
Plenário da Câmara Legislativa do DF — 24 cadeiras, R$ 12 milhões em campanhas, 607 candidatos
Raio-X da CLDF 2022: quanto custou cada voto, quem puxou quem e as distorções do sistema proporcional
A eleição de 2022 para a Câmara Legislativa do Distrito Federal custou R$ 12 milhões só em campanhas dos 24 eleitos. Os dados do TSE mostram paradoxos que o eleitor comum desconhece: candidatos eficientes ficam de fora enquanto campanhas milionárias garantem cadeiras com menos votos.
Raio-X da CLDF 2022: a balança quebrada
Sessenta e nove mil duzentos e setenta votos. Esse é o preço de uma cadeira na Câmara Legislativa do Distrito Federal. Pronuncie o número. Sinta o peso. Agora imagine que dezessete pessoas com mais votos que isso ficaram do lado de fora — enquanto quem gastou mais, entrou, um cenário que reforça a análise do mapa secreto do poder no DF.
A disputa pelas 24 cadeiras de distrital em 2022 atraiu 607 candidatos. Foram 1,66 milhão de votos válidos. Os 24 eleitos gastaram R$ 12 milhões em campanha.
O sistema proporcional brasileiro produz resultados que o eleitor comum não consegue explicar nem para si mesmo. Os dados estão todos abertos no Tribunal Superior Eleitoral. O problema nunca foi acesso. Foi vontade de olhar.
Esta reportagem cruzou três bases oficiais do TSE — resultados eleitorais, cadastro de candidatos e prestação de contas — e reconstruiu, número a número, como cada cadeira foi preenchida. O retrato que emerge é o de uma balança partida.
O coeficiente: a régua que ninguém vê
O coeficiente eleitoral é a régua invisível da democracia proporcional. Divida os votos válidos pelo número de vagas. Em 2022: 1.662.497 votos, 24 cadeiras. Resultado: 69.270 votos — o mínimo que um partido precisa para conquistar uma vaga.
Nenhum candidato individual atingiu esse número. Fábio Felix, do PSOL, foi o mais votado com 51.792 votos — 74,8% do coeficiente. Para eleger alguém, o partido precisa somar todos os votos nominais de seus candidatos mais os votos de legenda. O voto é do partido, não do candidato, como demonstrou o comportamento do distrital que votou contra o aumento do próprio salário.
Leia essa frase de novo. O voto é do partido.
Esse princípio — simples na teoria, brutal na prática — é a engrenagem que produz todas as distorções que você vai encontrar nesta reportagem.
A análise dos dados eleitorais mostra que, enquanto os votos válidos cresceram 11,0% entre 2018 e 2022, os votos de legenda caíram 14,6%, reduzindo seu percentual de 5,42% para 4,17%. Esse cenário de oscilações políticas e disputas por influência não é exclusivo do âmbito interno, refletindo também em arenas internacionais, como na complexa disputa do Brasil por uma vaga no Conselho de Segurança da ONU. O coeficiente eleitoral, por sua vez, acompanhou o aumento dos votos válidos, subindo de 62.384 para 69.270.
A queda nos votos de legenda é nítida: o eleitor do DF vota cada vez mais no candidato, não na sigla. Em quatro anos, os votos de legenda caíram 14,6% em termos absolutos — mesmo com o eleitorado crescendo. O partido como marca está morrendo, embora movimentos de direita, como o bloco bolsonarista no Senado, mostrem força agregadora. O candidato como pessoa está sobrevivendo.
O efeito puxador: um homem carrega o partido nas costas
Imagine Chico Vigilante. Sessenta e oito anos, o mais velho entre os eleitos. Veterano do PT no Distrito Federal, voz rouca de plenário, décadas de sindicalismo. Rosto conhecido em cada rodoviária de Ceilândia e Taguatinga.
Chico fez 43.854 votos. Foram 2,4 vezes mais que o segundo colocado do próprio partido.
Sem Chico, o PT não elegeria três distritais. Com ele, elegeu.
Esse é o efeito puxador: um candidato que sozinho aproxima (ou ultrapassa) o coeficiente e arrasta colegas de chapa para dentro da Câmara. O fenômeno não é exclusivo do PT. Ele atravessa o espectro político:
A distribuição de votos e cadeiras entre os partidos, como mostra a tabela com os puxadores de legenda, evidencia como os recursos do Fundo Eleitoral são decisivos na disputa. | Partido | Puxador | Votos | 2º lugar | Razão | Cadeiras | |---|---|---|---|---|---| | PT | Chico Vigilante | 43.854 | 18.063 | 2,4x | 3 | | Avante | João Cardoso | 17.579 | 8.069 | 2,2x | 1 | | Cidadania | Paula Belmonte | 17.208 | 8.313 | 2,0x | 1 | | União | Eduardo Pedrosa | 22.489 | 11.739 | 1,9x | 1 | | PMN | Rogério Morro da Cruz | 18.207 | 11.473 | 1,6x | 1 | | PSD | Robério Negreiros | 31.341 | 30.640 | 1,0x | 2 |
O PSD foi o cenário oposto: Robério Negreiros e Jorge Vianna praticamente empataram, razão de 1,0x. Distribuição equilibrada, sem dependência de um único nome. Mas esse é o caso raro. Na maioria dos partidos, uma pessoa carrega tudo — e os demais entram no vácuo.
