
Mapa eleitoral do Distrito Federal — 19 zonas, 896 candidatos, R$ 57 milhões em campanhas declaradas
O mapa secreto do poder no DF: onde o dinheiro manda, onde o voto protesta e quem são os 55 candidatos fantasma
Seis bases oficiais do Tribunal Superior Eleitoral, 896 candidatos, R$ 57 milhões em receitas declaradas e 19 zonas eleitorais. Os números de 2022 no Distrito Federal contam histórias que nenhum analista publicou — de cinturões ideológicos invisíveis a candidaturas que existem só no papel.
O mapa secreto do poder no DF
Seis bases. Novecentos nomes. Cinquenta e sete milhões de reais. E um padrão que ninguém quis ver — até você abrir este mapa.
O Distrito Federal elegeu, em 2 de outubro de 2022, um governador, uma senadora, oito federais e 24 distritais. Foram 2,19 milhões de eleitores aptos e 1,8 milhão de comparecimentos. Tudo público. Tudo verificável. Tudo largado em planilhas que quase ninguém cruzou — o mesmo tipo de dado aberto que, em outras áreas, já permite ao GDF cruzar informações em tempo real para recuperar veículos roubados em até 14 horas —, mas que permitiram uma análise inédita sobre o custo e a eficácia dos votos para a CLDF.
Esta reportagem cruzou. Carregou seis bases completas do Tribunal Superior Eleitoral — candidatos, votação por zona, comparecimento, receitas, despesas e pesquisas registradas — e passou um pente-fino em cada célula. O que emergiu é um retrato do poder brasiliense que nenhum analista publicou e nenhum editorial ousou montar, revelando inclusive o perfil de parlamentares que se destacam por posturas distintas, como o distrital que votou contra o aumento do próprio salário.
O cinturão invisível: duas capitais dentro de uma
Imagine Dona Cláudia, 54 anos, funcionária do Banco do Brasil há vinte anos. Mora em Águas Claras, num apartamento de dois quartos com vista para o viaduto. Toda manhã, passa o olho no noticiário e pensa a mesma coisa: segurança, gestão, menos imposto. Ela acompanha até mesmo as consequências da política externa brasileira no seu cotidiano. Dona Cláudia é estatística, embora não saiba.
A Zona 6 cobre Águas Claras e Taguatinga Norte. É a mais conservadora do Distrito Federal. Dos votos válidos para distrital, 61,1% foram para partidos de direita e centro-direita: PL, PP, Republicanos, União, PSD. Classe média alta, condomínios verticais, eleitores que priorizam ordem e resultado, muitos deles inseridos no fenômeno dos concursos públicos que atrai centenas de candidatos por vaga. É o coração pulsante de um cinturão que atravessa o DF de leste a oeste.
No extremo oposto está a Zona 14 — Asa Norte, Varjão, fatia do Lago Norte. Concentrou 40,5% dos votos em partidos de esquerda. Universidade, funcionalismo federal progressista, comunidades de baixa renda que também são atendidas pelo maior centro ortopédico do Centro-Oeste. Mundos que coexistem na mesma zona e, por motivos opostos, votam parecido.
Entre esses dois polos, um gradiente:
| Zona | % Direita | % Esquerda | Perfil |
|---|---|---|---|
| 6 | 61,1% | 15,9% | A mais conservadora do DF |
| 17 | 59,2% | 20,1% | Sobradinho e periferia norte |
| 4 | 54,6% | 17,0% | Taguatinga e Ceilândia |
| 14 | 44,3% | 40,5% | Asa Norte e Varjão — disputa acirrada |
| 1 | 48,1% | 36,1% | Plano Piloto — mais equilibrada |
| 18 | 43,5% | 23,2% | Samambaia |
| 21 | 43,2% | 15,4% | Planaltina — menos ideológica |
O dado destrói uma narrativa preguiçosa: a de que "Brasília é toda de esquerda por ser funcionalismo público". Não é. O Plano Piloto é progressista. Mas as cidades-satélite que explodiram nas últimas duas décadas formam a maioria absoluta do eleitorado — e votam à direita com margem folgada.
Quem olha de fora vê uma cidade. Quem olha os dados vê duas.
