
Coluna Jesus de Nazaré — A Parábola do Deputado que Ora na Tribuna e Vota contra o Pobre
A Parábola do Deputado que Ora na Tribuna e Vota contra o Pobre
Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos e de toda imundícia.
Ele fecha os olhos. Junta as mãos. Invoca meu nome.
Eu vi esse homem antes. Vi dezenas como ele — séculos diferentes, roupas diferentes, o mesmo roteiro caiado de branco. Fariseu de terno e tribuna. Sepulcro com microfone.
Deixem-me descrever a cena para que vocês a vejam como eu vejo.
O Ritual da Tribuna
Plenário da Câmara dos Deputados. O carpete verde-musgo absorve os passos. O ar-condicionado mantém a temperatura exata em que a consciência adormece. O homem sobe à tribuna — terno escuro, gravata discreta, Bíblia encadernada em couro debaixo do braço.
Ajusta o microfone. O couro range contra o púlpito de madeira escura. Fecha os olhos.
"Senhor Deus, abençoa esta nação. Protege as famílias brasileiras. Dá sabedoria a estes parlamentares. Em nome de Jesus. Amém."
Palmas. Os assessores gravam. O clipe vai para o Instagram às 18h03 — fonte branca sobre fundo preto, trilha de piano suave: "Deputado ora pelo povo brasileiro." Duzentas mil visualizações antes do jantar.
Duas horas depois, o mesmo homem pressiona o botão vermelho.
Vota contra o reajuste real do salário mínimo. Vota contra a expansão do Bolsa Família. Vota a favor de desonerações fiscais para os setores que financiaram sua campanha.
E vai jantar no Lago Sul com a consciência limpa — porque a oração já limpou tudo, não é mesmo? Um amém basta. Um amém sempre basta, quando a fé é cosmética.
Eu conheço esse tipo. Tive um nome para eles.
Sepulcros caiados.
O Fariseu e o Publicano
Lucas registrou o que eu disse sobre isso, e não mudei de ideia.
Dois homens subiram ao Templo para orar. O fariseu. Respeitado, bem vestido, conhecedor da Lei. Orava de pé, em voz alta, para que todos ouvissem: "Graças te dou, ó Deus, porque não sou como os demais homens. Extorsionários, injustos, adúlteros. Nem como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo o que possuo." É justamente essa cena que a parábola dos dois templos revisita com olhos voltados para o Distrito Federal de hoje.
O publicano ficou de longe. Não ousava levantar os olhos. Batia no peito e sussurrava: "Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador."
Eu disse então e repito agora: o publicano desceu justificado. O fariseu, não.
A tribuna da Câmara virou o pátio do Templo. A oração pública virou marketing eleitoral. E o pobre continua lá embaixo — batendo no peito, sem que ninguém ouça.
A Aritmética do Sepulcro
Agora observem os números, porque nesta era as pessoas só creem no que podem contar.
Um deputado federal recebe R$ 44.008,52 de salário bruto por mês. Além disso: cota parlamentar de até R$ 44.632,46 mensais para passagens, alimentação, hospedagem, combustível, divulgação. Mais R$ 111.675,59 para manter gabinete com até 25 secretários.
Somando: um único deputado custa ao contribuinte R$ 200 mil por mês. Duzentos mil reais. Doze meses por ano. Sem férias da despesa.
Do outro lado — e notem como o outro lado é sempre mais perto do chão —, uma família inscrita no CadÚnico na Estrutural recebe em média R$ 681 do Bolsa Família. Com filhos pequenos, talvez R$ 900, uma realidade invisível para quem preferiu erguer um muro para não ver a Vila Estrutural a enxergar o que existe do outro lado do concreto. Mãe solo, talvez R$ 1.050.
Um deputado custa o equivalente a 294 famílias do Bolsa Família.
Um homem. Duzentas e noventa e quatro famílias.
E esse homem vota contra o reajuste de R$ 50 que daria a cada uma delas o preço de um saco de arroz.
Quando eu multiplicava pães e peixes, era porque as pessoas tinham fome real. Quando esse deputado multiplica verbas, é porque tem fome de reeleição.
A Doze Quilômetros do Plenário
Da Câmara dos Deputados até a Cidade Estrutural: doze quilômetros. Quinze minutos de carro, se o trânsito colaborar.
Nenhum deputado faz esse caminho.
A Estrutural nasceu do lixão — literalmente. As primeiras famílias se instalaram ao redor do Aterro Controlado do Jóquei nos anos 1990, catando restos para sobreviver. Hoje são mais de 40 mil pessoas. Renda média familiar: R$ 1.200. Um em cada três moradores depende de transferência de renda, e a falta de transparência na distribuição de recursos públicos — tema que remete à parábola do orçamento secreto e os trinta dinheiros — contrasta com a resiliência e a busca por oportunidades que movem muitos, desde os mais jovens, como na parábola do menino que entrega comida de bicicleta.
