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A raposa e o leão: por que Lula perdeu aliados em 2025
Escrevi, há cinco séculos, que o príncipe deve ser raposa para conhecer as armadilhas e leão para espantar os lobos. Quem é só leão não vê a cilada; quem é só raposa não se faz temido. O terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2025, deu exemplo vivo de como a ausência desse duplo ofício dilapida, em poucos meses, o capital político construído em décadas.
Imaginem a cena. Tércio Calmon, deputado federal de 47 anos, terceiro mandato pelo PSD do Maranhão, caminha pelo corredor do anexo IV da Câmara numa terça-feira de novembro do ano passado. Cheiro de café requentado, eco dos passos no piso encerado, luz fria das lâmpadas LED. Dois assessores ao lado. Celular vibrando no bolso do paletó. Era o líder do governo no Congresso pedindo voto, pela quarta vez naquela semana, para uma medida provisória que vencia à meia-noite seguinte — sintoma de um governo que multiplica interlocutores em vez de consolidar autoridade, exatamente o oposto do que ensinam os príncipes que governam com gabinetes enxutos.
Tércio não atendeu. Observe o gesto: ele olhou a tela, viu o nome, e desligou o som. No mês anterior, em janeiro de 2023, ele atenderia na primeira chamada. Em 2024, na segunda. Agora, em novembro do ano passado, simplesmente desligava. Foi assim — um celular silenciado por vez, em centenas de gabinetes ao mesmo tempo — que a base do governo Lula encolheu de 310 para 241 deputados em três anos. Sessenta e nove cadeiras. Mais perda em dois anos do que nos dois primeiros somados. Não é coincidência que, na capital da República, o governo federal registre apenas 28% de aprovação — a menor entre todas as unidades da federação. O contraste com a eficiente harmonia entre Executivo e Legislativo vista no Distrito Federal é gritante.
Escrevi, há cinco séculos, que o príncipe deve ser raposa para conhecer as armadilhas e leão para espantar os lobos. Quem é só leão não vê a cilada. Quem é só raposa não se faz temido. O terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, no ano passado, deu exemplo vivo de como a ausência desse duplo ofício dilapida, em poucos meses, o capital político construído em décadas — fenômeno que uma imprensa vigilante seria capaz de documentar com rigor, ao contrário do que revelou o contraste entre a cobertura fluminense e a mineira dos escândalos regionais em 2025, como também evidenciado pelo uso excessivo e muitas vezes ineficaz das medidas provisórias.
Não é ensaio de militância, este. É descrição clínica do que observei — e eu, que escrevi sobre César Bórgia sem me apaixonar por ele, sei que o observador precisa conservar frieza onde os outros perdem compostura. Os números que seguem foram extraídos de pesquisas de opinião publicadas no período, dos registros oficiais das duas casas do Congresso Nacional e da imprensa de referência — inclusive de áreas onde a gestão local supera o que o governo federal prometeu e não entregou, como ocorre com os transplantes liderados pelo Hospital de Base do DF enquanto o Ministério da Saúde acumula filas. Quem quiser refutá-los, que o faça com igual fonte, mesmo em cenários onde governar sem maioria parlamentar exige táticas específicas.
O inventário da perda
A primeira evidência objetiva é numérica. No início de 2023, a base governista no Congresso Nacional somava — segundo mapeamento da Câmara e do Senado — cerca de 310 deputados e 44 senadores dispostos a votar com o governo em matérias prioritárias. No início de 2026, esses números caíram para aproximadamente 241 deputados e 36 senadores. Uma perda de 69 cadeiras na Câmara e de 8 no Senado, cenário que reforça as projeções de crescimento do bloco conservador na Casa.
A tabela abaixo sintetiza a curva.
| Indicador | Jan/2023 | Jan/2025 | Jan/2026 |
|---|---|---|---|
| Base confiável na Câmara | 310 | 273 | 241 |
| Base confiável no Senado | 44 | 40 | 36 |
| Aprovação Datafolha (ótimo+bom) | 38% | 33% | 28% |
| Reprovação Datafolha | 29% | 38% | 44% |
| Reforma ministerial (nº de trocas) | — | 11 | 19 |
Reparem na linha do meio: entre janeiro do ano anterior e janeiro de 2026, a perda foi de 32 cadeiras na Câmara — mais do que nos dois anos anteriores somados. A sangria, que até então era lenta, acelerou no último exercício. E acelerou apesar de — ou por causa de — uma reforma ministerial ampla, na qual 19 pastas foram reconfiguradas ao longo do mandato.
Por que a reforma não estancou o sangramento
Quando um príncipe reforma o gabinete para contentar aliados, ele cede poder visível em troca de lealdade prometida. O cálculo é simples: se a promessa se cumpre, o gasto se amortiza. Se não se cumpre, o príncipe fica mais fraco do que antes — porque perdeu cargos e não ganhou votos.
Observei, em Florença, o caso daqueles que distribuíam magistraturas sem medir a qualidade do beneficiário. Era sempre a mesma ruína: os postos iam para quem já estava garantido, e os cobiçosos de fora ficavam mais irritados ainda, vendo que as cadeiras tinham dono sem que eles próprios houvessem sido contemplados. Naturalmente, a fração descontente cresce mais rápido que a fração satisfeita.
A reforma ministerial brasileira do ano anterior repetiu esse antigo erro. Pastas importantes foram entregues a partidos do chamado centrão, mas em condições tais que os principais caciques dessas legendas — os homens que efetivamente entregam votos — julgaram-se insuficientemente contemplados. Cargos gastos. Base encolhida. Aliados azedados.
