Recolheu-se ao isolamento e recusou honrarias eclesiásticas.
O homem público brasileiro contemporâneo, leitor amigo, opera em outra escala temporal. Ele consegue espremer o ciclo agostiniano em pouco menos de quarenta e oito horas, encaixando inquietação, vergonha, ato corretivo e exposição pública num único pronunciamento televisivo de sete minutos. Há quem ache isso uma virtude da vida moderna, um sinal de eficiência espiritual, um aproveitamento racional do tempo. Eu, por teimosia de velho cronista que viu muitas coisas semelhantes em outros séculos, suspeito de outra coisa.
Considerem essa hipótese: a velocidade do processo é o sinal mais seguro de que ele não aconteceu.
De como a contrição se reconhece
Há, no fundo da alma humana, um traço pequeno que distingue a contrição verdadeira da contrição cênica, e esse traço — talvez por ser pequeno — escapa ao espectador apressado.
A contrição verdadeira não inventa palavra nova. Usa a palavra velha. Aquela que machuca por ser a de sempre. O homem que se arrepende de fato fala de coisas concretas: nomes, datas, quantias, atos específicos, danos pelo nome. E pede perdão a pessoas concretas: aquele a quem prejudicou, aquela a quem caluniou, aquele cujo nome riscou da agenda quando deixou de ser útil.
A contrição cênica, ao contrário, é abstrata por construção. Pede perdão ao "povo brasileiro", à "juventude", aos "mais carentes" — entidades vastas o bastante para que o pedido caiba em qualquer um e em ninguém ao mesmo tempo. Não nomeia o que fez. Não detalha o que pretende corrigir. Não devolve o que pegou de errado. Apenas se declara um homem novo, e exige, em troca dessa autodeclaração, que o público creia.
Reparem na assimetria: a primeira forma de contrição é custosa, a segunda é grátis. Onde a primeira pede que o arrependido pague algo concreto para provar o arrependimento, a segunda pede que o público pague — pague em forma de credibilidade renovada, pague em forma de votos, pague em forma de tolerância para o que vier depois.
A contrição grátis, leitor, é como o almoço grátis: alguém sempre paga, e quase nunca é quem está sentado à mesa.
Da posse que veio depois
Voltemos ao homem da cena televisiva. O homem que chorou na quarta e tomou posse na sexta.
A posse foi solene, como costumam ser as posses brasileiras. Hino nacional, banda da polícia, parentes na primeira fila, adversários derrotados na segunda, jornalistas filmando da quarta. Cheiro de café passado nos corredores. Ranger das cadeiras de couro velho.
O homem subiu ao púlpito. Fez o juramento de praxe. Prometeu defender a Constituição. Prometeu servir ao interesse público. Prometeu uma série de coisas que constam num roteiro que circula entre cerimônias de posse há duzentos anos sem mudança de fundo.
E aqui, leitor amigo, vem a parte que me interessa. Em nenhum momento do discurso de posse, em nenhuma única frase, o homem fez menção à confissão pública que tinha feito quarenta e oito horas antes. Não retomou o tema. Não recordou os erros que acabara de admitir. Não disse: vou começar este mandato diferente porque sou um homem novo desde quarta-feira. Nada.
O discurso de posse podia ser de qualquer outro homem público do mesmo tipo, em qualquer outra cerimônia equivalente, em qualquer outra década. Era genérico como os bilhetes de loteria.
E foi aí, leitor, que a peça inteira se desmontou para mim. Porque se a conversão da quarta-feira fosse real, ela teria necessariamente atravessado o discurso de sexta-feira. Não dava para ignorá-la. Quem se transformou interiormente carrega essa transformação para tudo o que faz nos dias seguintes — não consegue tirá-la da fala, dos gestos, das escolhas. A transformação interior é, por natureza, contagiosa para o que o convertido faz logo depois.
A transformação cênica, ao contrário, fica circunscrita ao estúdio onde foi gravada. Não atravessa para o resto da vida porque não tem onde se prender. É um número artístico fechado em si mesmo.
