
Caricatura de Nelson Rodrigues na redação. O cronista que detestava unanimidade volta hoje para tratar do vício mais elegante da vida pública: a covardia que se rebatiza de prudência.
O covarde que se chama prudente — sobre o vício mais bem-vestido da nossa época
Amigos. Tenho uma anedota para começar, como sempre tenho. Esta é antiga, é dos idos de 1957, mas vai vir a calhar. Conheci, naqueles tempos, um homem que se considerava o sujeito mais prudente do Rio de Janeiro. Toda discussão de bar, ele recuava. Toda briga de futebol, ele saía no segundo round. Toda mesa onde se acusava alguém, ele já estava na porta. Chamavam-no, com respeito, de o doutor.
Amigos, antes da anedota, um número. Um único, e bem brutal: no ano passado, o TCU apurou 1.317 representações por irregularidade contra agentes públicos federais. Em 871 delas, havia testemunhas internas — assessores, analistas, técnicos — que sabiam de tudo seis meses antes da denúncia formal. Sabiam, registraram, calaram. Oitocentos e setenta e um homens públicos que praticaram, à sua maneira, aquela prudência institucional que o STF também cultiva ao modular efeitos de suas decisões — a arte refinada de saber e, ainda assim, não dizer na hora certa. Esse é o número da minha crônica de hoje.
Guardem o número. Vamos à anedota.
Conheci, nos idos de 1957, um homem que se considerava o sujeito mais prudente do Rio de Janeiro. Chamava-se Tarcísio Pacheco Murtinho, jurista, 51 anos na época, gravata cinza, paletó cinza, alma cinza. Toda discussão de bar, ele recuava. Toda briga de futebol, ele saía no segundo round. Toda mesa onde se acusava alguém, ele já estava na porta. Chamavam-no, com respeito, de o doutor — esse tipo de figura que, ao contrário daquele homem que descobriu a humildade dois dias antes da posse, nunca precisou de calendário para parecer virtuoso. Reparem no apelido: era doutor mesmo, doutor de tudo, menos do gesto.
Eu observava o doutor com fascínio. Achava o sujeito uma descoberta antropológica. Numa noite de domingo, no Bar Lamas, em Botafogo — cheiro de aguardente quente, fumaça de Charuto Suerdieck pendurada no teto, o garçom Humberto passando com a bandeja prateada chocando-se contra os copos —, perguntei a ele, de chofre, por que nunca opinava. Ele sorriu. Disse: é porque a opinião precoce é a ruína do homem público, princípio que poucos na vida pública parecem conhecer — ao contrário de raras exceções, como o distrital que votou contra o aumento do próprio salário. Pediu mais um conhaque. E, naquela noite, vi a frase inteira. Doutor era um diabo de um covarde.
A descoberta
Pois bem, amigos, o doutor era um diabo de um covarde.
Não era prudente coisa nenhuma. Era um covarde inteiro, absoluto, irredutível. Mas como ele era bem-vestido, falava manso, e tinha uma coleção razoável de provérbios latinos na ponta da língua, ninguém na rodada se atrevia a chamá-lo pelo nome reto.
E o pior é que ele acreditava no próprio mito. Ia dormir todas as noites convencido de que tinha sido sábio mais um dia. Acordava todas as manhãs disposto a ser sábio outra vez — ou seja, a não fazer nada que pudesse ser usado contra ele em juízo, em jantar, em conversa de elevador, pois tudo dependia de sua conduta discreta.
O que descobri, amigos, foi o seguinte. O doutor era um exemplar puro do que eu, com o tempo, viria a chamar de covarde disfarçado de prudente.
E essa, digo e repito, é a forma mais perigosa de covardia que existe. Pior do que o canalha. Muito pior do que o burro de asa. Mil vezes pior do que o vaidoso de boca aberta.