O risco para 2026 é óbvio. Se o puxador muda de partido, disputa outro cargo ou morre, o castelo desmorona.
A Grande Distorção: mais votos, zero cadeiras
Aqui a balança quebra de vez.
Dayse Amarilio, do PSB, foi a menos votada entre os 24 eleitos: 11.012 votos. Agora observe a tabela abaixo e conte quantos não-eleitos tiveram mais votos que ela:
| Candidato | Partido | Votos | Situação |
|---|---|---|---|
| Delmasso | Republicanos | 23.243 | Suplente |
| Cláudio Abrantes | PSD | 20.254 | Suplente |
| Sardinha | PL | 20.107 | Suplente |
| Agaciel Maia | PL | 17.693 | Suplente |
| Eduardo Torres | PL | 16.990 | Suplente |
| Carlos Dalvan | AGIR | 16.227 | Suplente |
| Cristiano Araújo | MDB | 15.897 | Suplente |
| Tabanez | MDB | 14.523 | Suplente |
| Subtenente Geraldo Alves | PSC | 14.123 | Não eleito |
| Bispo Renato | PL | 13.976 | Suplente |
Dezessete. Dezessete candidatos com mais votos que uma eleita — e nenhum deles entrou.
Delmasso (Republicanos) teve o dobro dos votos de Dayse. Ficou como suplente. Sardinha (PL) teve quase o dobro. Também de fora. O sistema proporcional fez exatamente o que foi desenhado para fazer: premiar o partido, não o indivíduo. Mas quando você percebe que 23.243 votos valem menos que 11.012, a palavra "representação" começa a pesar diferente na boca.
O caso mais emblemático entre os eficientes não está nem nessa lista. Delegado Fernando Fernandes (PROS) gastou R$ 29 mil na campanha, fez 12.383 votos a R$ 2,41 cada — o melhor custo-benefício entre todos os candidatos com mais de cinco mil votos. E ficou de fora. Porque o PROS não atingiu o coeficiente.
Doze mil eleitores digitaram seu número. Confiaram nele. E o sistema devolveu: obrigado, mas o partido do seu candidato não somou o bastante.
O efeito federação: a engenharia da sobrevivência
As federações partidárias, criadas em 2022, permitiram que partidos menores somassem forças — uma espécie de fusão temporária para fins eleitorais. A mais decisiva para a composição da CLDF foi a Federação PSDB-Cidadania.
Isolada, a Cidadania teria quociente de 0,62 — insuficiente para qualquer cadeira. O PSDB sozinho também não chegaria. Mas somados, a federação atingiu 0,99 — praticamente o coeficiente. Paula Belmonte se elegeu por causa dessa combinação aritmética. Sem a federação, sua cadeira simplesmente não existiria.
| Federação | Partidos | Votos | Quociente | Eleitos |
|---|---|---|---|---|
| Brasil da Esperança | PT, PV, PCdoB | 165.506 | 2,39 | 3 |
| PSOL-REDE | PSOL, REDE | 118.039 | 1,70 | 2 |
| PSDB-Cidadania | PSDB, Cidadania | 68.860 | 0,99 | 1 |
Das 24 cadeiras, 15 foram preenchidas pelo quociente partidário (divisão direta) e 9 por maiores médias (sobras). A distribuição final:
| Partido | Cadeiras | Via quociente | Via sobra |
|---|---|---|---|
| PL | 4 | 3 | 1 |
| PT | 3 | 2 | 1 |
| MDB | 3 | 2 | 1 |
| PSOL | 2 | 1 | 1 |
| PSD | 2 | 1 | 1 |
| AGIR | 2 | 1 | 1 |
| PP | 2 | 1 | 1 |
| Republicanos | 1 | 1 | — |
| União | 1 | 1 | — |
| PMN | 1 | 1 | — |
| PSB | 1 | 1 | — |
| Avante | 1 | — | 1 |
| Cidadania | 1 | — | 1 |
O PL liderou com quatro cadeiras graças à votação pulverizada entre seus candidatos — Daniel Donizet (33 mil), Thiago Manzoni (25 mil), Roriz Neto (21 mil), Roosevelt Vilela (20 mil). O partido somou 221 mil votos — mais que o triplo do coeficiente. Estratégia de massa, não de puxador.
Quanto custou cada voto
As cinco campanhas mais caras somaram R$ 5,19 milhões. Foram 43% de toda a receita dos eleitos para conquistar 115 mil votos. As cinco mais baratas somaram R$ 815 mil e fizeram 131 mil votos.
Mais votos, menos dinheiro. O custo mediano ficou em R$ 16,70. A média, puxada pelos extremos, foi de R$ 21,59.
