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Do senador que, de repente, descobriu a periferia
Há poucos dias li, num periódico da manhã, a notícia de que certo senador da República havia, enfim, descoberto a existência de Ceilândia. Confesso a minha surpresa: não pelo descobrimento em si — esses, no Brasil, fazem-se de quatro em quatro anos — mas pela franqueza com que os jornais lhe atribuíram a qualidade de novidade.
Imaginem a cena, leitor amigo. Sexta-feira, 27 de março de 2026, três e meia da tarde, rua de terra do P Sul, em Ceilândia. Um menino de 9 anos chamado Caetano Brízola, descalço, camiseta amarela do Flamengo desbotada, rosto suado de sol e poeira, está sentado na guia da calçada quando uma SUV preta blindada para diante dele. Cheiro de fumaça quente do escapamento. Tilintar metálico do portão de uma escola distante. Vidro escuro descendo, devagar. Observe o gesto do menino: ele não levantou. Apenas estreitou os olhos contra o sol, como quem já viu a mesma cena noutras tardes de março.
Do automóvel desceu Sua Excelência o senador da República. Paletó cinza, gravata grená, três assessores atrás, o fotógrafo na lateral. Andou onze passos para o cesto básico simbólico que os colaboradores haviam preparado, sorriu, distribuiu, tirou foto, voltou para o automóvel. Os vidros subiram. A SUV partiu. Tempo total da operação: oito minutos. Caetano contou. Reparem: oito minutos foram suficientes para o senador descobrir, nas manchetes do dia seguinte, a existência de uma cidade de 432 mil habitantes que ele atravessava de helicóptero há quinze anos, sobrevoando a icônica Ponte JK e outros símbolos da capital, sem nunca pousar.
Há poucos dias li, num periódico da manhã, a notícia desse descobrimento. Confesso a minha surpresa: não pelo descobrimento em si — esses, no Brasil, fazem-se de quatro em quatro anos — mas pela franqueza com que os jornais lhe atribuíram a qualidade de novidade. Como se Ceilândia fosse, antes dos discursos de sua excelência, uma terra incógnita, aguardando apenas a vela da caravela do gabinete.
Dou-lhe, leitor, as credenciais da tal terra incógnita, na forma precisa dos registros oficiais. Ceilândia, criada em 27 de março de 1971, é hoje a maior região administrativa do Distrito Federal, com 432.927 habitantes segundo o Censo de 2022 do IBGE — isto é, mais gente do que em cidades inteiras como Porto Velho ou Florianópolis. Segundo a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios de 2024 da Codeplan, a renda domiciliar per capita da cidade é de R$ 1.184 mensais — exatamente 37% da média do Distrito Federal. E, apesar disso, segundo o Tribunal Regional Eleitoral do DF, Ceilândia responde por 348 mil eleitores, o que faz dela o maior colégio eleitoral do território. Uma terra incógnita que, a cada quatro anos, devolve 14% dos votos válidos da capital da República, um peso eleitoral que a nova política do DF não pode ignorar.
Ora, ora. O leitor amigo há de convir comigo que não há, em toda a história das repúblicas, ofício mais antigo do que o de descobrir, na véspera da urna, um bairro que se atravessava sem ver. Esse ofício, a rigor, não é de hoje. Vem dos romanos, atravessou a monarquia, acompanhou o Império brasileiro de gabinete em gabinete. Instalou-se na República com ares de novidade e chegou a Brasília em transferência confortável, como quem muda apenas o endereço sem mudar o hábito.
O nosso senador não descobriu coisa alguma. Apenas lembrou-se, no tempo certo, de que existia.
De como o detalhe faz a crônica
Dirá o leitor — e tem razão — que estou a ser injusto. Talvez o homem tenha, de fato, entrado pela primeira vez num beco do P Sul e sentido, no peito, uma espécie de remorso tardio. Pode ser. Não nego aos homens públicos o direito à emoção súbita. Nego-lhes apenas a pretensão de que a emoção súbita seja juízo político.
Quem se comove em março e se esquece em junho não descobriu a periferia: descobriu a câmera.
É aí que a crônica — este gênero menor, a que me entreguei sem remorso — ganha, às vezes, utilidade. Pois enquanto a reportagem registra o gesto, e o editorial lhe faz a louvação, o cronista apanha o pormenor. E o pormenor, no episódio em questão, era este: o automóvel de sua excelência entrou na rua de terra com os vidros fechados.
Não o digo por maldade. Digo-o porque assim saiu publicado numa nota a que poucos deram atenção. Os vidros fechados, leitor, são um detalhe cheio de filosofia. Significam que o senhor senador estava disposto a ver, mas não a respirar. Disposto a olhar a paisagem, mas não a entrar nela. Considerem a diferença: ver é gesto óptico. Respirar é compromisso pulmonar. Naturalmente, sua excelência preferia o primeiro.
Da pátria que viaja no porta-malas
Tenho para mim que a política brasileira se divide, a rigor, em duas espécies de homens. Os que trazem a pátria dentro do peito — aqueles poucos — e os que a trazem dentro do porta-malas.
Estes últimos são maioria, e reconhecem-se facilmente. Viajam com ela fechada. Param o carro para abri-la apenas diante das câmeras. Distribuem o conteúdo em doses calculadas. Fazem a volta, fecham o porta-malas de novo e retornam a Brasília queixando-se da poeira.
A pátria, para eles, é uma bagagem. Carrega-se. Abre-se. Apresenta-se. Guarda-se.
