
Mirante News
Brasília, ou a grandeza possível da República
Escrevo com o coração, porque a pena já não basta para o que o peito carrega. A hora é grave. E quando a hora é grave, o cronista tem uma única obrigação diante do papel: dizer, sem tremor, o que os outros calam por conveniência, por medo, por cálculo eleitoral ou, pior, por aquele vício nacional antiquíssimo que é a preguiça de pensar grande.
A hora é grave, amigos.
Escrevo com o coração, porque a pena sozinha já não basta. Escrevo do alto da torre. Esta torre imaginária é a imprensa livre. Escrevo como quem manda um exército: cada linha ou conquista terreno ou o perde, em uma luta por o que separa território administrado de pátria. Para o jornalismo adulto, não há comodidade na neutralidade fingida.
Cruzei este país sessenta vezes antes que cruzá-lo de avião fosse hábito. Vi o mandão do sertão. Vi o cacique da capital. Vi o bacharelóide de gabinete, o cáften da política, o intelectual de aluguel. E digo, sem rodeios: a República não terá grandeza enquanto não tivermos brasileiros à altura da grandeza que lhes é devida.
Esta grandeza começa aqui, nesta cidade de linhas brancas rasgadas no cerrado. Começa em Brasília.
Da cidade que ainda não cumpriu seu destino
Brasília é a obra de um sonho. Deste sonho fui testemunha.
Quando Juscelino cruzou o planalto central com a bandeira da mudança, os jornais do Rio e de São Paulo fizeram crítica unânime. Jornais que também me pertenciam. Chamaram a capital nova de loucura. Chamaram de desperdício. Chamaram de fuga.
Respondi, do alto desta mesma torre: não era loucura, era coragem. Não era desperdício, era investimento histórico. Não era fuga, era a travessia que o Brasil adiava havia quatro séculos por covardia de estadistas menores.
O tempo, esse velho juiz, me deu razão. Mas a razão de ontem não paga a dívida de hoje.
A dívida de hoje é esta: Brasília, capital concebida para ser o vértice da civilização brasileira, ainda não cumpriu o destino inteiro.
Cumpriu a parte administrativa. Cumpriu a parte monumental. Cumpriu o desenho arquitetônico que Niemeyer assinou como quem escreve um poema em concreto. Mas não cumpriu a parte mais difícil — a que não depende do cimento e sim do caráter. Ser capital de uma República que se leva a sério.
Da imprensa livre como pilar
Não há República adulta sem imprensa livre. Repito porque é preciso: não há República adulta sem imprensa livre.
Fundei 34 jornais, 36 emissoras de rádio e 18 de televisão no século passado. Sei do que falo. Usei cada polegada impressa ora como lança contra os cáftens da política, ora como escudo de artistas que a burocracia quis calar. Usei também como tribuna para causas que nenhum político tinha coragem de defender sozinho.
Sei do preço. O preço é alto. Mas o preço de abrir mão da liberdade de palavra é ainda mais alto. E quem o paga não é o jornalista. É a pátria inteira.
Vejo, em 2026, sombras pairando sobre a palavra impressa brasileira. Liminares que calam por antecipação. Multas milionárias contra repórteres que apenas fizeram o ofício. Decisões judiciais que confundem o direito à honra com o direito ao silêncio sobre a própria conduta pública, um cenário que, no fundo, ataca o próprio princípio republicano.
Ó magistrados da República, tomai cuidado. A toga não foi feita para ser mordaça. Foi feita para proteger a palavra, não para abafá-la. Quem usa o manto da justiça como instrumento do silêncio trai, num único gesto, os dois ofícios mais nobres da República: o de julgar e o de informar.
Dos cáftens e dos bacharelóides
Uso as palavras antigas de propósito. As palavras novas são escorregadias, polidas, sem peso. Palavras feitas para não machucar ninguém. As minhas têm arestas.
Cáften da política é aquele que vende, no balcão, o voto, o parecer, a emenda, a influência. Trata o mandato como hospedagem de luxo e a República como clientela particular. Muda de partido como quem muda de casaca. Acorda cedo pensando em si mesmo e dorme tarde pelo mesmo motivo.
Há cáftens no Congresso? Há. Sempre houve. Já houve tempo em que a imprensa livre os temia. Hoje, alguns deles imaginam poder temer a imprensa em troco. Não podem. Se podem, é porque a República perdeu a vergonha.