A unidade de saúde funciona com metade do quadro. A escola pública tem turmas de 38 alunos. O esgoto a céu aberto corre na rua de terra vermelha que as crianças atravessam descalças. Pés vermelhos, sola grossa de calo, o barro grudando entre os dedos como uma segunda pele que ninguém escolheu vestir — e é exatamente nesse abandono silencioso que jovens sem perspectiva se tornam presas fáceis das drogas, tragédia que já ceifou filhos de famílias trabalhadoras em toda a periferia do Distrito Federal.
Doze quilômetros. A mesma distância que separava o Gólgota do palácio de Herodes. A mesma distância entre quem sofre e quem decide o tamanho do sofrimento.
O deputado que ora na tribuna nunca pisou na Estrutural. Se pisasse, a terra vermelha sujaria os sapatos italianos que comprou com a cota parlamentar.
Ai de Vós
Eu disse aos fariseus — e consta em Mateus 23, para quem quiser conferir:
"Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado o que há de mais importante na Lei: a justiça, a misericórdia e a fé."
Traduzindo para o Congresso de 2026:
Vocês aprovam emendas de R$ 50 milhões para obras que ninguém fiscaliza — mas cortam R$ 2 bilhões do orçamento da assistência social. Vocês criam comissões para investigar os outros — mas protegem os seus. Vocês falam de família na tribuna — mas destroem famílias no orçamento. Uma postura que, para muitos, remete à parábola do servidor que servia a dois senhores.
Dais o dízimo da hortelã: fazem leis cosméticas para parecer piedosos.
Negligenciam a justiça: votam contra o pobre que vos elegeu.
Omitem a misericórdia: tratam verba social como desperdício.
Abandonam a fé: porque fé sem obras é morta — e as obras de vocês são contra o povo.
O Recibo e a Oração
No primeiro trimestre de 2026, deputados federais gastaram R$ 78 milhões em cotas parlamentares. Itens mais frequentes: divulgação da atividade parlamentar — leia-se propaganda pessoal —, passagens aéreas, combustíveis, locação de veículos, alimentação.
Um deputado específico — não darei o nome, porque meu Pai julgará cada um em seu tempo — gastou R$ 38 mil em janeiro apenas com "divulgação". Postou 47 vídeos no Instagram naquele mês. Todos com produção profissional, trilha sonora, edição cinematográfica. Em 31 desses vídeos, falava de Deus.
Trinta e um vídeos. R$ 38 mil. Dinheiro público. Para falar de mim.
Eu nunca pedi marketing. Eu disse: "Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai, que está em secreto." Em secreto. Não em Full HD com dois ângulos de câmera e legendas em amarelo.
Dona Celina e os Cinquenta Reais
No Recanto das Emas — 30 quilômetros da Câmara, 156 mil habitantes, renda entre um e dois salários mínimos —, Dona Celina tem 62 anos e vende tapioca na feira.
Acorda às quatro da manhã. O despertador é o frio seco de Brasília entrando pela fresta da janela que não fecha direito. Leva a massa pronta num balde de plástico azul, o fogareiro improvisado numa caixa de papelão, uma lona para se proteger do sol que às dez da manhã já é castigo.
Fatura entre R$ 60 e R$ 90 por dia — quando fatura. Não tem INSS. Não tem plano de saúde. Não tem aposentadoria.
O deputado que ora na tribuna fez um discurso semana passada defendendo "menos Estado e mais liberdade para o empreendedor."
Dona Celina é empreendedora. Tem a liberdade de morrer sem aposentadoria.
Quando eu disse "bem-aventurados os pobres em espírito", não estava dizendo que pobreza é virtude. Estava dizendo que o pobre reconhece que precisa de Deus — porque o Estado o abandonou. O pobre tem fé porque não tem mais nada.
E o deputado que usa meu nome para abandonar o pobre comete o pecado mais antigo de todos: toma o nome de Deus em vão.
Trinta e Três Milhões
Agora ouçam com atenção. Esta é a parte que deveria arder.
No Brasil, 33 milhões de pessoas vivem em insegurança alimentar grave. Grave significa: não sabem se terão o que comer amanhã. O IBGE não inventou esse número. Pesquisadores foram de casa em casa, olharam nos olhos de mães que diluem o leite para render mais um dia, e contaram.
Trinta e três milhões. A população inteira de Portugal, Grécia e Irlanda juntas. Dentro de um país que é o terceiro maior exportador de alimentos do planeta.
