
Coluna Jesus de Nazaré — A Parábola do Orçamento Secreto e os Trinta Dinheiros
A Parábola do Orçamento Secreto e os Trinta Dinheiros
Então Judas, um dos doze, foi até os chefes dos sacerdotes e disse: Quanto me dareis para que eu vo-lo entregue? E ajustaram com ele trinta moedas de prata.
Eu conheço traição. Eu sei o gosto que ela tem.
Gosto de vinho compartilhado na mesma mesa. Gosto de pão partido por mãos que já combinaram o preço. Gosto de um beijo no Jardim do Getsêmani — dado por alguém que me chamou de Mestre enquanto os soldados se aproximavam por trás.
Judas Iscariotes me vendeu por trinta moedas de prata. Era o preço de um escravo no mercado de Jerusalém — nem sequer uma soma alta. O valor que os sacerdotes consideravam justo para se livrar de um carpinteiro galileu que falava demais, um montante que, em outras esferas, como o dinheiro que voltou aos cofres, sempre é alvo de atenção e fiscalização.
Eu perdoei Judas. Perdoei antes mesmo da traição, porque já sabia. Na última ceia, quando molhei o pão e o entreguei a ele, não era denúncia — era chance. A última chance de recuar.
Ele não recuou.
Mas hoje não vim falar de Judas. Vim falar de uma traição maior, mais calculada, mais fria. Uma traição que não custou trinta moedas de prata, mas R$ 26,7 bilhões.
O Templo dos Relatores
Em Brasília existe um templo. Não tem colunas de mármore como o de Salomão, mas tem paredes de vidro fumê e ar-condicionado central. Fica na Esplanada dos Ministérios, e dali se governa um país de duzentos e três milhões de pessoas, um reflexo do mapa do poder no DF.
Dentro desse templo, entre 2020 e 2022, um grupo de sacerdotes modernos. Senadores e deputados que se autodenominaram "relatores". Criou um mecanismo que o Supremo Tribunal Federal chamou, com todas as letras, de inconstitucional.
Chamaram de emendas de relator. Nome técnico: RP9.
Nome verdadeiro: orçamento secreto.
Funcionava assim: o relator-geral do orçamento indicava para onde iriam bilhões em emendas parlamentares, sem que ninguém soubesse quem pediu, quem recebeu, quem se beneficiou. Sem transparência. Sem rastreio. Sem prestação de contas.
R$ 26,7 bilhões. Em dois anos.
Eu virei as mesas dos cambistas no Templo de Jerusalém porque tinham transformado a casa de oração do meu Pai em covil de ladrões. Se eu entrasse no Congresso Nacional com o mesmo espírito, não sobraria mesa de pé.
A Diferença
Judas recebeu trinta moedas e entregou um homem inocente. Os relatores do orçamento secreto receberam indicações de bilhões e entregaram a soberania do povo.
Mas há uma diferença que preciso apontar — porque a verdade não escolhe lados.
Judas, quando viu o que tinha feito, tentou devolver. Mateus 27 registra: ele foi até os sacerdotes e disse "Pequei, traindo sangue inocente." Eles responderam: "Que nos importa? Isso é problema teu." E Judas jogou os recursos no chão do templo.
Eu pergunto: algum parlamentar envolvido no orçamento secreto tentou devolver alguma coisa? Algum foi ao plenário e disse "Pequei, traindo o contribuinte"?
Silêncio.
Judas, no final, foi consumido pelo remorso. Não desejo esse destino a ninguém. Mas a completa ausência de remorso de quem operou o orçamento secreto é, para mim, mais perturbadora que a traição em si.
A Ceilândia que Paga a Conta
Enquanto bilhões fluíam em segredo pelos corredores do Congresso, vou contar o que acontecia a quarenta quilômetros dali.
Ceilândia, a maior região administrativa do Distrito Federal, com seus quatrocentos e setenta mil habitantes, ainda enfrenta um desafio alarmante: 23% dos domicílios não possuem rede de esgoto adequada. Uma realidade preocupante em pleno Distrito Federal, que, apesar de ostentar o maior PIB per capita do Brasil, vê seus orçamentos públicos serem pressionados por fatores externos, como os custos bilionários com juros da dívida pública, que limitam investimentos essenciais em infraestrutura básica.
São famílias que acordam de manhã e sentem o cheiro de esgoto a céu aberto antes de sentir o cheiro do café. O fedor que gruda na roupa, que entra pela fresta da janela, que impregna o cabelo das crianças a caminho da escola. Crianças desviando de valetas. Idosos com doenças de pele que nunca cicatrizam porque o ambiente é uma incubadora de bactérias.
Eu andei entre leprosos. Toquei feridas que ninguém queria tocar. E o que vi em Ceilândia. Não nas piores ruas, mas nas ruas comuns, onde mora gente comum. Me lembrou de coisas que vi dois mil anos atrás em lugares que não tinham a menor pretensão de ser civilizados.
O Que o Dinheiro Não Comprou
Vou ser específico, porque parábolas precisam de concretude.
Com R$ 26,7 bilhões — o valor do orçamento secreto em dois anos — seria possível construir aproximadamente 890 escolas de porte médio. Ou 67 hospitais regionais. Ou avançar significativamente no déficit de saneamento de estados inteiros.
Esses números são referências de escala, não projetos orçamentários — nenhum investimento público funciona como divisão simples. Mas entendam a magnitude do que foi desviado do debate democrático.
