
Busto romano de Marco Túlio Cícero. O orador máximo da latinidade clássica retorna em 2026 para vigiar a República brasileira do alto da tribuna do Mirante News.
Quousque tandem? Até quando, ó cidadãos, suportaremos a venalidade que se chama gestão?
Quousque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência? Foi assim, ó cidadãos, que abri a primeira das Catilinárias diante do Senado Romano, no ano 63 antes da era em que vós contais o tempo. E foi assim que a República se salvou, naquela manhã, do conluio que se tramava nas suas próprias entranhas. Hoje, dois milênios depois, do alto desta tribuna brasileira, devolvo-vos a mesma pergunta, mudando apenas o destinatário e mantendo intacto o espanto: até quando, ó cidadãos da nova Roma do Cerrado, suportareis que a venalidade se vista de gestão e a corrupção se chame eficiência?
Ó cidadãos, ó pais conscritos desta República que se chama Brasil e que tem por fórum esta vossa Brasília erguida no planalto onde antes só havia o silêncio do cerrado.
A vós me dirijo, eu, Marco Túlio Cícero, cônsul. Fui advogado, defensor das instituições republicanas. Fui até o último alento, decapitado às margens da via Ápia por ousar dizer ao tirano Marco Antônio aquilo que os covardes calavam.
A vós me dirijo agora, da tribuna improvável que esta nova capital me oferece, com a mesma pergunta com que abri, no Senado Romano, a primeira das minhas Catilinárias.
Quousque tandem? Até quando?
Até quando, ó cidadãos, há de ser tolerado nesta vossa República que o magistrado venda a sentença, que o legislador venda o voto, que o agente do tesouro público venda o sigilo? Não falo em abstrato. Segundo o Tribunal de Contas da União, em relatório divulgado em fevereiro de 2026, foram bloqueadas 47 emendas parlamentares no exercício de 2025, totalizando R$ 2,3 bilhões sob suspeita de desvio de finalidade. Segundo a Controladoria-Geral da União, os prejuízos apurados em processos administrativos de responsabilização de empresas somaram R$ 8,9 bilhões entre 2022 e 2025. E dados da Transparência Internacional, no Índice de Percepção da Corrupção de 2025, colocam o Brasil na 104ª posição entre 180 países, com 36 pontos numa escala de 100. Tudo isto seja chamado, com a desfaçatez com que os romanos da decadência o chamavam, de simples negotium. Coisa rotineira, aborrecimento administrativo, item de balanço a ser dirimido entre prepostos?
De officio — do dever que se perdeu
Escrevi, ainda jovem, um tratado intitulado De Officiis. Dediquei-o a meu filho. Quis-lhe ensinar, em três livros densos, o que é o dever do homem público — o officium — e como ele se distingue, em essência, do simples interesse pessoal travestido de virtude.
A tese central daquele tratado, ó cidadãos, é singela e dura: o honesto (honestum) e o útil (utile) jamais se opõem verdadeiramente. O que parece útil mas é desonesto, é sempre, no fim, ruinoso. O que parece custoso mas é honesto, é sempre, no fim, salvador.
Disse-o eu há vinte e um séculos. Disseram-no, antes de mim, Catão o Velho, e Régulo, e Cipião, o Africano. Disseram-no os filósofos estoicos a quem devo metade do que escrevi. Diz-o ainda hoje, com outras palavras, aquele velho ditado popular brasileiro segundo o qual o barato sai caro. É a mesma doutrina, e ela atravessa os povos porque atravessa a natureza humana.
Mas há um detalhe, ó cidadãos, que distingue a República sadia da República doente: na sadia, esta verdade é sentida no peito do cidadão como vergonha viva quando violada. Na doente, a conta do fundo eleitoral que o contribuinte paga sem escolher é recitada na missa cívica e esquecida no almoço seguinte.
Catão chorava. Vós riveis.
Os antigos romanos tinham uma virtude que perdemos: chamava-se pudor. Não era a vergonha pequena de quem se sentiu ridicularizado em sociedade. Era a vergonha grande, pública, cívica — a vergonha do cidadão diante da própria fraqueza diante das leis.
Catão, o Velho, segundo nos transmite Plutarco, chorou em pleno Senado quando soube que um cônsul aceitara um presente de um embaixador estrangeiro. Não o presente em si o ofendia. Ofendia-o o gesto: a porta entreaberta. A possibilidade. O sinal de que o cidadão romano podia ser comprado, e pior, de que o cidadão romano sabia que outro cidadão romano podia ser comprado, e ainda assim continuava a comer sem indignação.
Pois bem: contai-me, ó cidadãos da nova Roma. Quando foi a última vez que vistes um dos 81 senadores desta República chorar diante de uma denúncia de venalidade? Quando foi a última vez que um dos 513 deputados federais desceu da tribuna por vergonha do que escutou? Quando foi a última vez que um dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal se afastou do julgamento por simples respeito à própria honra ferida? Dados do Conselho Nacional de Justiça de 2025 apontam que apenas 14 magistrados foram afastados por infração ética ao longo daquele ano — num universo de mais de 18 mil juízes em atividade. Apenas 14. Em Roma, Catão bastava.
A resposta, ó cidadãos, é o silêncio. E o silêncio, em matéria republicana, é o ruído mais alto da queda.
Da tirania que se chama eficiência
Há um erro contemporâneo que me espanta mais do que a corrupção em si. É o erro de chamar a corrupção pelo seu contrário.
