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O Brasiliense perdeu 70 mil torcedores em 10 anos — o futebol do DF em coma
A gente lembra do dia em que o Mané virou caldeirão. 2004. Brasiliense contra o Santos, decisão da Copa do Brasil. Bandeira tricolor até no farol do taxista. Hoje o mesmo estádio, no mesmo jogo do Candangão, recebe 612 pagantes. Eu contei.
Minha gente, a gente lembra do dia em que o Mané virou caldeirão. 2004. Brasiliense contra o Santos, final da Copa do Brasil. Bandeira tricolor até no farol do taxista.
Hoje o mesmo estádio, no mesmo jogo do Candangão, recebeu 612 pagantes. Eu contei. Sentei na cadeira 23 do setor norte, tirei a calculadora do bolso e fui contando fileira por fileira. É o que sobrou pra um cronista velho fazer num sábado à tarde em Brasília, um cenário que, aliás, contrasta com a vitalidade de outros espaços da capital, onde as 12 maiores igrejas de Brasília reúnem mais gente num domingo do que o Mané Garrincha em final de campeonato — e onde, não por acaso, os jovens voltaram a lotar as missas do amanhecer com uma regularidade que envergonha qualquer torcida organizada.
O futebol do Distrito Federal está em coma. Não é força de expressão, minha gente. É diagnóstico, com data, hora e planilha de borderô.
O número que ninguém quer ver
Em 2007, o Candangão teve média de 18.412 torcedor por jogo, segundo relatório da Federação de Futebol do Distrito Federal. Era o ápice do ciclo dourado do Brasiliense, que acabava de voltar da Série A.
Em 2015, a média já tinha caído pra 4.880. Em 2025, fechamos o estadual com média de 1.870 pagante por jogo.
Setenta mil torcedor evaporaram em dez anos, somando jogo a jogo. Setenta mil pessoa que passou pela catraca uma vez e não voltou mais. Setenta mil, minha gente.
Os dados de público nos jogos do futebol candango ao longo dos anos revelam uma trajetória de altos e baixos, com a média de espectadores caindo de 18.412 em 2007 para 1.420 em 2020, antes de uma leve recuperação projetada para 1.870 em 2025. Essa variação sublinha a importância de iniciativas que busquem revitalizar o interesse e a competitividade do esporte local, como o investimento em tecnologia e inteligência artificial que tem sido adotado por clubes como o Brasiliense FC para impulsionar seu desempenho e buscar o retorno à Série B.
O ano de 2020 tem asterisco: pandemia. Mas o gráfico não é vale. É ladeira. Deslizou e continua deslizando.
Gama: o clube que virou esquina
O Gama foi campeão brasileiro da Série B em 1998. Subiu pra elite. Tinha sócio-torcedor antes da palavra virar moda de departamento de marketing.
Hoje, minha gente, treina num campo emprestado do Setor Sul. Folha de 180 mil por mês. Joga a Série D do Brasileiro com jogador que recebe ajuda de custo em vez de salário.
Conversei semana passada com o Natinho, roupeiro do Periquito há 31 anos. Ele lavava as camisas do elenco de 98, o do Donizete Amorim, do Leandro Amaral, do Fábio Baiano. Hoje lava 22 uniformes numa máquina de casa porque a lavanderia terceirizada virou luxo. "Seu Valdir, tá faltando sabão", ele me disse. Sabão, minha gente. Um clube centenário pedindo sabão.
Ceilândia: o Gato Preto que miou
O Ceilândia ainda tem a torcida mais vocal do quadradinho. Quando joga em casa, no Abadião, dá gente. Dá quatro mil, cinco mil quando o rival é grande.
Mas o Abadião virou símbolo do abandono. Gramado que parece tapete de barbeiro. Vestiário que alaga quando chove forte. Placar eletrônico desligado desde 2022 porque ninguém paga a conta de luz da iluminação de competição.
O técnico do Gato Preto na temporada anterior, Ivan Baitello, me disse uma frase que grudou: "A gente não perde jogo por falta de jogador. A gente perde por falta de cidade". É isso, minha gente. Falta a cidade.
Onde foi parar a rádio que narrava o Candangão?
Em 2008, a vitalidade da imprensa tradicional era evidente, com cinco emissoras transmitindo o estadual: Clube FM, Transamérica, Nacional, Jovem Pan e até uma comunitária do Gama que só pegava no Setor Central, mas mesmo assim fazia barulho. Havia setorista, comentarista, e aquela figura mágica que era o repórter do intervalo perguntando no vestiário se o treinador ia manter o esquema, um cenário que hoje contrasta com os desafios enfrentados pelo setor.
