
Visitantes circulam pelos pavilhões da Feira do Livro de Brasília na edição de 2025, instalada no Estacionamento 13 do Parque da Cidade. Foto: Secretaria de Cultura do DF/Divulgação.
A Feira do Livro de Brasília completa 40 anos e o papel insiste em durar mais que a moda
Era para ter morrido. Foi dado por morto várias vezes, este pobre objeto de papel costurado que insiste em ocupar prateleiras, mesas, mochilas e mãos de leitores teimosos. Pois eis que o livro, condenado em 1995 pela televisão, em 2007 pelo Kindle, em 2018 pelo TikTok e em 2024 pela inteligência artificial, comparece outra vez ao Parque da Cidade de Brasília. E comparece em festa.
Era para ter morrido. Foi dado por morto várias vezes, este pobre objeto de papel costurado que insiste em ocupar prateleiras, mesas, mochilas e mãos de leitores teimosos.
Pois eis que o livro, condenado em 1995 pela televisão, em 2007 pelo Kindle, em 2018 pelo TikTok e em 2024 pela inteligência artificial, comparece outra vez ao Parque da Cidade de Brasília. E comparece em festa.
A Feira do Livro de Brasília completa quarenta anos em 2026. A primeira edição, de 1986, ocupou um pequeno galpão no Eixo Monumental, contou com 22 expositores e foi visitada por cerca de 18 mil curiosos.
A 40ª edição, marcada para 25 de abril a 5 de maio, terá 184 estandes, programação em três palcos simultâneos e uma estimativa, talvez ousada, de 412 mil visitantes, o que reforça o cenário de brasiliense leu mais em 2025 e os livros físicos voltaram a ganhar força no Distrito Federal. Os números são da Secretaria de Cultura do DF, e os números, como se sabe, não mentem.
Apenas cansam.
O que dura quarenta anos numa cidade jovem
Brasília tem 66 anos. Quase dois terços da sua idade convivem com esta feira.
Há quem diga que poucos eventos culturais da capital sobreviveram a tanto. Sobreviveram a sete governadores, a cinco crises econômicas, a uma pandemia, à invenção do leitor digital e ao desinteresse periódico de prefeituras pela palavra escrita.
Ainda assim, ano após ano, os caminhões chegam, os estandes se montam, as lonas se esticam e os livros, pacientes como sempre foram, esperam pelos seus leitores.
Esta resistência merece nota. Não a resistência heroica das declarações de palanque, daquelas que se gritam em coquetel e se esquecem na manhã seguinte, mas a outra, a quieta, a dos editores pequenos, que, tal como os empreendedores da Feira Permanente de Taguatinga, percorrem 1.800 quilômetros do interior de Minas para vender duzentos livros num final de semana e voltam para casa achando que valeu a pena — um esforço miúdo e persistente, semelhante à reorganização silenciosa que fez o parto normal voltar a superar a cesárea no DF.
Porque valeu.
Desde sua 1ª edição em 1986, que contou com 22 expositores e atraiu 18 mil visitantes, o evento demonstrou um crescimento notável. Na 30ª edição, em 2016, esses números já haviam saltado para 138 expositores e 295 mil visitantes. A projeção para a 40ª edição, em 2026, é ainda mais ambiciosa, com a expectativa de 184 expositores e 412 mil visitantes. Este sucesso reflete a pujança do comércio local e a importância de iniciativas que impulsionam a economia e geram oportunidades em nosso Distrito Federal, que também se destaca em outras áreas, como mostra o avanço da saúde pública com a liderança do DF na doação de órgãos no país.
O paradoxo do papel teimoso
O Sindicato Nacional dos Editores de Livros divulgou em fevereiro o painel do varejo de 2025. O setor cresceu 8,4% em faturamento no ano, e o livro impresso continua respondendo por 88% das vendas.
O eBook, prometido como o sucessor inevitável, segue ocupando os mesmos 9% que ocupa há cinco anos. O audiolivro, que era a vez seguinte, chegou a 3% e empacou.
Confesso, caro leitor, certa malícia em registrar os números. É que eles desmentem, com a delicadeza dos fatos, as profecias dos profetas.