Os 55 fantasmas
Agora imagine outro personagem. Seu Antônio, 62 anos, bigode ralo, camisa social de manga curta. Concorreu a distrital pelo Democracia Cristã. Fez campanha por 45 dias. Imprimiu santinhos. Colou cartazes em poste.
Recebeu 37 votos. Menos que uma sala de aula cheia.
Seu Antônio não é exceção. É estatística. De 578 candidatos a distrital com votos registrados, 55 receberam menos de 100 votos — 9,5% do total. São candidaturas fantasma. Existem no papel, aparecem na urna, mas não respiram no mundo real.
Amplie a lente. Candidatos com menos de 500 votos: 234. Quarenta por cento do total. Quatro em cada dez candidatos a distrital tiveram menos votos que uma seção eleitoral inteira.
Os partidos que mais concentram essas candidaturas ínfimas revelam o padrão:
| Partido | Candidatos menos de 100 votos | Total | Percentual |
|---|---|---|---|
| PCO | 3 | 4 | 75% |
| PMB | 10 | 23 | 43% |
| Solidariedade | 9 | 22 | 41% |
| DC | 8 | 20 | 40% |
| Cidadania | 3 | 16 | 19% |
| PTB | 4 | 24 | 17% |
| PROS | 4 | 25 | 16% |
O PCO é caso à parte: partido de nicho com quatro candidatos, três fantasmas. Mas PMB, Solidariedade e DC lançaram 20 ou mais nomes e tiveram 40% deles com votação irrelevante. Os números apontam todos para a mesma direção. Candidaturas de fachada, usadas para inflar tempo de propaganda ou cumprir cotas de gênero sem intenção real de competir.
A pergunta que nenhum tribunal faz é simples. Se 234 candidatos não convencem nem 500 pessoas a digitar seu número, o que fazem no sistema?
O mapa do dinheiro: de onde vem, para onde vai
R$ 57 milhões circularam pelas campanhas de 2022 no Distrito Federal. O número é público. A distribuição, não.
Entre os 24 distritais eleitos, o custo por voto variou de R$ 5,50 a R$ 73,80. Diferença de 13,4 vezes. Paula Belmonte, da Cidadania, investiu R$ 1,27 milhão para colher 17.208 votos. Max Maciel, do PSB, fez 35.758 votos com R$ 196.775. O dobro de votos, um sexto do dinheiro.
O padrão é revelador. Os candidatos mais baratos por voto têm bases comunitárias consolidadas — movimentos sociais, igrejas, sindicatos, trabalho de rua acumulado em décadas. O dinheiro substitui o que o candidato não tem em rede. Quem não conhece ninguém precisa comprar a atenção de todo mundo.
Entre os deputados federais, a disparidade repete com números mais extremos. Gilvan Máximo gastou R$ 68,90 por voto (R$ 1,44 milhão para 20.923 votos). Fred Linhares precisou de R$ 3,66 por voto (R$ 604 mil para 165.358 votos). Bia Kicis, a mais votada com 214.733 votos, gastou R$ 9,91 por voto.
No Senado, o dado mais impressionante. Marcelo Hipólito, do PTB, declarou R$ 526 mil de receita e obteve 1.841 votos. São R$ 285,71 por voto — quase quatro salários mínimos da época por cada eleitor. Ficou em penúltimo lugar.
A eleita, Damares Alves, gastou R$ 5,52 por voto. O Senado também liderou em protesto: 12,1% dos votos foram nulos ou brancos, contra 7,5% para distrital. O cargo que menos gente entende é o que mais gente rejeita.
Três faixas, três realidades. Os que constroem base e gastam pouco. Os que compram visibilidade e gastam muito. E os que jogam dinheiro num poço e chamam aquilo de campanha.
A abstenção que não aconteceu
A narrativa confortável dizia que o eleitor tinha desistido. Os dados dizem o contrário.
A abstenção no DF caiu de 18,7% em 2018 para 17,6% em 2022. Queda de 1,1 ponto, mesmo com o eleitorado crescendo em 112 mil pessoas. A polarização entre Lula e Bolsonaro puxou para a urna gente que antes ficava em casa.
Os votos nulos despencaram de 106.567 para 47.561 — queda de 55%. Votos brancos ficaram estáveis. A leitura é simples. Em 2022, o eleitor brasiliense estava mais politizado e menos disposto a se calar.