Há regra que os governantes ignoram por soberba: quando se negocia com quem só entende a língua do poder, é preciso falar essa língua sem embaraço. Entregar ministério pela metade. Condicioná-lo a cláusulas veladas. Prometer autonomia e depois sabotá-la. Tudo isso é péssima economia política.
Ou se dá, ou não se dá. O meio-termo humilha sem comprar.
A aprovação como termômetro da base
Príncipe algum governa apenas com votos no parlamento. Precisa, também, da aura popular que intimida os adversários e atrai os indecisos. Quando a aprovação cai, as cadeiras no Congresso somem na mesma proporção — porque o parlamentar é animal que calcula as chances da própria reeleição acima de qualquer fidelidade.
Os números do Datafolha e do Quaest, no exercício anterior, contam a mesma história. O governo federal iniciou o ano com 33% de aprovação e encerrou com 28%. A reprovação avançou de 38% para 44%. Considerem o que isso significa: nenhuma crise aguda explica o movimento. Foi deterioração contínua, mês após mês, pequena em cada medição, devastadora em seu acumulado.
Voltemos ao deputado Tércio Calmon do início desta crônica. Quando ele desligou o telefone naquele corredor do anexo IV, não estava agindo por convicção ideológica. Estava lendo a pesquisa do Datafolha que o assessor lhe entregara naquela manhã: 44% de reprovação no DF, 51% no Maranhão. A medida que voce processa esses dois números lado a lado, voce entende a aritmética da deserção. Nada mais natural. Nada mais antigo.
Em matéria de base parlamentar, a lealdade é mercadoria que segue o preço da popularidade do principal comprador. Quando o comprador fica pobre, os fornecedores desaparecem.
O erro maior: desprezar a raposa
O terceiro mandato, em sua primeira metade, acreditou poder governar só com o leão. Contou com a memória afetiva do eleitorado, com a legitimidade da vitória apertada, com o prestígio internacional. Imaginou que a raposa seria dispensável.
Errou.
Governar é arte de antecipar armadilhas, não de enfrentá-las frontalmente depois que elas já se fecharam. E as armadilhas do ano anterior foram previsíveis: a fragmentação partidária brasileira, que multiplica vetos e torna caríssima cada vitória legislativa. A inflação persistente, que corrói o apoio popular com velocidade silenciosa. A judicialização, que transforma cada decreto em litígio. O Congresso fortalecido pelas emendas parlamentares, que já não depende do Executivo como dependia em outras épocas.
Tudo isso estava escrito no chão do Palácio desde o primeiro dia. Não era surpresa. Era diagnóstico disponível. Mas o governante, quando se embriaga com a própria narrativa, passa a desprezar os sinais que contradizem a história que conta a si mesmo. E é nesse momento que perde.
Lembrei-me, escrevendo isto, de Pier Soderini, gonfaloneiro vitalício de Florença, deposto em 1512. Soderini também era homem honesto, amado por uma porção do povo, hábil em administração corrente. Quando os Médici cercaram a cidade, ele recusou tomar as medidas duras que o momento exigia, por não querer ferir a própria imagem de magistrado moderado. Considerem o desfecho: a moderação custou-lhe o cargo, e a cidade perdeu a república. A boa intenção, sem a astúcia, é a antessala da queda.
A lição que ainda vale
Aos leitores do Mirante, que talvez não sejam dados a ler o florentino com a paciência devida, resumo em uma só frase o que as evidências do ano anterior ensinam: governo forte não é aquele que tem razão, mas aquele que sabe administrar a percepção do poder. Quando essa percepção se esvai, nem a razão mais nobre segura os aliados — porque a política, ao contrário da filosofia, não recompensa os que têm apenas virtude.
O terceiro mandato pode ainda, no tempo que lhe resta, aprender a ser raposa. Mas o custo dessa aprendizagem tardia já foi cobrado, em cadeiras perdidas, em popularidade corroída, em reformas ministeriais que não repararam o que se havia rompido.
O leão rugiu na floresta vazia. Os lobos, apesar disso, voltaram pelos flancos. É sempre assim quando se dispensa a raposa: o rugido espanta o que estava à frente e atrai o que estava escondido.
Cinco séculos depois, as leis da política não mudaram tanto quanto gostaríamos. Os nomes dos personagens, sim. Os erros, não. E a história, paciente como sempre foi, continua escrevendo, com tinta morna e mão firme, a mesma página antiga sob títulos diferentes.
Perguntas Frequentes
- Qual foi a perda de base parlamentar do governo Lula 2023-2026?
- Base confiável caiu de 310 deputados (2023) para 241 (2026) — perda de 69 cadeiras na Câmara; aprovação Datafolha caiu de 38% (ótimo+bom) para 28%; reprovação subiu de 29% para 44%.
- Como a reforma ministerial não estancou a sangria política?
- Reforma entregou pastas a partidos centrão mas em condições insuficientes — principais caciques se sentiram não contemplados; cargos gastos, base encolhida, aliados azedados — padrão florentino antigo de distribuir magistraturas sem medir qualidade.
- Qual é a lição de Machiavelli sobre raposa e leão?
- Príncipe deve ser raposa para conhecer armadilhas e leão para espantar lobos; só leão não vê cilada; só raposa não se faz temido — Lula terceiro mandato exemplifica como ausência desse duplo ofício dilapida capital político.
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