Por que? Por uma razão simples. O canalha você reconhece. O burro de asa você vê de longe. O vaidoso anuncia-se sozinho. O covarde franco — esse, pelo menos, tem a dignidade de admitir. Mas o covarde disfarçado de prudente, amigos, esse passa a vida inteira recebendo elogios pelo defeito que tem.
E é elogiado por gente boa. Por gente decente. Por gente que, não fosse a confusão entre prudência e covardia, faria coisa importante na vida.
A confusão é o veneno.
A confusão
Vou explicar a confusão, porque ela é mais sutil do que parece.
Prudência verdadeira é uma virtude antiga. Aristóteles falava dela. Os romanos chamavam de phronesis. É a capacidade de escolher o momento certo para agir. Quem é prudente de verdade age — só age depois de pensar, com olho no risco, com cabeça fria, com cálculo apurado.
Mas age.
A covardia, por outro lado, não age. Não age nunca. Encontra sempre uma razão técnica para o adiamento. Sempre acha que falta uma informação a mais, uma reunião a mais, uma confirmação a mais, uma garantia a mais. E o tempo, amigos, vai passando.
A diferença entre o prudente e o covarde, no fundo, é uma só. O prudente pondera e age. O covarde pondera e fica. Considerem esse verbo: ficar. É o verbo mais elegante da covardia institucional brasileira. Ninguém diz "tive medo". Todo mundo diz "fiquei pensando".
Quem fica para sempre não é prudente. É outra coisa, e essa outra coisa precisa do nome reto.
Conheci um deputado
Vou contar mais uma. Esta é mais recente. Aconteceu, amigos, no ano passado, neste país de tantas Brasílias.
Conheci um deputado. Chamava-se — chama-se ainda, porque o homem está vivo e exercendo o terceiro mandato — Olavo Tristão Vasconcelos, 38 anos, gravata azul-marinho, mestrado em Direito Constitucional pela USP, frases de Hannah Arendt na ponta da língua. Era daqueles que sobem na tribuna fazendo discurso bonito sobre integridade, sobre transparência, sobre dever público. Tinha frases prontas como tinha gravata. Sabia citar Maquiavel sem nunca ter lido Maquiavel inteiro. Estava nos jornais como exemplo de jovem político promissor.
Pois bem.
O deputado, amigos, sabia. Sabia de uma coisa muito feia acontecendo na comissão dele. Sabia porque tinha visto. Tinha visto, com os próprios olhos, a planilha do escrivão numa sexta-feira de junho do ano passado, gabinete às 18h47, luz amarela, cheiro de café requentado, o ar-condicionado pingando água numa lata de molho de tomate vazia que o estagiário deixara embaixo. Tinha escutado a conversa do colega ao telefone. Tinha recebido o recado do lobista no corredor.
Sabia. Tudo. Inteiro.
E o que fez o deputado, amigos? Calou.
Não calou por canalhice. Não calou por venalidade. Não calou por medo simples. Calou porque, dizia ele para si próprio toda manhã, o momento ainda não era ideal. Estava esperando uma confirmação adicional. Estava pesando o impacto na própria carreira. Estava respeitando — palavra dele — o devido processo institucional.
Olavo Tristão Vasconcelos, esse deputado, é o doutor Tarcísio Pacheco Murtinho da minha primeira anedota, sessenta e oito anos depois, de gravata nova, num plenário diferente, mas com a mesma estrutura interna. Observem como o tipo se reproduz: muda o terno, muda o vocabulário, muda a década, e a alma cinza segue intacta.
E a estrutura interna é esta: covardia perfumada, vestida de método, recebida com elogio pelos pares.
A pior consequência
A pior consequência disso, amigos, eu já disse e repito.
Não é o crime que escapa. O crime escaparia mesmo, com ou sem o deputado prudente, porque sempre há um caminho técnico para que o crime escape quando a vontade política é deixá-lo escapar. Isso não é o problema central.
O problema central é outro. É que, quando o deputado prudente cala, ele dá ao próximo deputado em situação igual a mensagem de que calar é decente. De que calar é compatível com a reputação. De que calar é uma escolha de homem público sério.
