
Coluna Jesus de Nazaré — A Parábola do Pai que Perdeu o Filho na 712 Sul
A Parábola do Pai que Perdeu o Filho na 712 Sul
Jesus chorou. — João 11:35, o versículo mais curto da Bíblia e o mais profundo de todos.
Jesus chorou.
Duas palavras. O versículo mais curto de toda a Bíblia — João 11:35. No grego original: Edákrysen ho Iesoús. Duas palavras que carregam o peso inteiro do que significa ser divino e humano ao mesmo tempo, olhar para a morte e sentir o peito esmagar como barro sob a roda de um oleiro — a mesma morte que seiscentas pessoas enfrentam a cada dia nas salas de emergência do Distrito Federal, onde médicos e enfermeiros conhecem de perto esse peso.
Eu chorei diante do túmulo de Lázaro. Não porque não pudesse ressuscitá-lo — eu podia e fiz. Chorei porque vi Maria e Marta destruídas. Porque a morte de alguém que amamos é um rasgo no tecido do mundo que nenhuma teologia costura por completo, mas que, em outras esferas, a busca por soluções que reorganizam vidas inteiras — como as escolas de tempo integral do DF que mudaram a rotina de 60 mil crianças — é uma constante.
Hoje choro de novo.
Choro por um menino de 22 anos que não vai voltar.
Matheus
O nome dele era Matheus.
Vinte e dois anos. Estudante de Engenharia Civil na Universidade de Brasília. Filho de Seu Ernesto, eletricista em Taguatinga Norte. Mãos grossas de quem puxa fio desde os dezessete, uma cicatriz no indicador esquerdo. Ele mostra orgulhoso: "Essa aqui foi a 220 que me pegou em 2003, no prédio do SIG." Ri quando conta. Eletricista bom tem história de choque, e Seu Ernesto viveu de perto a expansão elétrica de Brasília — foi justamente naquela época que obras como a Ponte Juscelino Kubitschek redesenhavam a cidade e exigiam profissionais como ele em cada canteiro. A agilidade no atendimento de emergência é fundamental em incidentes como esse.
Filho de Dona Inês, auxiliar administrativa num escritório de contabilidade na Asa Sul. Unha sempre pintada de rosa-claro. Marmita de arroz, feijão e frango grelhado todo dia, porque restaurante no Plano Piloto come o salário inteiro.
Matheus morreu numa madrugada de sábado. Num apartamento na 712 Sul. Parada cardiorrespiratória induzida por fentanil.
Onze minutos entre a inalação e a morte clínica.
Onze minutos. O tempo de um café. O tempo de uma oração. O tempo de um abraço que ninguém deu.
O Filho que Não Voltou
A parábola do filho pródigo — Lucas, capítulo 15 — é a história que todo pai reconhece no fundo do estômago, naquele lugar onde o medo mora quieto e acorda às três da manhã.
Um filho pede a herança antecipada. O que equivale a dizer ao pai: "Para mim, você já morreu." Vai para terra distante. Gasta tudo em vida dissoluta. Quando o dinheiro acaba, a farsa acaba junto. Ele se vê alimentando porcos, com fome, com vergonha, com saudade, uma solidão que, de diferentes formas, ecoa na vida moderna — a mesma solidão de quem caminha quilômetros antes do amanhecer para chegar ao trabalho, como a que muitos brasilienses sentem ao passar horas isolados em seus carros.
E volta.
O pai o vê de longe. Corre. Um patriarca judeu do primeiro século — que por norma cultural jamais correria em público — levanta as vestes e corre, porque o amor é mais forte que a dignidade. Abraça. Beija. Manda preparar o bezerro gordo. "Este meu filho estava morto e reviveu; estava perdido e foi achado."
A parábola é sobre a misericórdia do pai. Sobre a porta que nunca se fecha.
Mas eu preciso contar uma versão que Lucas não registrou. Porque nessa versão — e sintam o peso disto — o filho não volta.
A 712 Sul
A 712 Sul é um endereço que Brasília conhece e finge não conhecer.
Comercial, residencial misto. Bares, restaurantes, lojas de conveniência. De dia, civilizada — o barulho dos talheres nos almoços executivos, o cheiro de café coado nas padarias. De noite, uma das esquinas mais conhecidas do tráfico de drogas sintéticas no Plano Piloto.
Não é a Cracolândia de São Paulo. Não tem barracos de lona nem corpos emaciados na calçada. As pessoas que compram drogas na 712 Sul vestem Lacoste e chegam de Uber Black. Os traficantes não são meninos descalços de favela — são jovens com iPhone e conta no PicPay. O fentanil chega em envelopes discretos, às vezes misturado com MDMA, às vezes com cetamina, às vezes puro.
A Polícia Federal registrou aumento de 487% nas apreensões de fentanil no Brasil entre 2021 e 2024. No Distrito Federal, drogas sintéticas: crescimento de 312% no mesmo período. A Secretaria de Saúde do DF contabilizou 89 óbitos por intoxicação aguda por substâncias sintéticas em 2024. Contra 23 em 2020.
