
Parada de ônibus em Ceilândia no começo da manhã, horário de pico das mães solos. Foto: Agência Brasília/Divulgação.
A mãe solo do DF: perfil de 240 mil mulheres que sustentam sozinhas suas famílias
Uma em cada cinco famílias do Distrito Federal é chefiada por uma mulher que vive sem cônjuge e cria sozinha seus filhos. São 240 mil mães solos, segundo o IBGE e a Codeplan. Esta crônica não é sobre política. É sobre quem elas são, como organizam o impossível e que forma de coragem discreta é essa que o censo não sabe medir.
Às 5h47 da manhã, na parada de ônibus da QNM 13 em Ceilândia, Elisângela, uma mulher de 34 anos, segura na mão direita a mochila escolar da filha mais velha e no braço esquerdo o bebê de nove meses enrolado num pano amarelo — rotina que contrasta com o perfil do trabalhador que passa mais de duas horas por dia no deslocamento casa-trabalho, realidade comum no Distrito Federal. A filha mais velha, de seis anos, puxa sozinha a mochila dela, que é quase do tamanho dela.
O ônibus vem. Elisângela sobe primeiro, paga duas passagens. A dela e a da criança, porque o bebê ainda é gratuito. Arruma o pano amarelo para não apertar o pescoço do filho, arruma o cabelo e olha o relógio, talvez pensando em como conciliar a rotina com a busca por qualificação — dilema comum entre as milhares de mães que voltaram a estudar depois de criar os filhos, algo que muitos brasilienses têm encontrado na expansão dos cursos a distância no DF.
Se tudo der certo, estará no trabalho, no Lago Norte, às 7h15. Se não der, terá que explicar de novo por que chegou atrasada.
Elisângela é uma entre 240 mil. Uma em cada cinco famílias do Distrito Federal é hoje chefiada por uma mulher que vive sem cônjuge e cria sozinha os filhos.
Os dados vêm do Censo 2022 do IBGE, consolidados pela Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios da Codeplan em 2024. O número cresceu 38% desde o censo anterior, de 2010, quando eram 174 mil.
O DF é a unidade federativa com a segunda maior proporção de famílias monoparentais femininas do país, atrás apenas do Amapá.
Quem são, segundo os dados
A mãe solo típica do DF tem entre 28 e 42 anos, vive numa das regiões administrativas de renda média-baixa. Ceilândia, Samambaia, Recanto das Emas, Santa Maria, Planaltina —, tem dois filhos, não concluiu o ensino superior, trabalha fora de casa e ganha em média R$ 2.140 por mês. Metade delas é assalariada com carteira, mas muitas outras atuam no microempreendedorismo.
Outra metade sobrevive com trabalhos informais, bicos, vendas por WhatsApp, cuidado de idosos, diarista, manicure a domicílio, cabeleireira de sala. Apenas 22% recebe pensão alimentícia regular.
Outras 18% recebem pensão de forma irregular. Os 60% restantes não recebem nada do pai das crianças.
O perfil médio da mãe solo no Distrito Federal revela uma mulher de 33 anos, com dois filhos e ensino médio completo. Com uma renda mensal média de R$ 2.140,00, apenas 22% recebem pensão regularmente, e 49% estão no mercado de trabalho formal, sendo que 78% são as únicas provedoras de suas famílias. Essa realidade impõe uma rotina de dedicação e esforço, onde o tempo é um recurso precioso, especialmente considerando que muitos brasilienses enfrentam longos períodos de deslocamento e, por vezes, solidão em seu dia a dia.
O perfil não é homogêneo. Há mães solos advogadas, médicas, servidoras públicas federais de alto nível, juízas, diretoras.
Há também mães solos que dormem no ônibus porque fizeram dupla jornada e ainda vão ter que acordar às 5h no dia seguinte. A crônica de todas cabe entre esses dois extremos.
O primeiro dia do mês
Toda mãe solo entrevistada para esta reportagem falou, de uma forma ou de outra, do primeiro dia do mês. É o dia em que chegam as contas e se fecha a planilha mental — porque quase todas têm uma planilha mental, ainda que não chamem assim.
Aluguel, luz, água, gás, internet, transporte, escola particular. É o caso, plano de saúde quando é o caso, feira, açougue, padaria. Material escolar quando começa o semestre, remédio quando alguém fica doente, conserto do celular quando cai no chão, parcela do sofá. Ainda falta, do fogão que quebrou em março, do ventilador que quebrou em agosto. A conta nunca fecha sem algum tipo de adiamento.
A rede de apoio real da mãe solo do DF,. A PDAD, é composta por três pilares: a avó materna (57% das mães citam a avó como primeiro suporte), uma irmã ou cunhada (24%), uma vizinha próxima (19%). Apenas 4% mencionam um tio ou irmão homem.
O pai das crianças aparece em 11% das respostas, mas quase sempre como "ajuda quando pode" — o que, na prática, significa "não dá para contar".
As que saem antes do sol
Há um horário no transporte público do DF conhecido pelos motoristas como "horário das mães". Começa por volta das 5h30 e vai até as 6h20.
