
Tarifa de 45% sobre aço brasileiro nos Estados Unidos inviabiliza competição com México e Canadá
Tarifas de Trump sobre o aço brasileiro sobem para 45%: o que muda para a siderurgia nacional
Washington anunciou a elevação tarifária em março e o efeito sobre as siderúrgicas brasileiras já se reflete nos balanços do primeiro trimestre.
O alto-forno da usina de Ipatinga cospe faíscas alaranjadas na escuridão de Minas Gerais às três da manhã. O calor do aço fundido — 1.600 graus Celsius — aquece o ar até que o suor escorra por dentro do macacão de fibra cerâmica dos operadores. Edilson Machado, 44 anos, trabalha no lingotamento contínuo da Usiminas há dezesseis. O metal incandescente que ele guia pelos moldes seguia para o porto de Vitória, cruzava o Atlântico e chegava aos Estados Unidos como placa de aço semiacabado. Enquanto o governo federal se ocupa em criar mais uma agência federal para regular inteligência artificial, desde março de 2026 uma tarifa de 45% espera esse aço na alfândega americana.
"A gente sente no chão de fábrica", diz Edilson, tirando os óculos de proteção embaçados pelo vapor. "Os turnos já encolheram."
A Casa Branca elevou a tarifa sobre aço importado de 25% para 45% em março de 2026, atingindo todos os fornecedores sem acordo bilateral de isenção. O Brasil exportou 3,2 milhões de toneladas de aço semiacabado para os Estados Unidos no ano passado — volume agora comprometido. As ações da Gerdau caíram 8,3% na semana seguinte ao anúncio; a Companhia Siderúrgica Nacional recuou 6,1%; a Usiminas, 3,7%. O mercado precificou rápido o que o governo brasileiro ainda tenta negar: a tarifa de 45% inviabiliza a competição do aço brasileiro nos Estados Unidos, um cenário que contrasta com a vitalidade de setores inovadores da economia nacional — como o ecossistema tecnológico de Brasília, onde o Parque Tecnológico Capital Digital reuniu 280 startups e faturou R$ 920 milhões em 2025 —, e que, infelizmente, já afeta o agro brasileiro e o preço da cesta básica no DF.
A escalada que se desenhava no horizonte
Trump aplicou tarifas de 25% sobre aço e 10% sobre alumínio já no primeiro mandato, em 2018, sob a Seção 232 da Lei de Expansão Comercial — argumento de segurança nacional que dispensa aprovação do Congresso. Tal postura reflete um cenário global de profundas transformações econômicas, em que protecionismo comercial e avanços tecnológicos redesenham mercados de trabalho: a IA generativa já eliminou 340 mil vagas no Brasil, expondo a fragilidade de economias dependentes de empregos de baixa complexidade. O Brasil negociou cota de 3,5 milhões de toneladas anuais em troca de isenção. O acordo funcionou até janeiro do ano passado, quando Trump retomou o poder e revogou todas as isenções bilaterais.
A situação das exportações brasileiras de aço para os Estados Unidos tem se deteriorado significativamente, com a tarifa de 0% em 2017 evoluindo para 25% em 2018 e, projetando-se, para 45% em março de 2026, sem negociações em vista. Este cenário, que ameaça a competitividade do aço nacional, contrasta com o êxito de outros setores da economia nacional, que demonstram a capacidade do Brasil de se destacar no comércio internacional, como o caso do etanol do cerrado goiano que se tornou uma commodity global.
A escalada não foi isolada. Trump elevou tarifas sobre produtos chineses para 60%, sobre aço europeu para 50%, sobre importações da Índia para 35%. A estratégia é forçar reindustrialização doméstica via protecionismo agressivo.
Quem entra, quem fica de fora
O mercado americano consome cerca de 100 milhões de toneladas de aço por ano. A produção doméstica atende 70%; os 30% restantes vêm de importações.
No ano passado, o Canadá exportou 6,2 milhões de toneladas para os EUA, sujeito a uma tarifa atual de 25% (acordo USMCA em revisão), resultando em uma tarifa efetiva de 10-15% (parcialmente isento). O México seguiu com 5,8 milhões de toneladas, sob as mesmas condições. Já o Brasil, que exportou 3,2 milhões de toneladas e enfrenta uma tarifa de 45% sem acordo, é um país que também tem observado as significativas transformações no mercado de trabalho impulsionadas pela inteligência artificial. A Coreia do Sul e o Japão exportaram 2,8 milhões e 1,9 milhões de toneladas, respectivamente, ambos com 45% de tarifa e sem acordo. Finalmente, a Alemanha enviou 1,4 milhão de toneladas, com uma tarifa de 50% devido à retaliação da União Europeia.