De onde veio o dinheiro:
| Fonte | Valor | Percentual |
|---|---|---|
| Fundo partidário/eleitoral | R$ 8.116.091 | 67,7% |
| Pessoas físicas | R$ 2.789.856 | 23,3% |
| Outros candidatos | R$ 550.691 | 4,6% |
| Recursos próprios | R$ 419.808 | 3,5% |
| Financiamento coletivo | R$ 113.583 | 0,9% |
Dois terços vieram dos próprios partidos. A dependência do fundo eleitoral é quase total para candidatos de partidos médios e grandes. Quem não tem acesso ao fundo precisa de rede própria de doadores — ou de bolso fundo.
A legenda em queda livre: 2018 vs. 2022
O voto de legenda está morrendo no Distrito Federal. A tendência é clara, contínua, e ninguém está tentando reverter.
| Partido | Legenda 2018 | Legenda 2022 | Variação |
|---|---|---|---|
| PT | 9.959 | 17.295 | +74% |
| PL | — | 12.098 | Novo |
| Republicanos | — | 8.414 | Novo |
| MDB | 5.025 | 6.027 | +20% |
| PSDB | 4.357 | 1.360 | −69% |
| NOVO | 6.742 | 3.415 | −49% |
| PSB | 5.959 | 1.865 | −69% |
O PT foi o único partido de grande porte a crescer em voto de legenda — efeito direto da candidatura presidencial de Lula. PSDB e PSB colapsaram: ambos perderam quase 70% dos votos partidários, reflexo da perda de identidade que devastou as siglas nacionalmente.
O Novo, que em 2018 surfou a onda antipetista com 6.742 votos de legenda, caiu para 3.415. Marca em declínio.
Se a tendência se mantiver, o voto de legenda em 2026 ficará abaixo de 3%. Isso obriga partidos a investir em pessoas, não em logomarca.
O que a balança revela sobre 2026
O sistema proporcional brasileiro foi desenhado para que nenhuma voz se perca. Na prática, ele produz o oposto: vozes com 23 mil eleitores atrás silenciadas, enquanto vozes com 11 mil entram pela porta dos fundos do quociente.
Três engrenagens definem quem entra e quem fica de fora.
O puxador é o rei. Partidos que dependem de um único nome forte — PT com Chico Vigilante, Avante com João Cardoso — estão a uma migração de distância do colapso. Se o puxador muda de sigla ou disputa outro cargo, o partido perde a cadeira. Não uma. Todas que dependiam dele.
Federações são o novo jogo. A CLDF teria composição diferente sem elas. A Federação PSDB-Cidadania sozinha determinou uma cadeira que não existiria de outra forma. Em 2026, a aritmética das federações será tão decisiva quanto a campanha de rua.
O sistema pune eficiência individual. Delegado Fernando Fernandes gastou R$ 2,41 por voto, conquistou 12.383 eleitores e ficou de fora. Porque o PROS não atingiu o coeficiente. O eleitor que votou nele fez tudo certo. O sistema é que não foi desenhado para premiar quem faz tudo certo.
A balança da CLDF não está apenas desnivelada. Ela mede coisas diferentes em cada prato: num lado, votos individuais; no outro, somas partidárias. E o eleitor, que pensa estar pesando candidatos, está na verdade pesando siglas.
Sessenta e nove mil duzentos e setenta votos. Esse era o preço de uma cadeira. À medida que os números de 2026 se aproximam, o preço vai subir — mas as distorções vão continuar exatamente as mesmas.
Metodologia: todos os dados foram extraídos das bases abertas do TSE (dadosabertos.tse.jus.br) em 3 de abril de 2026. Foram utilizados os arquivos de resultados eleitorais (votação nominal e por partido por município/zona), cadastro de candidatos e prestação de contas de candidatos, todos referentes às eleições gerais de 2022 no Distrito Federal. O coeficiente eleitoral e os quocientes partidários foram recalculados a partir dos microdados, sem utilizar totalizações intermediárias.
Perguntas Frequentes
- O que é o coeficiente eleitoral e como ele funciona na CLDF?
- O coeficiente é o mínimo de votos que um partido precisa para conquistar uma vaga. Em 2022, dividindo 1.662.497 votos válidos por 24 cadeiras, chegou-se a 69.270 votos. Nenhum candidato individual atingiu esse número isoladamente — o voto é do partido, não do candidato. O partido soma votos nominais de seus candidatos mais votos de legenda.
- Quanto Paula Belmonte gastou por voto comparado a Max Maciel?
- Paula Belmonte gastou R$ 73,80 por voto (13 vezes mais que Max Maciel, que gastou R$ 5,50). Ambos foram eleitos, mas a disparidade de custo por voto revela como o sistema proporcional gera distorções onde candidatos com maior poder de financiamento conseguem cadeiras com investimentos muito superiores.
- O que é o efeito puxador em eleições proporcionais?
- É quando um candidato faz tantos votos que sozinho aproxima (ou ultrapassa) o coeficiente eleitoral e arrasta colegas de chapa para dentro da Câmara. Exemplo: Chico Vigilante fez 43.854 votos (2,4 vezes mais que o segundo do PT). Sem Chico, o PT não elegeria 3 distritais. Com ele, elegeu. O fenômeno atravessa todo o espectro político.
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