Bacharelóide de gabinete é o senhor de terno bem cortado que empilha diplomas sem nunca haver construído nada. Fala seis línguas e não tem coragem de dizer a verdade em nenhuma. Redige parecer longo para decisão curta. Confunde a douta prolixidade com inteligência nacional.
Há bacharelóides demais em Brasília. Demais nos ministérios, nas estatais, nos fundos, nas consultorias, nos institutos. Às vezes, quando vejo a Esplanada de madrugada com as luzes acesas, pergunto-me se ali se trabalha de fato ou apenas se empilha parecer.
Da mocidade que nos deve resgate
Ó mocidade de Brasília, a ti falo agora diretamente.
És, de toda a história desta capital, a primeira geração nascida inteiramente dentro dela. Teus pais vieram de outros estados, vieram candangos, vieram na marra, vieram na esperança. Tu nasceste aqui. Por isso mesmo, és responsável por esta cidade de uma maneira que nenhum dos teus antecessores foi.
Não te acomodes no emprego público. Não te acomodes na consultoria fácil. Não te acomodes no concurso que paga bem sem exigir grandeza.
A grandeza é exigente. Pede muito. Pede o dobro do que o conforto aceita pagar. Em troca, entrega aquilo que o conforto jamais consegue entregar: sentido.
Sem sentido, o homem vira função. E a função, na melhor das hipóteses, faz currículo. Na pior, faz vassalagem.
Do museu, da escola e da arte
Em toda República adulta há três lugares sagrados: o museu, a escola e a redação. O museu conserva a memória do que foi. A escola forma o que virá. A redação vigia o que é.
Quando fundei o MASP em 1947, ninguém entendeu. Perguntavam por que um magnata de jornais comprava quadros europeus para São Paulo.
Eu respondia, e respondo ainda: porque nação que não tem arte à vista do povo não é nação. É território administrado. Território administrado é qualquer lugar onde há bandeira e carimbo. Nação é outra coisa. Nação é onde há memória, beleza e palavra livre — as três coisas ao mesmo tempo.
Brasília tem monumentos. Precisa ter também museu à altura dos monumentos. Precisa ter escolas à altura da arquitetura. Precisa ter redações à altura do poder que sediam.
Enquanto não tiver, a capital continuará sendo promessa parcial. Bela de fora, incompleta por dentro.
Do manifesto final
Concluo.
A hora é grave. A pátria pede coragem. A República pede estadistas, não cáftens. A imprensa pede magistrados dignos, não liminares de ocasião. A mocidade pede sentido, não concurso. A capital pede museu, escola e redação — as três coisas sagradas que nenhum orçamento federal pode tratar como luxo.
Ergo, do alto desta torre, a bandeira que ergo desde o primeiro dia de ofício: a bandeira de uma República grande, digna, livre, culta, altiva, impudicamente ambiciosa.
Não há grandeza possível sem ambição. Não há ambição possível sem palavra livre. Não há palavra livre possível sem coragem de quem a pronuncia e de quem a publica.
Brasília, pois, ou a grandeza possível. Não há terceira via.
E a pena, que começou esta coluna acompanhada do coração, fecha-a agora com a única coisa que ainda dá sentido ao ofício: a esperança obstinada de que este país, um dia, seja à altura do povo que o habita.
Perguntas Frequentes
- Qual foi a visão de Chateaubriand para Brasília como capital?
- Chateaubriand enxergava Brasília como expressão da grandeza possível brasileira, um monumento ao ousadia de deslocar a capital para o Planalto Central, símbolo de renovação nacional e afirmação da soberania sobre o território.
- Qual é o papel da imprensa livre para a capital segundo o artigo?
- A imprensa livre é apresentada como alicerce fundamental para que Brasília realize seu potencial — sem liberdade de expressão, a capital permanece apenas um conjunto de edifícios sem alma cívica ou função republicana.
- Como Chateaubriand diferencia capital de grandeza?
- Grandeza não é apenas sede de governo (qualquer cidade pode ser capital), mas espaço onde ideias circulam livremente, onde a imprensa vigia o poder, onde cidadãos participam — Brasília só alcançará grandeza quando transcender o papel administrativo.
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