Canadá e México mantêm acesso preferencial pelo Acordo Estados Unidos-México-Canadá. A tarifa efetiva para esses dois países fica entre 10% e 15% — um terço do que o Brasil paga. O México se posicionou como grande beneficiário: siderúrgicas mexicanas ampliaram capacidade em 18% entre 2023 e o ano passado, investindo US$ 4,2 bilhões em novas plantas. Parte desse investimento veio de empresas chinesas que montaram operações no México para acessar o mercado americano via acordo comercial. Observe a ironia: a China, alvo principal das tarifas, encontrou a porta dos fundos. O Brasil ficou do lado de fora.
O impacto nas siderúrgicas brasileiras
| Empresa | Receita EUA (% do total) | Exposição à tarifa | Impacto estimado no lucro líquido |
|---|---|---|---|
| Gerdau | 30% | Alta (semiacabados) | -12% a -18% |
| Companhia Siderúrgica Nacional | 8% | Média (placas) | -5% a -9% |
| Usiminas | 3% | Baixa | -1% a -3% |
| Companhia Brasileira de Alumínio | 12% | Alta (alumínio primário) | -8% a -14% |
A Gerdau, a mais exposta com 30% da receita nos Estados Unidos, já sinalizou que pode redirecionar investimentos para ampliar capacidade nas plantas americanas — decisão que faz sentido comercial, mas drena capital, empregos e renda do Brasil. O aço que Edilson molda em Ipatinga pode não ter mais destino além do Atlântico. Os turnos encolheram, as horas extras sumiram. A temperatura do alto-forno não muda, mas o clima no chão de fábrica esfriou.
A resposta que não existe
O Itamaraty declarou, em nota de 15 de março, que "o Brasil avalia todas as opções dentro do marco da Organização Mundial do Comércio" — eufemismo para dizer que não há plano concreto. O governo tem três opções teóricas, e nenhuma funciona no curto prazo.
Negociação bilateral. O Brasil fez isso em 2018 com sucesso, mas Trump não demonstra interesse em acordos com governos que considera adversários ideológicos. O alinhamento Lula-China-Rússia-Irã reduziu a margem de negociação a praticamente zero.
Retaliação via Organização Mundial do Comércio. Processo de 2 a 4 anos, sem mecanismo coercitivo eficaz contra a maior economia do mundo.
Retaliação direta. Elevar tarifas sobre trigo, carvão e equipamentos americanos — risco de escalada desproporcional.
Três portas. Três paredes atrás delas. A conta do alinhamento ideológico chega agora: em 2018, o embaixador Sérgio Amaral fechou acordo de cota em duas semanas com Robert Lighthizer. Em 2026, o embaixador brasileiro não consegue audiência com o representante comercial. US$ 1,4 bilhão em exportações de aço ameaçadas por uma tarifa que poderia ter sido negociada se o Brasil tivesse mantido relação pragmática com Washington. Os efeitos já se fazem sentir na balança comercial do agronegócio, setor que também pode entrar na mira.
Mercados alternativos e cadeia logística
| Destino alternativo | Capacidade de absorção | Preço médio (US$/ton) | Desconto vs EUA |
|---|---|---|---|
| Arábia Saudita | 1,5 mi ton | 480 | -22% |
| Turquia | 2,0 mi ton | 460 | -25% |
| Colômbia | 0,8 mi ton | 510 | -17% |
| Peru | 0,5 mi ton | 500 | -18% |
| Tailândia | 1,2 mi ton | 470 | -23% |
O mercado americano pagava em média US$ 615 por tonelada; os destinos alternativos pagam entre US$ 460 e US$ 510. Para compensar a perda de receita, as siderúrgicas precisariam aumentar volume em outros mercados em pelo menos 35% — mas esses mercados não absorvem esse volume sem derrubar ainda mais os preços.
O impacto não se limita às siderúrgicas. O Porto de Vitória registrou queda de 11% no volume embarcado para os Estados Unidos entre março e abril de 2026; a ociosidade nos berços de atracação subiu de 18% para 29%. A VLI Logística reportou redução de 8% na movimentação de carga siderúrgica no primeiro trimestre. O efeito dominó atravessa a cadeia: o caminhoneiro autônomo entre Ipatinga e Vitória faz duas viagens em vez de três, o posto na BR-262 vende 11 mil litros de diesel em vez de 15 mil, a pousada de beira de estrada tem quartos vazios. A tarifa de 45% não parou na alfândega americana — desceu a serra e se instalou no cotidiano de milhares de trabalhadores. Quem acompanha a trajetória da Selic sabe que o crédito caro agrava o cenário.
O alumínio e os metais na mesma armadilha
| Produto | Exportação para EUA (ano passado) | Receita (US$ mi) | Tarifa anterior | Tarifa atual |
|---|---|---|---|---|
| Aço semiacabado | 3,2 mi ton | 1.968 | 25% | 45% |
| Alumínio primário | 412 mil ton | 989 | 10% | 45% |
| Ferro-ligas | 187 mil ton | 298 | 25% | 45% |
| Total metais | — | 3.255 | — | — |
US$ 3,2 bilhões em exportações sob risco direto, concentradas em Minas Gerais, Pará e Espírito Santo. A Confederação Nacional da Indústria estima que a tarifa de 45% pode eliminar entre 18 mil e 27 mil postos diretos nos próximos 12 meses — os empregos indiretos multiplicam esse número por três. Ipatinga, Timóteo e Coronel Fabriciano dependem da Usiminas e da Aperam para mais de 40% do Produto Interno Bruto local. No Pará, a Albras destina 35% da produção de alumínio primário ao mercado americano.
