
Vista aérea do BIOTIC, em Granja do Torto: o galpão branco à esquerda abriga o novo data center contratado pelo Serpro para inferência de modelos de linguagem
O data center que nasceu ao lado da UnB vai processar 30% da IA pública do Brasil
A 9 quilômetros do Plano Piloto, encostado ao campus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília, um galpão de concreto cinza começou a zumbir em fevereiro. Lá dentro, 4.200 unidades de processamento gráfico organizadas em corredores quentes e frios fazem o que poucos data centers no Brasil fazem: rodar modelos de linguagem com mais de 10 bilhões de parâmetros em tempo real para órgãos públicos.
Operação iniciada em silêncio. Sem cerimônia, sem placa, sem fita cortada. Em 11 de fevereiro de 2026, técnicos do Serpro destravaram o último rack do que internamente chamam "Sala 3" e ligaram a alimentação. Em menos de uma hora, o orquestrador começou a distribuir requisições do Gov.br, da Receita Federal e do INSS para os 4.200 aceleradores instalados no galpão, apoiado pela mesma infraestrutura invisível descrita em o backbone de fibra óptica que sustenta o DF.
O data center do BIOTIC — Parque Tecnológico Capital Digital, no setor Granja do Torto — não é o maior do Brasil. Nem perto. Os complexos da Tecto, em Hortolândia, e da Equinix, em Santana de Parnaíba, têm capacidade instalada várias vezes maior. O que faz este aqui relevante é outro corte: ele surge em um ecossistema no qual Brasília já é a 4ª capital em startups e tenta destravar a IA no governo e é o primeiro data center brasileiro projetado do zero para inferência de modelos de linguagem do setor público.
A diferença entre um data center hyperscale genérico e um data center dedicado a inferência é arquitetural. Não é marketing. Capacidade, topologia de GPU, stack de orquestração, relação com cliente — tudo muda.
Por que Brasília e por que agora
Três fatores pesaram. Documentos do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial e contratos publicados no Comprasnet deixam isso explícito.
Fator um: proximidade física com o cliente. Mais de 60% das requisições previstas vêm de órgão federal com sede no DF. Cada milissegundo de latência economizado na fibra entre Granja do Torto e a Esplanada dos Ministérios é modelo respondendo mais rápido a cidadão em consulta real — um ponto central no debate sobre a soberania digital da IA que já opera em Brasília. Latência não é vaidade de engenheiro. É função de experiência de usuário e função de custo operacional — requisição que demora mais consome mais fatia de GPU.
Fator dois: UnB. O acordo de cooperação assinado em 2025 entre Serpro, FUB e BIOTIC garante acesso compartilhado à infraestrutura para o Departamento de Ciência da Computação e o Laboratório de Aprendizado de Máquina em Aplicações Financeiras. Em um parque que já desponta como o silicon cerrado, pós-graduandos rodam experimento em janela ociosa em troca de relatório técnico sobre eficiência energética e otimização de inferência. Arranjo raro. Vantagem dupla: pesquisa ganha capacidade computacional inédita, operador ganha instrumentação gratuita.
Fator três: clima. Brasília tem umidade relativa média anual abaixo de 60% e amplitude térmica favorável. Isso reduz o consumo em refrigeração — o calcanhar de Aquiles de data center — entre 12% e 18% comparado a equivalente em São Paulo ou no Rio. Em uma capital onde o servidor federal de Brasília tem o maior salário médio do Brasil e a rotina mais longa, cortar de doze a dezoito por cento na conta de energia ajuda a definir a margem operacional de dez anos.
Engenharia de resfriamento
Por uma porta lateral do galpão entra-se primeiro no vestíbulo de pressão positiva. Dupla porta leva ao corredor frio. O ar entra a 22 graus, atravessa o rack pela face frontal, sai a 38 pelo corredor quente, é puxado para serpentinas de água gelada, volta ao circuito. Sem cobre exposto. Só fibra trançada em bandeja suspensa.
| Especificação | Valor | Comparação |
|---|---|---|
| GPUs instaladas | 4.200 | Equivalente a 350 servidores HGX |
| Capacidade de inferência | 1,8 milhão de tokens/segundo | ~30% da demanda federal projetada para 2027 |
| PUE projetado | 1,28 | Média global de data centers: 1,55 |
| Consumo elétrico | 6,4 MW | Suficiente para 12 mil residências |
| Resfriamento | Água gelada + free cooling | 14% mais eficiente que ar direto |
| Redundância elétrica | N+1 | Disponibilidade prevista de 99,98% |
| Área útil | 14.200 m² | Menos da metade de um data center hyperscale |
O número que importa é o PUE — Power Usage Effectiveness — projetado em 1,28. Significa que, para cada quilowatt-hora gasto em computação, o complexo gasta 0,28 kWh em tudo o que não é processamento: refrigeração, iluminação, controle de acesso, monitoramento. Média mundial: 1,55. O Uptime Institute considera "excelente" qualquer instalação abaixo de 1,40. 1,28 é classe alta.