A abstenção, porém, não se distribui por igual:
| Indicador | Zona 2 (maior) | Zona 11 (menor) |
|---|---|---|
| Taxa de abstenção | 19,6% | 15,3% |
| Diferença | +4,3 pontos percentuais | — |
A Zona 2 — Gama e Santa Maria — tem a maior taxa de abstenção do DF. A Zona 11, parte de Taguatinga, tem a menor. A diferença de 4,3 pontos pode parecer pequena, mas representa milhares de votos que mudariam resultados proporcionais apertados.
O dado mais revelador está na Zona 21 (Planaltina): ali os nulos e brancos caíram 40,6% entre 2018 e 2022. O eleitor planaltinense, que antes protestava anulando, decidiu escolher um lado. E escolheu à direita.
Ibaneis: forte em Planaltina, fraco na Asa Norte
O governador reeleito obteve 832.633 votos no primeiro turno. Leandro Grass ficou com 434.587. Paulo Octávio, com 123.715. Coronel Moreno, com 94.100.
A votação de Ibaneis oscilou 26,3 pontos entre sua zona mais forte e a mais fraca. Na Zona 21 (Planaltina), ele chegou a 61,4% — quase dois terços. Na Zona 14 (Asa Norte), apenas 35,2%.
A coincidência não é coincidência. Ibaneis é forte exatamente onde a direita domina. Fraco onde a esquerda disputa. E Planaltina — zona com a maior queda de votos de protesto entre 2018 e 2022 — canalizou sua decisão direto para o governador.
O mapa de Ibaneis é o mapa do cinturão conservador. Quem ler um, lê o outro.
O que o mapa sussurra sobre 2026
Os dados de 2022 são a linha de base para qualquer análise séria da eleição que se aproxima. A cartografia que emerge não traz três lições didáticas. Traz um território com falhas geológicas.
O DF é conservador com bolsões progressistas. Não o contrário. Quem quiser vencer o governo precisará das zonas 6, 17, 4 e 13 — todas acima de 53% à direita. A Asa Norte e o Plano Piloto, onde moram a imprensa e a classe política, são a exceção barulhenta. Não a regra silenciosa.
Dinheiro não compra eleição. Mas a ausência dele enterra. Dos 234 candidatos com menos de 500 votos, a maioria tinha receita ínfima. Existe um piso mínimo sem o qual a candidatura é ficção jurídica. Acima desse piso, cada real adicional compra menos voto que o anterior.
Cinquenta e cinco candidatos fantasma. Duzentos e trinta e quatro abaixo de 500 votos. Um cinturão conservador que a imprensa de Brasília insiste em não enxergar. E um mapa do dinheiro que mostra quem constrói base e quem compra palanque.
O mapa está aberto. À medida que você olha, o desenho se forma sozinho.
Todos os dados desta reportagem são públicos e verificáveis nos portais de dados abertos do Tribunal Superior Eleitoral. Números referem-se ao primeiro turno das eleições gerais de 2022 no Distrito Federal, exceto quando indicado.
Perguntas Frequentes
- Qual é a zona mais conservadora do Distrito Federal?
- A Zona 6, que cobre Águas Claras e Taguatinga Norte, com 61,1% dos votos válidos para distrital indo para partidos de direita e centro-direita (PL, PP, Republicanos, União, PSD). É classe média alta, condomínios verticais, eleitores que priorizam ordem e resultado.
- Qual é a zona mais progressista do DF e como se diferencia da Zona 6?
- A Zona 14 (Asa Norte, Varjão, fatia do Lago Norte) concentrou 40,5% dos votos em partidos de esquerda, comparada a apenas 15,9% na Zona 6. Tem universidade, funcionalismo federal progressista e comunidades de baixa renda. O contraste entre Zona 6 (61% direita) e Zona 14 (40,5% esquerda) revela um DF profundamente dividido ideologicamente.
- Quanto mulheres recebem a menos que homens em campanhas para a CLDF?
- Mulheres recebem 7,6% menos financiamento de campanha que homens para disputar as mesmas cadeiras, representando disparidade significativa no acesso a recursos para competir eleitoralmente.
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