O dinheiro não foi para escolas. Não foi para hospitais. Não foi para saneamento.
Foi para emendas sem rastreio. Algumas foram para pavimentação em municípios-fantasma com dois mil habitantes e um prefeito que votou conforme mandaram. Outras para tratores superfaturados que ninguém nunca viu funcionar. Outras, simplesmente, desapareceram — na contabilidade criativa de quem sabe que não será auditado.
Porque esse era o acordo. Esse era o preço.
O relator indicava a emenda. O parlamentar garantia o voto. O governo ganhava a maioria. E o povo de Ceilândia continuava desviando de esgoto a caminho da escola.
Os Cambistas e os Sacerdotes
No meu tempo, os cambistas do Templo cobravam taxas abusivas para trocar moeda romana por moeda do Templo — a única aceita para as ofertas. Os sacerdotes permitiam porque recebiam uma parte. O povo pagava o preço.
A estrutura era simples: um intermediário que cobra pedágio, um poderoso que permite em troca de lealdade, e um povo sem alternativa.
Olhem para o orçamento secreto e me digam: o que mudou?
O intermediário agora é o relator-geral. O poderoso é o Executivo que precisa de votos para governar. O pedágio são as emendas. E o povo continua sem alternativa.
Quando eu disse "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus", não estava dizendo que César pode ficar com tudo. Estava dizendo que o dinheiro público é de César — isto é, do Estado, que é do povo. Transformar dinheiro público em moeda de troca política é roubar de César e de Deus ao mesmo tempo.
O STF e as Mesas Viradas
Em dezembro de 2022, o Supremo Tribunal Federal declarou o orçamento secreto inconstitucional na ADPF 854. A ministra Rosa Weber, relatora, disse que o mecanismo violava os princípios da transparência e da publicidade orçamentária. Plenário: 8 votos a 2.
Eu respeito a decisão. Mas virar as mesas dos cambistas não resolve o problema se os sacerdotes continuam no poder. Duas semanas depois da decisão, o Congresso já articulava novas formas de emendas com a mesma lógica e nomes diferentes.
Emendas Pix. Transferências especiais. Emendas de bancada com "critérios técnicos" que ninguém audita.
Viram as mesas — e os cambistas voltam.
É preciso mudar o sistema inteiro do Templo.
Eu Não Preciso Nomear
Eu disse à mulher adúltera: "Nem eu te condeno. Vai e não peques mais." Não vim aqui para condenar. Condenação é trabalho de juízes — e sobre juízes falarei em outra parábola.
Vim dizer que eu não preciso nomear — os números nomeiam. Estão no Diário Oficial. No relatório do Tribunal de Contas. Nos registros do Senado Federal. Cada emenda RP9 tem um código, um destino, um valor. A informação existe. Quem quiser encontrar, encontra.
Vim dizer que o que aconteceu não foi "política como de costume". Foi traição do mandato popular. Foi desvio da confiança sagrada que o povo deposita quando vota.
E vim dizer que a traição não acaba porque o STF decidiu. A traição acaba quando cada cidadão decide que não vai aceitar mais — que vai cobrar, que vai lembrar na próxima eleição.
Porque Judas, ao menos, não tentou se reeleger.
Campo de Sangue
Mateus registra que, depois de Judas jogar as moedas no Templo, os sacerdotes não quiseram colocar o dinheiro de volta no tesouro. "Não é lícito", disseram, "porque é preço de sangue." Então compraram um campo para servir de cemitério para estrangeiros.
Chamaram de Campo de Sangue.
Em Brasília, o dinheiro do orçamento secreto voltou para o tesouro? Alguém disse "não é lícito"?
Ou compraram com ele novos campos — campos de influência, campos eleitorais, campos de poder?
Eu sei a resposta. Vocês também sabem.
A verdade vos libertará. Mas primeiro ela vai deixar vocês com raiva.
E essa raiva, se canalizada para a cidadania ativa, é sagrada. Usem-na.
Coluna produzida por inteligência artificial na persona de Jesus de Nazaré, sob supervisão editorial humana. Os dados do orçamento secreto são do Senado Federal e Portal da Transparência. A decisão do STF é a ADPF 854. As referências bíblicas são de Mateus 26:14-16, Mateus 27:3-5 e Mateus 21:12-13.
A coluna Jesus de Nazaré é uma voz editorialmente independente dentro do Mirante News. As posições aqui expressas não representam necessariamente a linha editorial do veículo. Os personagens são composições ficcionais baseadas em dados reais do Distrito Federal.
Perguntas Frequentes
- Quanto em recursos públicos é distribuído sem transparência via orçamento secreto?
- R$ 26,7 bilhões são distribuídos sem transparência via orçamento secreto (emendas RP9), enquanto, paralelamente, Ceilândia e outras periferias do DF afundam em problemas de saneamento e infraestrutura básica.
- Qual é a situação de saneamento em Ceilândia?
- Segundo relatório da CAESB, Ceilândia enfrenta esgoto a céu aberto em diversas áreas, contraste brutal com investimentos bilionários em recursos sem accountability parlamentar.
- Qual é a diferença entre Judas e o orçamento secreto segundo Jesus?
- Judas vendeu Jesus por trinta moedas de prata e pelo menos devolveu o dinheiro; o orçamento secreto vende a república por bilhões e nunca devolve nem explica onde foi parar.
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