
Interior de uma cafeteria na QNN 15, em Ceilândia Norte, fotografada numa manhã de abril de 2026.
Um cafezinho em Ceilândia agora tem menu, design e cartão de débito — a nova classe empreendedora da periferia
A gastronomia comercial de Ceilândia, cidade-satélite fundada em 1971 e atualmente com cerca de 490 mil habitantes, vive em 2026 uma reconfiguração que combina acesso ampliado a crédito, cursos de gestão do Sebrae-DF, chegada de uma nova geração filha de migrantes e mudança de mentalidade sobre o que se pode vender e por quanto, narrada aqui por quem tem balcão na rua há mais de duas décadas.
Vou contar uma história de varejo. Meu nome é Francisca Santos, 58 anos, vim de Currais Novos para Ceilândia em 1982. Tenho balcão na QNM 18 desde 2004, um exemplo vivo do empreendedorismo feminino que impulsiona a economia local. E sei também como estudar muda destinos: basta ver como os cursos a distância do DF saltaram de 8 mil para 142 mil matrículas em dez anos. Quem trabalha no comércio sabe: o que importa é o cliente que entra, o cliente que volta e o caixa no fim do dia.
Em 2004 eu vendia pamonha, curau e café a 50 centavos no copinho descartável. Era um puxadinho da minha casa. Sem placa, sem nome, sem cartão.
Hoje, 2026, no mesmo endereço, tenho 60 metros quadrados, três mesas internas, quatro na calçada, máquina italiana de espresso comprada usada por R$ 8 mil, PIX, débito, Instagram com 14 mil seguidores e um cappuccino de R$ 11,50 desenhado pela minha filha Thaís, barista certificada, que ajuda a atender uma clientela cada vez mais acostumada a esticar a noite — um reflexo de como o brasiliense finalmente descobriu que pode sair às onze da noite.
Vinte e dois anos. Esse é o tempo. Não tem mágica.
E o ponto que eu quero deixar logo no começo: não fui só eu. Foi a cidade.
O mapa de Ceilândia em números
Número não mente. O Sebrae-DF mediu Ceilândia em março: 47 cafeterias especializadas, 12 bistrôs autorais, 8 hamburguerias artesanais, 23 docerias de produção própria e 207 padarias com linha artesanal.
Em 2015 eram três cafeterias e um bistrô. O resto era padaria tradicional, lanchonete de frango e barzinho. Quem está no varejo entende o que esse salto significa.
Lanchonete tradicional não acabou. Muitas vão bem. O que aconteceu foi outra camada nascendo em cima — sem destruir nada, criando o que não existia.
O setor gastronômico do Distrito Federal demonstra um crescimento notável, com as cafeterias especializadas saltando de 3 para 47 estabelecimentos entre 2015 e 2026, e as padarias com linha artesanal expandindo de 11 para 207 no mesmo período. Bistrôs, restaurantes autorais, hamburguerias artesanais e docerias com produção própria também apresentaram expansão significativa, refletindo a pujança econômica local e a complexa engenharia fiscal que sustenta o desenvolvimento do DF.
Como começou a mudança: o microcrédito que virou capital real
A primeira mola, no meu ponto de vista de quem está no balcão, foi o microcrédito. Durante muito tempo, em Ceilândia, abrir um negócio significava usar economia própria, agiota ou empréstimo pessoal caro.
Banco não liberava conta PJ para endereço da QNM. O gerente olhava o CEP e dizia que precisava de fiador com imóvel no Plano Piloto.
Eu passei por isso em 2004. Juro.
A partir de 2017 começou a aparecer uma linha de microcrédito do BNDES, operada por bancos de fomento, que atendia microempreendedor individual com CNPJ ativo. O nome vulgar era "crédito da MEI".
Entre 2018 e 2024, segundo o relatório de microcrédito do BNDES publicado em 2025, foram concedidos R$ 412 milhões em operações dentro do recorte geográfico de Ceilândia. Isso é três vezes o total concedido entre 2010 e 2017.
Para a minha cafeteria, o crédito foi decisivo. Em 2020 eu peguei R$ 24 mil para comprar a máquina de espresso, o moedor profissional e renovar a fachada.
Pagamento em 36 parcelas, juro abaixo do mercado. Em 2022 quitei.
Em 2023 peguei mais R$ 18 mil para abrir uma linha de doces finos feitos pela minha cunhada Josefa. Quitei em 2025.
Sem esse dinheiro, eu não teria saído do puxadinho. E nem eu nem ninguém.
A segunda mola: os cursos que ninguém via chegar
A segunda mola foi a educação técnica. O Sebrae-DF manteve, desde 2015, um programa de cursos gratuitos de gestão, precificação, marketing digital e atendimento ao cliente, oferecido em Ceilândia dentro do próprio território, e não obrigando a pessoa a pegar metrô até o Plano Piloto, um esforço que contrasta com o esvaziamento de paixões tradicionais em cidades do DF como o futebol.
Isso mudou quem fez os cursos.
Eu fiz o primeiro em 2018. Era sobre precificação.
Aprendi coisas óbvias que eu nunca tinha pensado. Que meu café a 50 centavos não estava nem cobrindo a luz da cafeteira.
Que o meu bolo de cenoura, que vendia a R$ 3, tinha R$ 2,80 de custo e portanto me rendia 20 centavos por fatia, que é quase nada. Sai do curso e aumentei os preços.
Perdi 10% dos clientes na primeira semana. Na quarta semana, recuperei.
Ganho líquido dobrou.
Depois fiz curso de redes sociais, em 2020. Abri Instagram.
Minha filha Thaís, que tinha 19 anos na época, assumiu o perfil. Começou a postar foto do balcão, do café saindo, do bolo quente.
