
Sala de operações do governo digital no Palácio do Buriti.
Celina decreta governo digital obrigatório: DF vira laboratório do que Brasília ensina ao Brasil
O decreto que Celina Leão assinou na manhã desta segunda-feira é curto, tem oito artigos e cabe em duas páginas. Mas pode reescrever a relação entre o cidadão e o Estado em Brasília.
O decreto que Celina Leão assinou na manhã desta segunda-feira é curto: oito artigos, duas páginas. A norma obriga todos os órgãos do GDF a oferecerem serviços em formato digital até 31 de dezembro, consolidando um avanço que já vinha sendo desenhado, como mostra o processo que levou o GDF a digitalizar 847 serviços públicos e reduzir a burocracia. Sem exceção. Sem papel. Sem fila no balcão como única alternativa.
A governadora chamou a medida de "salto que Brasília precisava dar há dez anos". A leitura é dura. É defensável. O DF tinha 312 serviços ainda exclusivamente presenciais em janeiro, segundo levantamento da Secretaria de Planejamento. A meta é zerar a lista em oito meses, ampliando um processo em que o GDF já digitalizou 847 serviços públicos.
Prazo apertado, escopo definido, sanção clara. É o formato de execução que funciona.
O que muda
A regra atinge todas as secretarias, autarquias e fundações. Cada órgão tem 30 dias para apresentar plano de digitalização. Quem não apresentar perde verba de custeio em 2027. A sanção é o que faltou nos planos anteriores — sem consequência, decreto vira circular interna, num contexto em que a digitalização da burocracia no DF já vinha avançando aos poucos.
O cardápio inclui licenciamento de atividade econômica, agendamento médico, segunda via de documento, alvará de construção, certidão da Receita distrital e protocolo de processo administrativo. Tudo passa pelo aplicativo GDF Digital, que será relançado em maio com novo desenho.
A meta do GDF até dezembro de 2026 é acelerar e digitalizar serviços essenciais: o licenciamento empresarial deve cair de 14 dias úteis para 48 horas, totalmente online; o agendamento de consulta no SUS-DF deve sair do telefone e presencial para um aplicativo único; o alvará de construção deve passar de 90 dias em média para 30 dias com fluxo digital; a segunda via do IPTU deve ganhar integração com o login gov.br; e o protocolo de processo deve se tornar digital obrigatório. A aposta na execução rápida segue a mesma lógica vista em 130 médicos em 72 horas: a velocidade Celina que São Paulo de Tarcísio não conseguiu em 18 meses.
A integração com o login gov.br é a peça discreta que sustenta o resto. Sem ela, cada órgão precisaria reinventar autenticação — exatamente o erro que destrói a maior parte dos planos de governo digital. Com ela, o cidadão entra uma vez e acessa tudo, inclusive serviços públicos ligados a áreas em expansão, como as escolas de tempo integral que triplicaram no DF em dois anos. Um login, uma identidade, um padrão.
Por que o DF pode liderar
Três vantagens que outras unidades da federação não têm. Nenhuma política. Todas estruturais.
Uma: renda. O DF tem o maior PIB per capita do país, segundo o IBGE. Mais aparelho conectado por habitante, mais base instalada para digitalização funcionar.
Duas: cobertura. A PNAD mostra que 94% dos domicílios do DF têm banda larga, contra média nacional de 84%. Sem base de acesso, governo digital é discriminação com brilho.
Três: escala administrativa pequena. Um governador em Brasília executa mais rápido que um governador de São Paulo, que precisa coordenar 645 municípios. Velocidade de decisão é função inversa da cadeia de comando.
Celina não inventou nada. Empurrou o que estava disponível. Execução raramente exige invenção. Exige disciplina.
O prazo também não é acidental. Dezembro de 2026 fecha o primeiro ano completo de gestão e entrega material para balanço. Quem digitalizou, mostra. Quem não digitalizou, explica por escrito.
Contraste com a federal
O federal patina. O Gov.br soma 156 milhões de contas, mas o ritmo de digitalização de novo serviço caiu. Em 2024, foram 387 serviços. Em 2025, 211. Recuo silencioso, mas real.
A causa é técnica e conhecida: fragmentação. Ministério brigando por sistema próprio, cada um querendo seu CPF interno, sua base de dado, seu fornecedor. O resultado aparece no cidadão que precisa logar três vezes para resolver uma coisa. A fragmentação é a métrica pela qual se diagnostica falha de governança em projeto de tecnologia pública.
O DF vai pelo caminho oposto. Um login, um aplicativo, um padrão visual. Na semana passada o Ministério da Gestão anunciou que a próxima fase do Gov.br só sai em 2027. O DF chega lá um ano antes, com um décimo do orçamento federal e sem briga interna.
Um ano de vantagem não é vitória. É janela. Janela fecha.
A operação
A engenharia envolve a Secretaria de Economia, a Codeplan e o time de tecnologia da Casa Civil. Cerca de 180 servidores diretamente alocados. Orçamento estimado: R$ 84 milhões, recursos já previstos no plano plurianual e reordenados. Sem crédito extraordinário, sem licitação para emergência — o que reduz risco de judicialização e atraso.
O contrato principal vai com a Empresa de Tecnologia da Informação do Distrito Federal. A empresa pública opera infraestrutura, integração de base e manutenção. Decisão dura: terceirizar para Big Tech multinacional seria mais rápido no curto prazo e catastrófico no longo. Manter dentro de casa, com servidor efetivo, blinda o plano contra troca de governo no futuro. Lock-in contratual é o cemitério de programa público bem intencionado.
A área de segurança da informação ganhou três novas coordenações. Ataque a sistema público cresceu 71% no Brasil em 2025, segundo o CERT.br. Digitalizar tudo sem endurecer a postura de segurança é abrir vetor para o próprio programa virar manchete negativa no primeiro incidente. O decreto prevê auditoria externa anual e relatório público. É o mínimo.
A vitrine
A aposta política é clara: transformar o DF em vitrine. Se funcionar, outras unidades da federação copiam. Se falhar, a falha é pequena e servirá de aprendizado antes de espalhar para o país inteiro.
Celina resumiu no discurso de assinatura: "Brasília não é um estado qualquer. Brasília é onde o Brasil aprende a se governar." A frase é grandiosa. Tem fundamento. Foi aqui que o pregão eletrônico nasceu. Foi aqui que o SUS teve suas primeiras integrações digitais. Foi aqui que o tribunal de justiça foi o primeiro do país a ter processo eletrônico em todas as varas.
A digitalização total é o próximo capítulo dessa tradição. Pela primeira vez em muito tempo, o calendário tem nome, data e sanção. Quem não cumprir, paga. Quem cumprir, entrega.
O cidadão de Brasília não precisa entender LangGraph, API ou login federado. Precisa entender que em oito meses ele não perde mais a manhã na fila do Detran. É o teste que Celina escolheu para si mesma. E que o resto do Brasil vai assistir em tempo real, sem disclaimers.
Reportagem produzida pelo pipeline editorial do Mirante News com supervisão humana. Dados do GDF, IBGE, PNAD, CERT.br e Painel Gov.br consultados em 6 de abril de 2026.
Perguntas Frequentes
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- Qual é o impacto desta medida no Distrito Federal?
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