O papel, esse condenado contumaz, permanece. Não porque seja melhor que o digital, observação aliás contestável, mas porque é diferente.
O leitor adulto, em pesquisa do Instituto Pró-Livro de novembro passado, foi categórico: 73% preferem o livro físico. E o motivo mais citado, repetido por jovens e velhos, foi este, encantadoramente irracional: "porque é gostoso de pegar".
Eis aí toda a literatura: gostoso de pegar.
A programação que se promete
A 40ª edição traz, segundo divulgação oficial, 312 sessões de autógrafos, 78 mesas de debate, 42 oficinas para crianças e adolescentes, e dois concursos de poesia ao vivo. Os homenageados são Lygia Fagundes Telles, no centenário de seu romance "As Meninas", e o cordelista cearense Patativa do Assaré, ambos cuidadosamente mortos. Essa decisão pragmática, tão eficiente quanto a do app do ônibus do DF que resolveu o que ninguém resolvia evita constrangimento contemporâneo e poupa a organização da indelicadeza dos vivos.
Haverá também, pela primeira vez, uma tenda dedicada aos livros didáticos usados, com sistema de troca incentivado pela Secretaria de Educação do DF. A iniciativa é simples e quase singela: um aluno traz três livros do ano passado, leva três do ano que vem.
Singela, eu disse, e talvez também política, porque alimenta nas crianças aquela ideia perigosa de que livro circula, livro envelhece, livro é objeto vivo.
O lucro discreto do não-lucro
Pergunte a um livreiro pequeno se a feira é rentável. A resposta vem com encolher de ombros.
Vende-se algo, sim, paga-se o estande, cobre-se o hotel, sobra para a gasolina da volta. Em alguns casos, sobra também para um jantar caprichado no encerramento.
Não é negócio, no sentido em que economistas usam a palavra. É outro tipo de transação.
Troca-se livro por leitor, e leitor por endereço de e-mail, e endereço de e-mail por catálogo do ano que vem.
Os grandes nomes da edição nacional, esses comparecem por outras razões. Comparecem porque Brasília compra livros, e compra muito.
O DF tem o segundo maior consumo per capita de livros do país, atrás apenas de Florianópolis, segundo a Câmara Brasileira do Livro. São 4,8 livros novos por habitante por ano, contra a média nacional de 2,1.
Quem ignora esse dado, ignora também por que a feira não morreu.
A pequena vitória dos lentos
Termino esta crônica, caro leitor, com uma confissão. Não sei se a Feira do Livro de Brasília chegará aos cinquenta anos.
Não sei se a inteligência artificial, esta nova hóspede curiosa que sabe escrever sonetos sem nunca ter chorado, vai ou não tornar inúteis os meus colegas de oficina. Não sei sequer se as crianças que hoje folheiam livros coloridos no estande infantil continuarão folheando livros quando forem adultas.
Sei, porém, de uma coisa. Sei que enquanto houver gente disposta a passar três horas dentro de uma tenda quente para conseguir um autógrafo num livro físico, haverá feira.
Sei que enquanto houver pais ensinando filhos a virar páginas com a ponta dos dedos, haverá editor. E sei, sobretudo, que o papel, este condenado eterno, sobreviveu a coisas piores que algoritmos.
Aos quarenta anos, a Feira do Livro de Brasília tem o que todo bom personagem literário aspira: longevidade discreta, inimigos famosos e leitores fiéis. É pouco e é tudo.
Compareçam, leitores. As mesas estão postas, e os livros, pacientes como sempre foram, esperam.
Perguntas Frequentes
- Quando é a Feira do Livro de Brasília 2026?
- A Feira do Livro de Brasília completa 40 anos em 2026, com a primeira edição tendo ocorrido em 1986.
- Onde vai ser a Feira do Livro de Brasília?
- A Feira do Livro de Brasília acontece no Parque da Cidade de Brasília.
- Por que o livro de papel ainda é relevante?
- O livro de papel insiste em durar, ocupando prateleiras e mãos de leitores, mesmo após previsões de sua morte com o advento da TV, Kindle, TikTok e inteligência artificial.
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