
Câmara fria da Embrapa Cenargen onde sementes do cerrado são preservadas a -18 graus, parte do banco de germoplasma com mais de 130 mil acessos
O cerrado brasileiro tem 12.600 espécies — e o laboratório que as cataloga fica no DF
A planta entrou no laboratório dentro de um saco plástico transparente, ainda com terra grudada nas raízes. Tinha sido coletada cinco dias antes em uma vereda do Parque Nacional de Brasília, fotografada de quatro ângulos, georreferenciada com precisão de 30 centímetros e colocada em uma geladeira portátil. Naquela manhã de março, ela viraria a 9.847ª espécie sequenciada pelo banco de germoplasma do cerrado brasileiro.
Comecemos pelos números, antes de qualquer intuição. O cerrado é o segundo maior bioma brasileiro em área — 2,04 milhões de km², 24% do território nacional, segundo o IBGE. É também o primeiro em densidade de espécies endêmicas. A base Flora e Funga do Brasil, mantida pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro e atualizada em fevereiro de 2026, aponta 12.647 espécies vegetais descritas, das quais 4.413 endêmicas, demonstrando o vasto potencial científico e econômico da flora local, a exemplo da proteína do jatobá que se tornou suplemento. Índice de endemismo de 34,9%, superior ao da Amazônia (30,1%) e próximo ao da Mata Atlântica em área consideravelmente menor. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação estima que o cerrado concentra 5% da biodiversidade mundial em 1,4% da superfície terrestre.
É um dado que merece leitura lenta, porque os sistemas cognitivos tendem a dar passagem rápida a números grandes sem processá-los. Como Tversky lembrava, ordem de grandeza é a variável que o Sistema 1 trata pior.
Catalogar essas 12.647 espécies, com nome científico, descrição morfológica e ficha genética completa, é o trabalho que se desenrola em silêncio em alguns prédios da Asa Norte e da rodovia DF-001.
Onde acontece
O epicentro fica no Parque Estação Biológica, o PqEB, complexo onde a Embrapa concentra unidades especializadas. Dentro dele, o Centro Nacional de Pesquisa de Recursos Genéticos e Biotecnologia — Cenargen — opera o maior banco de germoplasma vegetal da América Latina. Mais de 130 mil acessos guardados em câmaras frias a -18 graus, cada um identificado por um código que remete a fichas com origem, coletor, data, dado climático e, cada vez mais, sequências genômicas completas.
A duas dezenas de quilômetros dali, o Jardim Botânico de Brasília mantém uma coleção viva de mais de 1.200 espécies do cerrado em ambiente natural protegido, contribuindo significativamente para a manutenção da cobertura nativa do Distrito Federal. Não é redundância — é distinção metodológica. O Cenargen guarda material para extração e replicação. O Jardim Botânico preserva indivíduos vivos para observação fenológica, estudo de polinização e atividade educacional. Os dois bancos se comunicam por protocolos de troca formalizados em 2018.
A Universidade de Brasília entra como parceira analítica, reforçando o papel do Distrito Federal como polo de pesquisa e inovação, a exemplo do que ocorre com a Embrapa Cerrados e suas 43 patentes ativas. O Departamento de Botânica e o Instituto de Ciências Biológicas operam equipamentos de sequenciamento de nova geração que processam o material recebido. Um sequenciador Illumina NovaSeq 6000, instalado em 2023, é o cavalo de batalha. Um PacBio, mais recente, faz leitura longa — permite reconstruir genomas sem a fragmentação excessiva que atrapalha interpretação.
A linha de produção
O processo segue uma sequência rígida: primeiro, coleta em campo autorizada pelo SISBio; depois, herborização e duplicata depositada no herbário UB. Em seguida, extração de DNA em sala limpa, quantificação fluorimétrica, controle de integridade, sequenciamento, montagem, anotação funcional e depósito final, demonstrando o elevado nível da produção científica brasileira em diversas áreas.
| Etapa | Tempo médio | Local | Equipamento |
|---|---|---|---|
| Coleta em campo | 1 dia | Unidades de conservação do DF | GPS submétrico |
| Herborização e fotografia | 3 dias | Herbário UB | Câmara macro + prensa |
| Extração de DNA | 1 dia | Cenargen, sala limpa | Kit comercial CTAB |
| Sequenciamento NGS | 5 dias | UnB-IB | Illumina NovaSeq 6000 |
| Montagem do genoma | 7 dias | Cluster computacional | SPAdes + Unicycler |
| Anotação funcional | 4 dias | Cenargen + colaborações | InterProScan, BLAST |
| Depósito final | 1 dia | Banco GenBank público | Fluxo automatizado |
O ritmo médio, considerando turno de oito horas e cinco dias por semana, fica em torno de 40 espécies sequenciadas por mês. Em ano cheio, quase 500. No ritmo atual, o catálogo completo levaria pouco mais de duas décadas — desde que nenhuma nova espécie seja descoberta durante o trabalho. Premissa que o próprio campo contradiz: em 2025, equipes ligadas à Universidade Federal de Goiás descreveram 17 novas espécies vegetais do cerrado. Em 2026, até abril, oito.