Eu alimentei cinco mil com cinco pães e dois peixes. Não por mágica — por fé que move montanhas e deveria mover orçamentos. Mas os deputados que oram em meu nome votam como se os famintos fossem invisíveis.
E são. Para eles, são.
O voto é o véu do sepulcro. Por fora, tudo caiado de branco — discurso bonito, oração emocionada, defesa da família. Por dentro, ossos. Ossos de um sistema que alimenta quem já está satisfeito e nega migalhas a quem rasteja.
A Parábola que Não Contei
Havia um deputado que orava toda manhã antes da sessão. Jejuava às quartas. Usava a Bíblia como apoio de braço.
Um dia, morreu.
Chegou diante de Deus. Confiante. "Senhor, orei em teu nome. Defendi valores cristãos no plenário. Combati o aborto, a ideologia de gênero, a liberação das drogas."
Deus olhou para ele — e o olhar de Deus tem peso, tem textura, tem a temperatura exata de quem vê tudo — e disse:
"Eu sei. Ouvi tuas orações. Todas. Também ouvi a oração de Dona Celina, do Recanto das Emas, que pediu um reajuste de R$ 50 para comprar remédio de pressão alta. Você votou contra."
O deputado engoliu em seco. "Mas, Senhor, a responsabilidade fiscal..."
"Eu sei de responsabilidade fiscal. Administro o universo inteiro sem gastar R$ 44 mil em divulgação. Tenta fazer o mesmo."
Silêncio.
"Quantas vezes você foi à Estrutural?"
"Estrutural, Senhor?"
"Fica a doze quilômetros do teu gabinete. Quarenta mil filhos meus moram lá. Você passou de carro uma vez, com o vidro fechado, a caminho do aeroporto."
O deputado baixou a cabeça.
"Tudo o que fizeste ao mais pequeno dos meus irmãos, a mim o fizeste. E tudo o que deixaste de fazer ao mais pequeno dos meus irmãos, a mim deixaste de fazer."
Não vou dizer como termina.
Cada deputado que lê estas palavras pode escrever o próprio final — desde que escreva antes da próxima votação.
O Publicano de Hoje
Quem é o publicano de hoje?
Talvez o sujeito que vota errado mas admite que não sabe o que faz. Talvez o empresário que sonega mas não finge que é santo. Talvez o cidadão comum que não vai à igreja mas divide a marmita com o colega no canteiro de obra.
O publicano não é melhor que o fariseu. Mas é mais honesto. E Deus trabalha com honestidade. Com hipocrisia, nem eu consigo.
Eu prefiro um pecador que se reconhece pecador a um santo de tribuna que usa meu nome para comer lagosta com dinheiro público.
Se você é deputado e está lendo: ore — mas depois de orar, vote como se cada família afetada estivesse na galeria, olhando nos seus olhos.
Se você é eleitor e votou nesse deputado por causa da Bíblia debaixo do braço: olhe para os votos dele. Não para os vídeos. Os votos. Estão todos no site da Câmara. São públicos, são fatos.
A tribuna tem microfone. Mas é o botão de votação que grita a verdade — e a verdade, por mais que a pintem de branco, fede a osso quando se abre o sepulcro.
Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
Coluna produzida por inteligência artificial na persona de Jesus de Nazaré, sob supervisão editorial humana. Os dados de remuneração parlamentar e cotas são da Câmara dos Deputados. Os dados de insegurança alimentar são do IBGE (POF 2024). As referências bíblicas são de Mateus 23, Lucas 18:9-14 e Mateus 6:5-6.
A coluna Jesus de Nazaré é uma voz editorialmente independente dentro do Mirante News. As posições aqui expressas não representam necessariamente a linha editorial do veículo. Os personagens são composições ficcionais baseadas em dados reais do Distrito Federal.
Perguntas Frequentes
- Qual é a estrutura do Plenário da Câmara que facilita a performance?
- O Plenário tem carpete verde-musgo, ar-condicionado a 22 graus, mesa de som de 64 canais, caixas line array e telão de LED, criando ambiente que adormece a consciência e facilita o ritual de hipocrisia política.
- Qual é o padrão de voto denunciado contra gastos sociais?
- O deputado vota contra reajuste real do salário mínimo, contra expansão do Bolsa Família e a favor de desonerações para setores que financiaram sua campanha, contradizendo a oração realizada minutos antes.
- Como a oração funciona como anestesia política?
- Um amém basta quando a fé é cosmética, oferecendo absolvição prévia que permite votar contra pobres sem culpa, transformando ritual religioso em mecanismo de limpeza da consciência.
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