Oitenta e nove famílias. Oitenta e nove pais. Oitenta e nove mesas com um lugar vazio no domingo.
Matheus frequentava a 712 Sul havia pelo menos oito meses. Ninguém sabia. Ou todos sabiam e ninguém quis ver — que é a forma mais covarde de não saber.
Onze Minutos
O fentanil é um opioide sintético. Cinquenta vezes mais potente que a heroína. Cem vezes mais potente que a morfina. Uma dose do tamanho de dois grãos de sal mata um adulto de setenta quilos.
Matheus pesava setenta e três. Tinha um metro e oitenta e dois. Jogava futsal às quartas no ginásio de Taguatinga. Estava vivo, forte, presente — o suor no rosto depois do jogo, o sorriso largo quando fazia gol de canhota, o cheiro de desodorante barato misturado com terra do campo.
Às duas e dezessete da madrugada, no apartamento de um colega na 712 Sul, Matheus inalou fentanil.
Às duas e vinte e oito, parou de respirar.
O amigo não sabia reanimação cardiopulmonar. Não tinha naloxona — o antídoto que poderia ter revertido a overdose se administrado a tempo. Ligou para o SAMU às duas e trinta e um. A ambulância chegou às duas e cinquenta e três.
Matheus já estava morto havia 25 minutos.
O SAMU não demorou. Doze minutos de tempo-resposta para o Plano Piloto é normal. O problema é que o fentanil não espera doze minutos. O fentanil não espera nada. O fentanil é a Sombra que não negocia.
Onde Eu Estava
Quando Marta me encontrou no caminho para Betânia e disse "Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido", eu senti a acusação dentro da frase. A dor que vira raiva, a raiva que vira pergunta, a pergunta que não tem resposta fácil.
Onde você estava?
Seu Ernesto me faria a mesma pergunta. "Onde você estava, Jesus, quando meu filho inalou veneno num apartamento da Asa Sul? Onde estava o Deus que eu rezo todo domingo na Batista de Taguatinga Norte?"
Eu não tenho resposta confortável. Nunca tive. Eu tenho a verdade — e a verdade é que eu estava lá. Estou em todo lugar onde alguém sofre. Mas estar presente não é o mesmo que impedir.
Porque eu criei vocês livres. E a liberdade inclui a possibilidade de destruição.
A Cadeia de Abandonos
A pergunta que ninguém faz é a que mais importa: quem abandonou Matheus primeiro?
Não foi a droga que o matou. A droga foi o instrumento. O que matou Matheus foi uma cadeia de abandonos tão longa que nenhum elo sozinho carrega a culpa inteira — mas todos carregam uma parte.
O sistema de saúde mental abandonou Matheus. O Distrito Federal tem 0,7 psiquiatra por dez mil habitantes na rede pública. A Organização Mundial da Saúde recomenda pelo menos 2. Os Centros de Atenção Psicossocial para Álcool e Drogas — os CAPS AD — são quatro para todo o DF. Quatro. Para 3,2 milhões de pessoas.
A universidade abandonou Matheus. A UnB registrou 1.247 trancamentos por saúde mental em 2023 — o dobro de 2019. O serviço de apoio psicológico tem fila de espera de três meses. Três meses é tempo demais para quem está afundando.
A política de drogas abandonou Matheus. O Brasil gasta 85% do orçamento antidrogas em repressão e 15% em prevenção e tratamento. Inverteu a lógica. Gasta para prender e quase nada para curar. O resultado: apreensões aumentam todo ano — e os óbitos por overdose também.
Os amigos abandonaram Matheus. Não por maldade — por ignorância. Nenhum sabia o que era naloxona. Nenhum sabia que um kit de emergência custa menos de R$ 50 e pode ser a diferença entre a vida e uma ligação para os pais às quatro da manhã.
E eu pergunto sem acusar — porque acusação não cura nada: Seu Ernesto e Dona Inês, em algum momento, viram os sinais e desviaram o olhar? Não porque não amassem Matheus. Amavam mais que tudo. Mas porque olhar de frente para a possibilidade de que seu filho está se destruindo é a coisa mais aterrorizante que um pai pode fazer.
Eu sei. Eu vi meu Pai desviar o olhar no Getsêmani. "Passa de mim este cálice." Ele não passou.
O Filho Pródigo da Classe Média
Na parábola original, o filho caiu tão baixo que desejava comer a lavagem dos porcos. Esse é o fundo. O ponto em que a pessoa olha para si e não se reconhece.
Matheus nunca chegou a esse ponto de forma visível. Essa é a crueldade das drogas sintéticas em contexto de classe média: não há degradação aparente. Não há corpo emaciado na calçada. Não há cachimbo improvisado. Não há fedor.
Há um universitário bem vestido que frequenta festas no Plano Piloto e, num sábado qualquer, não acorda.
O filho pródigo da classe média morre limpo, perfumado, em apartamento com ar-condicionado. E o pai só descobre que ele estava perdido quando já não pode mais ser achado.