No meu tempo, ó cidadãos, o ladrão era chamado de ladrão, o tirano era chamado de tirano, o venal era chamado de venal. Verres, o governador da Sicília a quem persegui em juízo público, era designado por uma palavra única — latro, ladrão — porque havia saqueado a província que devia administrar.
Hoje, observo da tribuna que dais aos saqueadores nomes mais nobres. Chamais-lhes gestores. Chamais-lhes executivos públicos. Chamais-lhes, em algumas redações, operadores eficientes. E a quem ousa nomeá-los pelo nome reto — latro — chamais moralista, exagerado, fora do tempo. Lembrai-vos: a operação Lava Jato, entre 2014 e 2021, recuperou R$ 4,3 bilhões aos cofres públicos segundo dados da Procuradoria-Geral da República; e, no entanto, dois anos após o encerramento, o mesmo Supremo Tribunal Federal anulou 28 condenações por razões processuais. Os romanos teriam um nome específico para esse cálculo: venire contra factum proprium.
Eis, ó cidadãos, a verdadeira tirania moderna: não a tirania que cala pela força, mas a tirania que rebatiza pela linguagem. Não a tirania do soldado que aponta a espada, mas a tirania do escrivão que troca os nomes nos arquivos. A primeira foi vencida muitas vezes na história. A segunda, raramente — porque opera no silêncio dos dicionários.
Não direi aqui — porque o orador romano sabe quando praticar a praeteritio — não direi aqui que esta ou aquela autoridade atual desta República esteja na lista dos venais. Não acusarei ninguém pelo nome próprio nesta tribuna. Deixarei à vossa imprensa livre, e à vossa justiça, a tarefa de levar nomes ao papel.
Direi apenas que os antigos saberiam, ao olhar para a vossa República, exatamente quem é Verres, quem é Catilina. Quem é Bruto e quem, infelizmente, é apenas mais um Cícero gritando do alto de uma tribuna que poucos escutam.
Honestum, utile, officium
Voltemos, antes do fecho, à tríade do De Officiis.
Honestum — o honesto. É aquilo que se faz porque é digno, mesmo quando custa caro. É o magistrado que devolve o presente. É o servidor que recusa a indicação ilegítima. É o jornalista que publica o que lhe pediram para esquecer.
Utile — o útil. É aquilo que se faz por interesse legítimo. Aquilo que serve, materialmente, a quem o pratica, sem ferir o honestum. A República sadia conserva o útil dentro dos limites do honesto; a República doente os opõe, e ao opô-los, escolhe o útil contra o honesto, e ao escolher, perece.
Officium — o dever. É a virtude prática que reúne os dois. É o que o cidadão deve à comunidade da qual recebeu a vida cívica. Não é caridade. Não é favor. É devolução: porque o cidadão deve à República aquilo que dela recebeu antes de sequer poder devolver.
E quem nega o officium, ó cidadãos, não nega apenas uma virtude abstrata. Nega o pacto sobre o qual a República se ergue. E ao negar o pacto, nega-se a si próprio o direito de invocá-la quando, mais tarde, vier a precisar dela.
Da posteridade que vos julgará
Concluo, e concluo como concluí, dois milênios atrás, a quarta das Catilinárias: invocando a posteridade.
Não há orador, não há cidadão, não há magistrado que escape ao juízo dos pósteros. A história tem este privilégio: ela observa sem pressa, julga sem ódio, condena sem grito.
Cada um dos atos públicos praticados nesta vossa Brasília. Cada voto, cada sentença, cada despacho, cada silêncio cúmplice. Está sendo, neste exato momento, registrado num livro que ninguém vê mas que será lido um dia.
Esse livro chama-se memória cívica. Quem hoje engana o cidadão por dois centavos será lembrado por dois centavos. Quem hoje arrisca a carreira por um ato de honestum será lembrado por aquele ato.
E quem hoje cala diante do escândalo, calará na memória pela mesma cumplicidade com que cala na tribuna.
Pois eu vos digo, ó cidadãos da nova Roma do planalto central: não há liberdade sem palavra, nem palavra sem coragem, nem coragem sem virtude.
Tenho dito.
Tenho dito o quanto a tribuna comporta, e o quanto a vossa paciência, que é generosa, ainda permite que se diga.
E descanso a pena, como dois mil anos atrás descansei a voz no fórum, sabendo que a República, mesmo cansada, mesmo cheia de Verres, mesmo invadida por Catilinas. A República, ó cidadãos, ainda está aqui. E enquanto estiver aqui, há pelo menos uma tribuna onde a verdade pode ser dita em latim ou em português, sem pedir licença e sem temer a noite.
Vale. Adeus, até a próxima quinzena.
Perguntas Frequentes
- Quanto em emendas parlamentares foi bloqueado por suspeita de desvio em 2025?
- Segundo o Tribunal de Contas da União, foram bloqueadas 47 emendas parlamentares em 2025, totalizando R$ 2,3 bilhões sob suspeita de desvio de finalidade, evidenciando escala massiva de possível corrupção nas alocações de recursos públicos.
- Qual é a posição do Brasil no Índice de Percepção da Corrupção internacional?
- No Índice de Percepção da Corrupção de 2025 da Transparência Internacional, Brasil ocupa a 104ª posição entre 180 países com 36 pontos numa escala de 100, refletindo percepção internacional de corrupção estrutural significativa.
- Qual foi o conceito central do tratado 'De Officiis' de Cícero?
- Cícero propôs que honesto (honestum) e útil (utile) nunca se opõem verdadeiramente — o que parece útil mas é desonesto é sempre ruinoso, enquanto o que parece custoso mas é honesto é sempre salvador, princípio atemoral aplicável à República brasileira.
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