A medida que voce processa essa diferença, voce percebe o tamanho da farsa: a alma verdadeira contamina os dias seguintes. A alma encenada termina nos créditos finais.
Um parêntese, desses que o leitor me perdoa
Permita-me, leitor amigo, uma pequena digressão antes do fecho.
Pensei muitas vezes em escrever um manual breve sobre como distinguir o convertido verdadeiro do encenado, para uso dos jovens jornalistas brasileiros. Cheguei a esboçar um sumário. Tinha capítulos sobre vocabulário, sobre tempo, sobre nomes específicos, sobre custo concreto pago, sobre comportamento na semana seguinte. Era um manualzinho útil, achei.
Acabei desistindo do projeto. Não por preguiça, mas porque entendi, a meio caminho, que o leitor que precisa do manual provavelmente não terá paciência para lê-lo, e o leitor que teria paciência já dispensa o manual. Dos manuais sobre hipocrisia política, leitor, costumam aproveitar-se mais os hipócritas do que as suas vítimas — porque os hipócritas o estudam para refinar a técnica, enquanto as vítimas seguem sendo enganadas com surpresa renovada a cada novo episódio.
Fim do parêntese.
Do que sobra para o cronista
Concluo, e concluo com o gesto pequeno que costuma fechar estas notas semanais.
Aprendi, ao longo de muitos séculos de observação dos homens públicos, que a humildade tem um calendário próprio. Ela não combina bem com vésperas de posse, com calendários eleitorais, com janelas de denúncia, com vencimentos de prazo. Ela costuma aparecer fora do horário esperado — no homem que se afasta sem explicar por quê, na mulher que recusa o cargo oferecido sem fazer drama, no servidor que devolve um documento sem cobrar crédito por isso.
Voltemos a Belarmino Tavares, o aposentado da abertura desta crônica. Quando o pronunciamento de Otacílio terminou, ele desligou a televisão, levantou-se sem terminar a sopa, foi até a janela do oitavo andar e ficou olhando, silencioso, para a Esplanada iluminada. A esposa, da cozinha, perguntou: "Que foi, Belarmino?" Ele respondeu, sem se virar: "Trabalhei trinta e dois anos na Receita Federal e nunca pedi perdão a ninguém em rede nacional. Pedi perdão a pessoas, na sala delas, sem câmera, três vezes. Cada uma daquelas três valeu mais do que essa cena toda que acabei de assistir."
Essa humildade dos Belarminos não vai à televisão. Não tem assessor. Não recebe convite para entrevista. E é, exatamente por isso, a única que se reconhece como real.
A outra, a que aparece de quarta-feira para tomar posse na sexta, eu fiquei tantas vezes vendo, em tantas vidas, que já a identifico no primeiro plano, antes mesmo do choro começar.
Tenho pena. Mas, leitor amigo, não tanta pena assim — porque a encenação é voluntária, e quem encena escolhe encenar. O telespectador também escolhe: escolhe acreditar, ou escolhe fechar a colher dentro do prato e ir até a janela respirar. A República, no fundo, é decidida nessas pequenas escolhas de varanda muito mais do que nos grandes pronunciamentos de estúdio.
Até a próxima coluna, se a televisão e o jornal assim permitirem.
Perguntas Frequentes
- Qual é a dinâmica psicológica do confesionalismo político?
- Confessionalismo político é momento em que autoridade pública recita uma transformação interior dias antes de tomar posse — pedindo perdão a vagas entidades (povo, juventude, pobres) — em gesto que esconde, entre os compromissos reais, apenas promessa de escuta futura.
- Qual é o padrão de discurso transformacional em campanhas?
- Autoridades públicas costumam alegar transformação interior recente sem detalhar conteúdo — fenômeno que se repete em toda eleição brasileira, suspenso entre verdade pessoal e encenação política.
- Qual é o contraste entre servidores públicos de carreira e novos poderosos?
- Servidor de 68 anos, três décadas de carrinha, escuta com ceticismo a promessa de transformação de quem chega ao poder dias depois — contraste entre experiência acumulada e ilusão retórica.
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