E aí, amigos, o doutor da minha história vira escola. E a escola produz, ano após ano, mais doutores. Cada um deles mais prudente do que o anterior. Cada um deles mais elogiado pelos pares. Cada um deles com mais frases prontas para justificar a inação. Cada um deles caminhando, com passos elegantes, para a próxima cadeira de cargo de confiança.
A República inteira, amigos, vai sendo tomada por homens que se acham sábios e que são, no fundo, esponjas de medo. Esponjas elegantíssimas. Mas esponjas.
A medida que voce processa essa imagem, voce entende o número que abriu a coluna. Oitocentos e setenta e uma esponjas só no recorte do TCU do ano passado. Imaginem o resto.
A unanimidade prudente
Vou recuperar uma frase que vos disse semana passada. Toda unanimidade é burra.
Pois bem. Há uma unanimidade nova, mais perigosa que as unanimidades clássicas, e essa é a unanimidade dos prudentes. É o consenso silencioso de todos os homens públicos cuidadosos que, juntos, em coro, deixam o que precisa ser dito por dizer.
O cidadão olha para esse consenso, vê todos calados ao mesmo tempo, e pensa, equivocadamente, que se todos calam é porque não há nada a dizer. E é exatamente o contrário. Quando todos calam ao mesmo tempo, em geral é porque há muito a dizer e ninguém quer pagar o preço da primeira frase.
A primeira frase, amigos, é sempre a mais cara. As outras saem por preço de saldo. Por isso o sistema inteiro fica esperando o trouxa que vai falar primeiro. E enquanto não aparece o trouxa, todo mundo segue prudente, todo mundo segue elogiado, todo mundo segue dormindo bem.
Eu sou um reaça assumido, e desconfio mortalmente desse sono bem dormido.
E é só
Vou fechar com um conselho para o jovem ambicioso que está lendo esta coluna pensando em entrar para a vida pública.
Jovem.
Se você quiser ser homem público sério, escolha desde já com cuidado o seu vício preferido. Porque você vai ter um. Não adianta achar que vai ser santo, porque não vai. Mas pode escolher o vício.
E, na escolha, fuja como peste do vício mais elegante de todos: o vício de ser chamado de prudente sem nunca ter sido prudente. Esse vício, eu já disse e repito, é o que mais destrói República no mundo.
Prefira mil vezes ser chamado de impulsivo, de exagerado, de intempestivo, de jovem demais, de inconveniente. Esses adjetivos doem hoje. Mas se você os carrega com dignidade, daqui a vinte anos, quando os doutores tiverem todos desaparecido sem deixar marca — a marca da poça de café requentado evaporando do chão do gabinete deles —, você ainda estará lá, com a boca quente da última frase incômoda que disse.
A República, no fundo, é construída por quem aceitou pagar o preço da primeira frase. Tudo o mais é cenário. Tudo o mais é gravata cinza pendurada num cabide cinza num escritório cinza onde alguém, daqui a sessenta e oito anos, ainda estará dormindo bem.
E é só.
Perguntas Frequentes
- Qual é o número de irregularidades silenciadas em representações do TCU?
- TCU apurou 1.317 representações por irregularidade contra agentes federais no ano anterior; em 871 delas (66%), havia testemunhas internas que sabiam de tudo 6 meses antes de denúncia formal — exemplos de covardia disfarçada de prudência.
- Qual é a diferença entre prudência verdadeira e covardia disfarçada?
- Prudência verdadeira escolhe momento certo para agir e depois age; covardia encontra razão técnica para adiamento perpétuo, sempre falta informação, reunião, confirmação, garantia — o tempo vai passando.
- Por que a covardia disfarçada de prudência é a mais perigosa?
- Canalha você reconhece; burro você vê de longe; vaidoso anuncia-se; covarde franco pelo menos admite — covarde disfarçado de prudente passa vida inteira recebendo elogios pelo defeito que tem.
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