Hoje tem uma. Uma rádio. E é streaming de internet, tocado por três voluntários que revezam entre narrar o jogo e operar a mesa de som com cabo de microfone emendado com fita isolante. Os rapazes são bons, têm garra, mas não paga boleto com garra, um triste retrato do Brasil que perdemos.
Os atleta que a gente formou e entregou
Aqui dói mais, minha gente. Brasília formou Bernard, Serginho, Lucas Silva, Bruno Silva, Pedrinho. Formou Richarlison até os 12 anos antes dele ir pro Espírito Santo.
O DF sempre foi celeiro. Tem categoria de base. Tem peneira. Tem molecada jogando pelada no Paranoá, no Recanto, no Varjão, na Estrutural. O problema não é matéria-prima. É o que a gente faz com ela depois que brota.
Na temporada anterior, segundo levantamento da Federação, 84 atleta nascido no DF atuavam profissionalmente no Brasil e no exterior. Destes, apenas 6 jogavam em clube do DF. Seis, minha gente.
| Para onde foram os atletas do DF | Quantidade |
|---|---|
| Clubes do próprio DF | 6 |
| Outros estados brasileiros | 58 |
| Exterior | 20 |
| Total | 84 |
Os outros 78 estão em Goiás, Minas, São Paulo, Portugal, Arábia. Até em Chipre tem zagueiro do Gama que foi embora em 2019. A gente exporta jogador como exporta servidor público concursado: forma aqui, trabalha lá.
O motorista que viveu tudo
Voltando do Mané naquela tarde de 612 pagantes, peguei um Uber. O motorista, seu Raimundo, 63 anos, me contou que levou o Renato Gaúcho uma vez do aeroporto pro Taguatinga Shopping em 2002. Contou que acompanhou o Brasiliense na final contra o Santos. Contou que tinha camisa do Gama de 98 guardada no armário, enfiada num saco plástico porque a mulher queria doar.
Aí ele olhou pelo retrovisor e soltou: "Mas pra que eu vou levar meu neto pro estádio, seu Valdir? Pra ele ver arquibancada vazia e sonhar com o quê?".
Essa frase eu não respondi, minha gente. Ainda tô pensando.
O que mata o futebol candango
Não é uma causa só. É um coquetel. Televisão que não transmite, clube sem CNPJ saudável, estádio caro de alugar, Mané Garrincha desenhado pra Copa do Mundo e não pra Candangão. Patrocínio local que sumiu porque o varejo de Taguatinga entrou em crise. Molecada que joga videogame de futebol europeu e não sabe o nome de ponta-direita do Ceilândia. Administrador regional que não coloca placa de categoria de base no orçamento porque não rende voto.
E tem o item mais pesado, minha gente: um torcedor que cansou. Que foi ao estádio e achou o banheiro imundo. Que levou o filho e teve que explicar por que tinha mais policial que torcedor. Que viu o time preferido perder pro sub-20 do Palmeiras por 6 a 0 em amistoso vexatório e desligou a televisão.
O que ainda dá pra salvar
Dá. Mas não vai ser salvador de arranha-céu com maleta de dinheiro. Vai ser trabalho de formiga. Calendário unificado. Estádio barato pro clube mandar jogo. Escola de base nascendo dentro da Administração Regional. Rádio comunitária bancada pelo GDF como política pública de esporte.
E o principal, minha gente: um pedido público de desculpa dos próprios clubes ao torcedor que eles abandonaram quando dirigente botou Mercedes na conta do Candangão.
Enquanto isso não vem, eu vou continuar indo. Porque cronista velho é assim: quando o caixão já está sendo pregado, a gente ainda acha que dá tempo de abrir a tampa e pedir pro defunto respirar.
Sábado que vem tem Brasiliense e Sobradinho. Nove horas da manhã, estádio Bezerrão. Eu vou estar lá, na cadeira 23 do setor norte, contando fileira por fileira. Se eu chegar a mil pagantes, volto aqui e escrevo outra crônica só comemorando. Um abraço do seu Valdir.
Perguntas Frequentes
- Qual foi a redução de torcedores do Candangão entre 2007 e 2025?
- A média de torcedores por jogo caiu de 18.412 em 2007 para 1.870 em 2025, representando a perda de aproximadamente 70 mil torcedores em dez anos.
- Quantos atletas formados no DF ainda jogam em clubes da cidade?
- De 84 atletas nascidos no DF atuando profissionalmente no Brasil e exterior, apenas 6 jogam em clubes do próprio DF. Os outros 78 estão distribuídos em outros estados ou exterior.
- Quantas rádios ainda transmitem o Candangão?
- Atualmente apenas uma rádio transmite o campeonato, operada por streaming de internet com três voluntários que revezam entre narração e operação de som.
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