É quando as paradas das regiões periféricas ficam cheias de mulheres com crianças pequenas, fraldas, mamadeiras e mochilas. Elas vão deixar o filho mais novo na creche pública, o maior na escola, e depois pegar um segundo ônibus para o trabalho.
À tarde, fazem o caminho inverso, quase sempre correndo contra o horário de fechamento da creche, que no DF é às 18h na rede pública.
A engenharia logística que essa rotina exige é a maior invisibilidade do assunto. O sociólogo Jessé de Souza já escreveu que o Brasil é um país construído sobre o trabalho invisível das mulheres pobres.
No DF, essa frase tem endereço, CEP, linha de ônibus e horário.
Os bairros do cuidado
Ceilândia concentra sozinha quase 48 mil famílias monoparentais femininas — o maior número absoluto do DF. Samambaia tem 31 mil.
Planaltina, 22 mil. Recanto das Emas, 18 mil.
Santa Maria, 17 mil. Estas cinco regiões administrativas somam mais da metade de todas as mães solos do Distrito Federal.
Nelas, a rede de creches públicas tem fila de espera média de 14 meses para vagas em período integral. A maioria das mães entrevistadas pagou, durante algum período da vida, uma vizinha para cuidar dos filhos enquanto trabalhava.
O valor varia de R$ 300 a R$ 800 por mês por criança — quase sempre no informal, sem contrato, sem garantia, sem folga.
Mas é também nesses bairros que a rede informal de cuidado sustenta o impossível. A mãe que cuida do filho da vizinha de manhã e deixa a filha dela com a própria mãe à tarde.
A igreja que oferece reforço escolar gratuito duas vezes por semana. O grupo de WhatsApp do prédio que avisa quando a creche vai abrir vaga.
A irmã mais nova que mora de favor por seis meses e em troca pega a sobrinha no colégio. Não existe palavra técnica para isso.
Na PDAD, chama-se "arranjo domiciliar complexo". Na vida real, chama-se sobrevivência com dignidade.
O que a política pública faz e o que não faz
O DF tem alguns programas voltados a mães solos. O Cartão Gás, o Prato Cheio, o auxílio creche municipal, a prioridade em habitação de interesse social.
Há também o Bolsa Família federal, que atinge 83 mil famílias chefiadas por mulher no DF, e o BPC para mães de crianças com deficiência. O conjunto dessas transferências cobre, em média, 19% da renda dessas famílias.
A ausência mais estrutural é a de creches em tempo integral. O DF tem hoje 182 unidades públicas de educação infantil.
A demanda por vaga, segundo a Secretaria de Educação, é de pelo menos 34 mil crianças não atendidas. Mãe que não tem vaga em creche ou para de trabalhar, ou pede ajuda na família, ou paga informalmente — e geralmente faz as três coisas na sequência ao longo do ano.
O que elas dizem quando o gravador desliga
No fim de cada entrevista, depois que o gravador foi desligado e a conversa virou conversa sem pauta, todas as mulheres ouvidas disseram, com palavras diferentes, uma mesma coisa. Não se consideram heroínas.
Não gostam da palavra guerreira. Acham que estão só fazendo o que precisa ser feito.
Acreditam que o filho vai crescer e a vida vai melhorar. Não querem pena.
Querem creche, transporte, ônibus que passe no horário, pensão que chegue, empregador que entenda.
Querem, acima de tudo, ser vistas como pessoas inteiras, e não como um tipo social.
Elisângela, da parada de ônibus das 5h47, desce no Lago Norte às 7h11. Deixou o bebê numa creche particular que custa R$ 620 por mês.
Deixou a filha mais velha na escola classe. Começa o trabalho como empregada doméstica numa casa que tem cinco quartos e uma piscina.
Às 17h, refaz o caminho inverso. Chega em casa às 19h40.
Dá banho nas crianças, faz o jantar, confere a tarefa de casa, deita na cama com o celular no escuro por vinte minutos e dorme. No dia seguinte, acorda às 5h e começa tudo outra vez.
São 240 mil Elisângelas no Distrito Federal. É uma cidade inteira de mães andando sozinhas.
E a cidade inteira, de certa forma, depende delas para continuar funcionando.
Mirante News — jornalismo do Distrito Federal com inteligência artificial.
Esta matéria integra a cobertura especial do Mirante News sobre a vida cotidiana de Brasília — pequenos retratos do que move a capital.
Perguntas Frequentes
- Quantas mães solos existem no Distrito Federal?
- Uma em cada cinco famílias do DF é chefiada por mulher que vive sem cônjuge e cria sozinha os filhos — 240 mil mães solos segundo IBGE e Codeplan, crescimento de 38% desde 2010.
- Qual é o padrão de renda e horário das mães solos?
- Mãe solo Elisângela acorda às 5h47, pega ônibus com filhos, chega ao trabalho em Lago Norte às 7h15 se tudo der certo — rotina que repete 240 mil vezes no DF, sustentando famílias com salários que permanecem invisibilizados.
- Qual é a forma de coragem envolvida?
- A crônica enfatiza que coragem discreta de organizar impossível — cuidar filhos, trabalhar, garantir educação com renda mínima — é forma de heroísmo que o censo não sabe medir e a política não reconhece.
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