Não é, note bem, que lhes falte sinceridade. A sinceridade, em certos ofícios, é como a fé em certas igrejas: exige-se dela apenas que apareça na hora do rito. O senador que desceu do automóvel em Ceilândia terá, possivelmente, sentido algo real — uma pontada, uma dúvida, um arrepio do fundo da consciência. E terá, também com toda sinceridade, esquecido a pontada no mesmo dia, ao sentar-se à mesa do restaurante do Lago Sul onde costumeiramente se almoçam os grandes propósitos.
A sinceridade, nesses casos, é intermitente. Funciona como as lâmpadas antigas: dá um clarão, escurece, dá outro clarão.
Um parêntese que peço ao leitor não pular
Permita-me o leitor uma digressão, dessas que os manuais de boa prosa desaconselham e que eu, por teimosia de velho cronista, nunca soube evitar.
Há, na nova capital, uma categoria de intelectual — creio não ser o único a notá-lo — que escreve longos ensaios sobre a desigualdade, recheados de gráficos e de compaixão, e que atravessa a ponte do Lago Sul rumo ao Plano Piloto sem jamais desviar o olhar para o lado direito da janela.
Esse intelectual e aquele senador de que vos falo são primos em segundo grau. O primeiro descobre a periferia no ensaio. O segundo, no comício. Ambos a perdem de vista assim que termina o prazo.
Fim do parêntese — e volto.
Do ritual que se repete
O que me diverte, e ao mesmo tempo me entristece, é a regularidade astronômica do fenômeno. Há um calendário, leitor, tão preciso quanto o da lua cheia: em março dos anos eleitorais, os gabinetes começam a enviar assessores às regiões administrativas. Em abril, chegam os senadores. Em maio, os deputados federais. Em junho, os distritais. Em julho, os candidatos a todos os cargos inferiores e superiores.
Cada um traz consigo um cesto de promessas, uma equipe de fotografia e a mesma frase, repetida com pequenas variações: precisamos ouvir o povo. E o povo, que de tanto ouvir aprendeu a falar pouco, ouve. Ouve de pé, ouve com paciência, ouve sem interromper — porque sabe que o ritual não admite interrupção.
O orador fala. O povo ouve. A fotografia se faz. O comboio parte.
E o bairro, esse mesmo bairro, volta à escuridão administrativa de onde foi temporariamente resgatado. A medida que voce processa essa coreografia, voce nota o silêncio: nenhuma das partes acredita que o gesto vai durar. As duas fingem por hábito.
Do que fica, e do que não fica
Dirá o otimista que alguma coisa fica sempre. Um asfalto aqui, uma creche acolá, uma promessa cumprida por distração. É verdade. Não sou tão desesperançoso quanto parece. O que me inquieta é outra coisa: é que se habituou o povo a esperar a caravana em vez de exigir a obra. Habituou-se a trocar a política pelo espetáculo da política — transação em que quem paga os impostos leva sempre a pior.
E aqui, leitor amigo, já me estendi mais do que a semana comporta.
Fecho, pois, com a única imagem que me ocorre, e que vi na própria nota do jornal que deu origem a estas mal traçadas linhas: ao sair do bairro, o automóvel de sua excelência deixou, numa poça seca, a marca de um pneu fundo e largo. Os meninos do lugar, segundo o repórter, ficaram um bom tempo a olhá-la, como quem decifra um hieróglifo recém-escavado.
Voltemos a Caetano Brízola, o menino da abertura desta crônica. Quando os assessores foram embora, ele se aproximou da poça e enfiou o dedinho descalço no sulco do pneu. A terra ainda estava morna do peso do veículo. O cheiro era de óleo queimado misturado a barro. Ele riscou na poeira, ao lado da marca, três letras tortas, do jeito que aprendera na escola de tarde: P-A-I. Ninguém lhe perguntou por quê. Considerem esse dedo de criança riscando uma palavra que o senador, vinte e seis anos de mandato, ainda não soube ser.
Talvez os meninos estivessem tentando entender o que significava aquela marca. Ou talvez, quem sabe, estivessem apenas calculando, com a sabedoria precoce dos que crescem rápido, quantos meses faltavam para o próximo automóvel passar por ali. A resposta não me pertence — e o espaço da coluna, tampouco. Mas suspeito, leitor amigo, que aqueles meninos sabem ler hieróglifos com mais competência do que muitos doutores titulados. Eles aprenderam, antes da escola, que toda marca de pneu na poeira tem prazo de validade — e que o verdadeiro pai da República não é o que passa, é o que volta.
Até a próxima semana, se o mundo e o jornal assim permitirem.
Perguntas Frequentes
- Qual é o tamanho real de Ceilândia em população e eleitorado?
- Ceilândia é a maior região administrativa do DF com 432.927 habitantes (Censo 2022 IBGE), renda per capita de R$ 1.184/mês (37% da média DF), e 348 mil eleitores (14% dos votos válidos da capital).
- Qual é o padrão de descoberta política em campanhas?
- Descoberta de bairro periférico na véspera de eleição é ofício antigo que vem dos romanos, atravessou monarquia e Império, instalou-se na República com ares de novidade e chegou a Brasília como hábito sem mudança.
- Qual é a diferença entre ver e respirar conforme Machado?
- Ver é gesto óptico; respirar é compromisso pulmonar — senador disposto a ver a paisagem de vidros fechados (8 minutos) demonstra preferência pela aparência óptica sobre engajamento real com periferia.
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