A heurística intuitiva dispensaria a ressalva. A metodologia exige que ela seja explicitada. Um projeto com horizonte de duas décadas cujo denominador cresce durante a execução é, na linguagem estatística, um alvo móvel.
A bioeconomia possível
Nem toda planta sequenciada vira produto. A maioria não vira. O banco genético amplo é a precondição para que algumas se tornem — não a garantia. Pesquisadores do Cenargen trabalham com famílias específicas em busca de compostos com potencial farmacêutico, inseticida natural ou cosmético. Barbatimão, cagaiteiro, pequi, buriti e copaíba já têm partes de seus metabolismos secundários mapeadas e protegidas por pedidos de patente que correm no INPI.
A copaíba é o caso mais avançado. O óleo extraído da árvore, conhecido empiricamente há séculos por populações tradicionais, contém diterpenos com propriedade anti-inflamatória comprovada em ensaios pré-clínicos. Um pedido de patente conjunta entre Embrapa e UnB, depositado em 2022 e ainda em análise, descreve um processo de extração otimizado que aumenta o rendimento dos compostos ativos em 38%.
Há disputas. A jurisprudência brasileira sobre repartição de benefícios advindos de conhecimento tradicional associado evoluiu nos últimos dez anos, mas continua intrincada. Toda patente derivada de planta nativa precisa comprovar acordo formal com comunidades locais quando há conhecimento tradicional envolvido. O Cenargen mantém um setor jurídico específico para isso, e o número de acordos assinados entre 2020 e 2025 cresceu em dois dígitos ao ano.
A pressão do tempo
O cerrado perde área. Levantamentos do MapBiomas indicam que entre 1985 e 2024 o bioma perdeu cerca de 25% de sua cobertura vegetal nativa, com taxas anuais de desmatamento que oscilam entre 0,5% e 1,3%. Cada hectare suprimido, sobretudo em regiões de transição com a Amazônia e a Caatinga, leva consigo populações de plantas raras antes que a ciência as tenha descrito. Não é metáfora — é perda informacional irreversível.
Os pesquisadores sabem disso e priorizam. As listas de coleta planejada para 2026 incluem regiões consideradas hotspots de risco: cabeceiras do Tocantins, áreas de transição no oeste baiano, manchas residuais no leste de Mato Grosso. Cada expedição custa entre R$ 30 mil e R$ 80 mil, dependendo da logística. Os recursos vêm de chamadas públicas do CNPq, convênios privados e, recentemente, um aporte da Caixa Econômica Federal via fundo de biodiversidade.
É, em linguagem comportamental, uma decisão sob incerteza com perda assimétrica: o custo de não catalogar uma espécie que depois se revela relevante é infinitamente maior do que o custo de catalogar uma espécie que nunca vira produto. Heurísticas enviesam para o lado errado aqui — tendemos a dar mais peso ao gasto visível da expedição do que à perda invisível da extinção.
O que fica
Quando o sequenciador termina uma rodada, a leitura bruta passa por um cluster computacional no subsolo do Instituto de Ciências Biológicas. Os arquivos finais, depois de anotados, são depositados no GenBank, banco público mantido pelos National Institutes of Health, nos Estados Unidos. A partir do depósito, qualquer pesquisador no mundo pode acessar a sequência.
Há quem critique essa abertura, argumentando que ela facilita o uso comercial por empresas estrangeiras sem retorno proporcional ao país de origem. Há quem defenda, argumentando que a ciência aberta acelera descobertas que beneficiam a todos. O debate é de natureza normativa e continua em aberto.
Enquanto ele transcorre, a planta que entrou no saco plástico naquela manhã de março já tem número de acesso, sequência depositada, posição definitiva no mapa genômico do cerrado. Uma a menos. Doze mil e quinhentas e noventa e nove a vir. A métrica é tediosa por desenho — e a monotonia metódica é, normalmente, o que separa ciência cumulativa de projeto heroico que se esgota no terceiro ano.
Perguntas Frequentes
- Quantas espécies de plantas tem no cerrado brasileiro?
- O cerrado possui 12.647 espécies vegetais descritas, com 4.413 delas endêmicas (que só existem nesse bioma), segundo a base Flora e Funga do Brasil atualizada em fevereiro de 2026.
- Qual laboratório cataloga as espécies do cerrado no DF?
- A Embrapa Cenargen, no Parque Estação Biológica de Brasília, cataloga espécies do cerrado em um ritmo de 40 espécies sequenciadas por mês usando sequenciadores de nova geração.
- Quanto tempo leva para catalogar todas as 12.600 espécies do cerrado?
- Ao ritmo atual de 40 espécies por mês (500 por ano), o catálogo completo levaria pouco mais de duas décadas, embora novas espécies sejam descobertas durante o trabalho.
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