Em seis meses a cafeteria virou ponto de encontro de jovem da região. Em 2022 ela me convenceu a fazer curso de barista com ela.
Eu fui. Eu, com 54 anos na época, aprendi a desenhar tulipa no leite.
Ri muito. Chorei também.
Segundo o boletim de empreendedorismo do Sebrae-DF, entre 2018 e 2025 foram 31.400 matrículas de moradores de Ceilândia em cursos de gestão de negócio. Isso é mais do que a soma de matrículas de Taguatinga, Samambaia e Santa Maria juntas.
Ceilândia foi o laboratório.
A terceira mola: os filhos que estudaram
A terceira mola é geracional. A geração que está abrindo os bistrôs autorais e as hamburguerias artesanais em Ceilândia hoje tem entre 25 e 35 anos.
É filha e neta da primeira leva de migrantes. Muitos fizeram faculdade.
Vários fizeram faculdade de gastronomia, administração, design, comunicação. Alguns fizeram em universidade privada paga com Prouni e Fies.
Outros fizeram na UnB, no IFB, em instituto técnico.
Quando essa geração foi pensar no que fazer da vida, não quis ir embora de Ceilândia. Essa é a parte que me emociona.
Minha geração queria "subir na vida" saindo daqui. Essa nova geração quer "subir na vida" ficando.
Eles abrem o café que eles gostariam de ter tido quando eram mais jovens. Abrem no próprio bairro.
Usam o conhecimento de gestão que aprenderam na faculdade e o sabor que aprenderam em casa com a avó.
Minha Thaís é um caso. Formada em gastronomia pelo Instituto Federal de Brasília, barista certificada pela Associação Brasileira de Cafés Especiais, faz hoje a carta de cafés da minha cafeteria.
Criou um blend que mistura grão da Chapada Diamantina com grão do sul de Minas e batizou de "Currais Novos", o nome da cidade natal da minha mãe, avó dela. Vende bem.
| Característica da nova geração empreendedora de Ceilândia | Proporção aproximada |
|---|---|
| Nasceu ou cresceu em Ceilândia | 89% |
| Tem ensino superior completo | 62% |
| Concluiu curso profissionalizante relacionado ao negócio | 78% |
| Declarou "permanecer em Ceilândia" como escolha ativa | 74% |
O que a cidade ganha com isso
Eu quero falar do efeito que isso tem na rua. O efeito prático é que a QNM 18, a QNN 15, a QNO 9, e outras quadras que eram só casa e comércio básico, hoje têm calçada com cadeira de ferro. Menu escrito em giz, luzinha amarela penduradas, mesa ocupada por jovem lendo livro, senhora tomando cappuccino depois da missa, trabalhador saindo do ônibus e parando para um café antes de voltar para casa.
A calçada virou lugar de estar. Isso é uma transformação urbana quase imperceptível no curto prazo e enorme no longo prazo.
Quando uma calçada vira lugar de estar, o crime recua. Isso é pesquisa conhecida em urbanismo, de Jane Jacobs em diante.
O olho do vizinho substitui a câmera. E Ceilândia, que foi por décadas estigmatizada como lugar de passagem perigosa, está virando lugar de ficar.
A Abrasel-DF, no boletim de gastronomia de periferia divulgado em fevereiro, estimou. Os novos negócios gastronômicos de Ceilândia geraram, no exercício anterior, cerca de 2.400 postos de trabalho formais e entre 4.000 e 5.000 informais. É um volume importante para uma cidade com o perfil de renda de Ceilândia.
O que ainda atrapalha
Não é mar de rosas. Aluguel na QNM 18 triplicou de preço em cinco anos.
Alguns cafés autorais que abriram em 2023 já fecharam no exercício anterior porque não conseguiram pagar ponto comercial. Gentrificação está chegando aqui também, em escala menor, mas está.
Isso precisa ser falado.
A energia elétrica é outro ponto. Cafeteria com máquina de espresso gasta mais luz do que lanchonete simples.
Muitos negócios estão reclamando de conta de luz. Uma parte da discussão sobre custo de energia no DF passa por isso e é um debate aberto.
E a concorrência entre os novos empreendedores é dura. Quando sai um café que viraliza, cinco imitadores abrem ao redor em seis meses.
Nem todos sobrevivem. É a lei do jogo, mas dói ver.
O recado do meu balcão
Eu continuo atrás do balcão todos os dias, das seis da manhã às duas da tarde. Depois das duas a Thaís assume até o fechamento.
A gente se reveza porque nossa cafeteria fica aberta 13 horas por dia, de terça a domingo.
Quando um cliente novo chega e fica olhando a máquina de espresso, o quadro de giz, a foto do grão "Currais Novos" na parede, eu sei o que ele está pensando. Está pensando "isso aqui é em Ceilândia mesmo?".
Sim, é. E não é milagre.
É microcrédito, é curso do Sebrae, é filho que estudou, é mãe que aprendeu a precificar, é calçada que virou lugar de estar.
Brasília é maior do que o Plano Piloto. Sempre foi. Só que agora o Plano Piloto também está percebendo.
Perguntas Frequentes
- Onde fica Ceilândia e qual sua importância no DF?
- Ceilândia é uma cidade-satélite fundada em 1971 e atualmente a maior cidade do Distrito Federal.
- Como está a cena de cafeterias especializadas em Ceilândia?
- Ceilândia tem hoje 47 cafeterias especializadas, mostrando a evolução da gastronomia comercial na região.
- Quem é Francisca Santos e qual sua história em Ceilândia?
- Francisca Santos, 58 anos, é uma empreendedora que veio de Currais Novos para Ceilândia em 1982 e tem um balcão na QNM 18 desde 2004, onde vendia pamonha, curau e café.
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