Para chegar ao número, o projeto usa free cooling. Em sete meses do ano, a temperatura externa noturna em Brasília fica abaixo dos 18 graus. Nesse período, o sistema desliga as serpentinas mecânicas e usa ar externo filtrado para resfriar a água do circuito secundário. O ganho aparece principalmente entre maio e setembro, a estação seca. O clima é aliado operacional, não só diferencial de marketing.
Quem paga, quanto, para quem
Contratação em duas etapas. Primeira, R$ 218 milhões: obra civil, instalação elétrica, refrigeração, parte dos servidores. Segunda, R$ 412 milhões: aceleradores de processamento gráfico. O Serpro coordenou a aquisição em consórcio com Dataprev e Tribunal de Contas da União. O contrato prevê pagamento por uso — modelo de nuvem pública — com piso garantido de R$ 38 milhões anuais durante dez anos.
Clientela inicial:
- Receita Federal: modelos para classificação automática de declaração suspeita de imposto de renda.
- INSS: análise de pedido de benefício em escala.
- Ministério da Justiça: triagem de processo administrativo com IA.
- Banco Central: detecção de fraude em transação Pix.
A estimativa do MCTI de que o BIOTIC processará 30% da inferência pública federal é projeção para 2028. Considera o crescimento esperado de demanda. No quarto mês de operação, o número real está em torno de 11%. Os 19% restantes dependem de migrações que os órgãos contratantes precisam executar. Execução que, historicamente, não é ponto forte da administração pública.
Efeito sobre o ecossistema local
Data center não opera no vácuo. Ao redor dele, dentro do mesmo polígono do BIOTIC, já se instalaram a Peptidus Biotech — finalista do HackBrazil 2026 em Harvard — e três empresas menores que prestam serviço de fine-tuning de modelos abertos. O parque passou a receber estagiários da UnB com remuneração paga em parte pelas próprias empresas. Arranjo raro no Brasil.
A infraestrutura reduz barreira de entrada para quem quer treinar modelo próprio sem depender de provedor estrangeiro. Uma startup que precisaria pagar entre US$ 80 mil e US$ 300 mil por uma rodada de treinamento na nuvem americana passa a alugar capacidade ociosa em janela noturna e fim de semana por R$ 60 mil a R$ 180 mil. A diferença não é apenas cambial. É regulatória. Dado sensível processado em território nacional simplifica cumprimento da LGPD e elimina classe inteira de risco jurídico.
O que ainda está em aberto
A operação de fevereiro foi parcial. Apenas dois dos quatro grandes módulos do galpão estão energizados. O terceiro entra em operação até julho. O quarto depende de equipamento importado que ainda não recebeu licenciamento da Anatel.
Discussão técnica em curso: o circuito de resfriamento, mesmo reciclado em sistema fechado, exige reposição mensal de cerca de 380 mil litros. Motivou questionamento da Adasa, agência reguladora de águas do DF. Em região de estresse hídrico crônico, esse número precisa ter resposta antes do próximo ciclo seco.
Outra incógnita: atração de talento. O BIOTIC fica afastado do Plano Piloto. Granja do Torto tem oferta limitada de transporte público. Os primeiros engenheiros contratados pelo Serpro relatam deslocamento médio de 50 minutos. A universidade ao lado ajuda — estagiário pega o circular interno da UnB — mas para profissional sênior a distância está sendo fator de hesitação em negociação salarial.
Ainda assim, o galpão de Granja do Torto consolidou um movimento que estava em planilha há quase quatro anos. O Brasil decidiu que parte da inferência pública precisa rodar dentro do país. Brasília se ofereceu para sediar a decisão. Pela primeira vez, há fio suficiente para sustentar a promessa.
Fio é infraestrutura. Promessa sem fio é slide.
Perguntas Frequentes
- O data center que nasceu ao lado da UnB vai processar 30% da IA pública do Brasil?
- No Parque Tecnológico BIOTIC, em Granja do Torto, um galpão de 14 mil metros quadrados começou a operar com 4.200 GPUs e refrigeração a água gelada. A...
- Qual é o impacto desta medida no Distrito Federal?
- A 9 quilômetros do Plano Piloto, encostado ao campus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília, um galpão de concreto cinza começou a zumbir em fevereiro.
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