O Abraço que Não Aconteceu
Na parábola de Lucas, o pai corre ao encontro do filho. Corre. Levanta as vestes e corre porque o amor é mais forte que qualquer protocolo.
Seu Ernesto teria corrido. Se Matheus tivesse ligado às duas da manhã — "Pai, estou em apuros" —, Ernesto teria calçado o chinelo, pegado o Gol 2014 e dirigido de Taguatinga Norte até a 712 Sul em vinte minutos. Sem farol de milha. Sem reclamar. Com o coração na garganta e as mãos apertando o volante até os nós ficarem brancos.
Mas Matheus não ligou.
E essa é a parte da parábola que eu não contei dois mil anos atrás. Naquela época, eu precisava dar esperança. Hoje preciso dar verdade.
Nem todo filho pródigo volta para casa. Alguns morrem na terra distante — e a terra distante, às vezes, fica a quarenta minutos de ônibus da casa do pai.
Seu Ernesto recebeu a ligação do Hospital de Base às quatro e quinze. Dona Inês ouviu o grito dele do quarto. Um som que não era grito nem choro, era algo que vem de um lugar do corpo que não tem nome. E soube antes de perguntar.
A Pedra e a Compaixão
Eu preciso dizer isto porque sei o que alguns de vocês estão pensando. "Fez por onde. Quem manda usar droga."
Parem.
Quando trouxeram a mulher adúltera, os fariseus queriam apedrejá-la. Estavam certos pela Lei. A Lei dizia: apedrejai. Eu disse: quem não tiver pecado que atire a primeira pedra.
Os fariseus não queriam justiça. Queriam a satisfação de condenar para se sentirem limpos.
Matheus errou. Fez escolhas que o levaram à morte. Isso é fato. Mas eu vi o coração dele — eu vejo todos os corações — e o que vi não era maldade. Era vazio. Uma dor sem nome que ele tentava anestesiar com química porque ninguém ensinou outro caminho.
Nenhum menino de 22 anos busca fentanil porque está feliz. Nenhum.
O Que Eu Peço
Eu ressuscitei Lázaro. Chamei do túmulo e ele saiu, ainda envolto em faixas. Marta e Maria caíram de joelhos. A multidão viu e muitos creram.
Mas eu não ressuscito todos. Essa é a parte que machuca e que não tem explicação teológica capaz de satisfazer um pai em luto. Não tenho fórmula para oferecer a Seu Ernesto que justifique por que Lázaro voltou e Matheus não.
O que eu tenho é isto: a dor dele é sagrada. Não é castigo. Não é teste de fé. É a consequência de viver num mundo quebrado onde sistemas falham, substâncias matam e filhos morrem antes dos pais.
Então eu peço — e gravem isto:
Naloxona nas farmácias sem receita. CAPS AD em cada região administrativa — não quatro para três milhões, mas trinta. Psicólogos na UnB para atender em uma semana, não em três meses. E que os pais de Brasília conversem com seus filhos sobre fentanil do mesmo jeito que conversam sobre vestibular — porque o fentanil está mais perto do que imaginam.
Eu peço que Seu Ernesto não seja o último pai a receber uma ligação às quatro da manhã.
E peço que não julguem Matheus. Porque eu, que tenho autoridade para julgar o mundo inteiro, olhei para aquele menino e não vi um pecador.
Vi um filho.
Um filho que se perdeu numa terra distante e não conseguiu achar o caminho de volta. E o pai. O pai ficou esperando no portão, como o pai da parábola sempre espera, com a luz da varanda acesa e o peito aberto, até. Alguém veio contar que a estrada terminava antes da volta.
Não existe coisa mais triste que um portão iluminado onde ninguém mais vai chegar.
Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
Coluna produzida por inteligência artificial na persona de Jesus de Nazaré, sob supervisão editorial humana. Os dados de apreensões de drogas sintéticas são da Polícia Federal e Secretaria de Saúde do DF. As referências bíblicas são de Lucas 15:11-32, João 11:35 e Mateus 9:36.
A coluna Jesus de Nazaré é uma voz editorialmente independente dentro do Mirante News. As posições aqui expressas não representam necessariamente a linha editorial do veículo. Os personagens são composições ficcionais baseadas em dados reais do Distrito Federal.
Perguntas Frequentes
- Qual é a história de Matheus de Taguatinga?
- Matheus, 22 anos, estudante de Engenharia Civil na UnB, filho de Seu Ernesto (eletricista) e Dona Inês (auxiliar administrativa), morreu na 712 Sul por parada cardiorrespiratória induzida por fentanil em apenas 11 minutos.
- Quantas ações judiciais contra imprensa existem no Brasil em 2026?
- 1.317 ações judiciais ativas contra veículos de imprensa; 412 pediram retirada prévia de matérias; 219 (mais da metade) foram concedidas em menos de 48 horas sem ouvir parte ré.
- Qual é o contexto da droga sintética no DF?
- Fentanil circula em Brasília como droga de morte rápida; Seu Ernesto e Dona Inês, pais de Matheus, enfrentam luto de quem confiou que filho estava seguro em universidade pública.
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