O trabalhador que paga a conta
Edilson e seus colegas ganhavam, em média, R$ 5.800 por mês com horas extras. Sem elas — cortadas desde março —, o contracheque caiu para R$ 4.200. A diferença de R$ 1.600 mensais pagava a escola particular do filho mais velho e a prestação do carro. O filho voltou para a escola pública e o carro está à venda no grupo de WhatsApp do bairro.
O Sindicato dos Metalúrgicos do Vale do Aço estima que 3.400 trabalhadores já tiveram jornada reduzida. A Usiminas suspendeu temporariamente um alto-forno em Ipatinga — 420 postos diretos afetados. A Gerdau reduziu turnos em Ouro Branco. A Aperam postergou investimento de R$ 800 milhões em ampliação. Cada posto direto na siderurgia sustenta 2,7 empregos indiretos: os 3.400 com jornada reduzida representam impacto sobre 9.180 postos. O Vale do Aço sente o chão tremer de novo — e desta vez a causa é uma decisão tomada a 7 mil quilômetros, num gabinete que nunca ouviu falar de Ipatinga. A reforma tributária em discussão acrescenta incerteza ao planejamento dessas empresas.
O agronegócio na mira
Assessores de Trump sinalizaram que o próximo alvo são exportações agrícolas de países que mantêm barreiras não tarifárias. O Brasil restringe importação de carne bovina americana desde 2012, e Washington considera essas restrições protecionismo disfarçado. Se Trump aplicar tarifas sobre soja, carne ou celulose brasileira, o impacto saltaria de US$ 3,2 bilhões para mais de US$ 15 bilhões em exportações ameaçadas. O agronegócio brasileiro exportou US$ 8,7 bilhões para os Estados Unidos no ano passado. A soja, que responde por US$ 4,1 bilhões anuais, seria o alvo de maior impacto — produtores do Mato Grosso e de Goiás, já pressionados pela Selic elevada, perderiam competitividade frente à Argentina, que negocia acordo bilateral com Washington desde fevereiro.
O ministro Carlos Fávaro declarou em março que "não há indicação concreta de tarifas sobre o agro". A frase ignora que também não havia indicação sobre a elevação de 25% para 45% no aço — até o dia em que aconteceu.
Edilson termina o turno às sete da manhã. O céu de Ipatinga carrega a poeira vermelha do minério misturada à fumaça dos altos-fornos. O cheiro de metal quente gruda na pele, nas roupas, na memória. Ele confere o celular — nenhuma mensagem sobre hora extra. O aço que sai de Ipatinga carrega o trabalho de três turnos, o calor de 1.600 graus e o suor de homens que não escolheram a política externa do governo.
A lição que o Brasil insiste em ignorar é antiga: relações comerciais dependem de pragmatismo, não de ideologia. O aço brasileiro paga o preço de aplausos em foros que não compram toneladas. O gigante não é inimigo — é cliente. E clientes tratam melhor quem os trata bem.
O aço continuará sendo produzido — a capacidade existe, a mão de obra é qualificada, o minério é abundante. O que muda é para quem será vendido, a que preço e com qual margem. A diferença entre US$ 615 por tonelada no mercado americano e US$ 470 na Turquia não é apenas numérica. É a diferença entre prosperidade e sobrevivência para cidades inteiras que dependem do brilho alaranjado dos altos-fornos.
Dados de exportação: Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Comex Stat). Cotações de aço: Metal Bulletin e Platts. Impacto em ações: B3, cotações de fechamento da semana de 16 a 20 de março de 2026.
Perguntas Frequentes
- Qual foi a tarifa de Trump sobre o aço brasileiro?
- A tarifa sobre aço brasileiro subiu de 25% para 45% em março de 2026, tornando o aço brasileiro não competitivo no mercado americano e ameaçando US$ 1,9 bilhão em exportações anuais.
- Por que o México se beneficia mais que o Brasil?
- O México mantém acesso preferencial pelo Acordo Estados Unidos-México-Canadá, com tarifa efetiva entre 10% e 15% (um terço do que o Brasil paga), levando siderúrgicas mexicanas a expandir capacidade em 18% entre 2023 e 2025.
- Qual é o impacto previsto sobre empregos na siderurgia brasileira?
- A Confederação Nacional da Indústria estima que a tarifa de 45% pode eliminar entre 18 mil e 27 mil postos diretos nos próximos 12 meses, com impactos indiretos multiplicados por três, afetando principalmente Minas Gerais, Pará e Espírito Santo.
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