
O Parque Tecnológico BIOTIC, em Granja do Torto, abriga o Centro Integrado de Inteligência Artificial do DF e startups como a Peptidus Biotech
Brasília tem 448 startups e R$ 5 mi em IA pública — mas a burocracia trava
Brasília concentra 448 startups ativas, um centro de inteligência artificial de R$ 5 milhões no Parque Tecnológico BIOTIC e uma startup que disputou prêmio em Harvard. Do lado federal, o Serpro desenvolve um modelo de linguagem próprio com mais de 10 bilhões de parâmetros. Os números impressionam. O problema é o que acontece entre a inauguração e a entrega.
Brasília tem 448 startups e R$ 5 mi em IA pública — mas a burocracia trava
Brasília tem tudo para ser o Vale do Silício brasileiro. Governo federal a quinze minutos. O maior comprador público de tecnologia do país. Universidades que formam gente competente. Dinheiro orçamentário passando pela Esplanada todos os dias. E, como mostra o avanço de um ecossistema de inovação com eventos, hubs e startups em expansão, tem — exatamente por isso — o maior cadeado do país na porta da inovação.
O Distrito Federal abriga 448 startups ativas. É a 4ª cidade no ranking nacional do Sebrae. O Governo do DF inaugurou um Centro de Inteligência Artificial com R$ 5 milhões prometidos.
O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial — o PBIA, publicado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia — promete R$ 23 bilhões até 2028. Uma startup de biotecnologia saída do Parque Tecnológico BIOTIC disputou final em Harvard.
Números bonitos. Cerimônias com fita cortada. Siglas novas a cada semestre.
E o empreendedor? O empreendedor espera.
O gigante adormecido no ranking
O Observatório de Startups do Sebrae mapeou 22.869 startups ativas no Brasil. São Paulo lidera com 1.911. Florianópolis surpreende em segundo com 790. Rio de Janeiro aparece com 581. Brasília, quarta colocada, soma 448.
No ranking nacional de startups ativas, São Paulo lidera com 1.911 empresas, com destaque para fintechs e marketplaces, seguida por Florianópolis, com 790 startups voltadas a SaaS e edtech, e pelo Rio de Janeiro, com 581 iniciativas em healthtech e mídia. Brasília aparece na 4ª posição, com 448 startups e vocação para govtech, defesa e biotech, impulso reforçado por cases como o Biotic, o silicon cerrado. Belo Horizonte surge em 5º lugar, com 387 startups focadas em agtech e legaltech, enquanto Curitiba fecha a lista com 342 empresas ligadas a logtech e indústria 4.0.
A distância para o terceiro lugar é de 133 empresas — gap factível de fechar em dois anos com incentivo fiscal focado. Mas o dado bruto esconde uma fragilidade estrutural: a maioria das startups brasilienses vende para o governo. Govtech é a vocação do DF, sustentada por infraestrutura que começa a ganhar escala, como mostra o data center do BIOTIC que deve processar 30% da IA pública do Brasil.
Faz sentido — o maior empregador da cidade é o Estado. E não por acaso, Brasília virou capital do venture capital em GovTech. Só que govtech é faca de dois gumes. Quando a licitação atrasa, quando a rubrica orçamentária muda, quando o novo secretário quer "repensar a estratégia digital" — a startup morre.
Não de uma facada. De inanição.
Preste atenção nesse padrão. Ele se repete em cada camada do ecossistema.
Dentro da garagem que demorou 15 anos
Lucas — nome fictício, o medo de represália é real — tem 29 anos, formação em ciência da computação pela Universidade de Brasília e uma startup de automação de processos administrativos. Começou num coworking no Sudoeste, num ambiente impulsionado pela expansão do 5G no DF e pela atração de startups de tecnologia. Três laptops, um quadro branco, café frio. O produto funciona: reduz em 60% o tempo de tramitação de processos internos em secretarias de governo.
Quando soube do BIOTIC, achou que era o salto. O Parque Tecnológico Capital Digital — rebatizado como BIOTIC, no Granja do Torto — foi concebido em 2008. A Lei Distrital nº 4.507/2010 criou formalmente o projeto. A Terracap ficou responsável pela infraestrutura. O primeiro marco concreto veio só em 2013: o datacenter do Banco do Brasil e da Caixa.
Lucas mandou proposta para incubação em 2024. Recebeu resposta no ano passado — onze meses depois. O edital pedia documentação que incluía certidão negativa de débitos de uma empresa com oito meses de vida, comprovação de faturamento mínimo que ele ainda não tinha, e três cartas de recomendação de instituições parceiras. Para um desenvolvedor sozinho com um MVP pronto.
Ele desistiu. Pegou um voo para São Paulo. Conseguiu uma vaga na Cubo Itaú em três semanas.
Esse é o padrão: talento nasce em Brasília, cresce em Brasília — e escapa de Brasília na primeira oportunidade.
CIIA: dinheiro prometido, pouco executado
De 2013 a 2024, o BIOTIC funcionou em banho-maria. Editais abriram e fecharam. Startups entraram e saíram. O cenário mudou no ano passado. O GDF inaugurou, em maio, o Centro Integrado de Inteligência Artificial — o CIIA. Em agosto, o Laboratório Multiusuário de Inteligência Artificial — o LIA. Duas siglas novas, desta vez com dinheiro por trás.
| Marco | Ano | Investimento | Status |
|---|---|---|---|
| Criação legal do BIOTIC | 2010 | — | Concluído |
| Datacenter BB/Caixa | 2013 | Não divulgado | Operacional |
| Inauguração do CIIA | Mai/25 | R$ 5 milhões (1ª fase) | Em operação |
| Inauguração do LIA | Ago/25 | Incluso no CIIA | Em operação |
O investimento total da primeira fase: R$ 5 milhões, com previsão de R$ 6 milhões adicionais em dois anos. Até o final do ano passado, R$ 400 mil haviam sido executados em infraestrutura e equipamentos. Oito por cento do total prometido. A meta era 10 projetos-piloto em 12 meses e 300 profissionais treinados.
Nenhum relatório público de acompanhamento foi divulgado.
Perceba o desenho: inauguração com holofote, execução no escuro. Promessa em milhões, entrega em centenas de milhares. É o ciclo clássico da burocracia brasileira — anúncio primeiro, resultado depois, prestação de contas nunca.
O plano de R$ 23 bilhões e suas entranhas
O PBIA — Plano Brasileiro de Inteligência Artificial — foi publicado em junho do ano passado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Promete R$ 23 bilhões até 2028 em cinco eixos.
| Eixo | Orçamento previsto | % do total |
|---|---|---|
| Inovação empresarial | R$ 13,79 bilhões | 59,9% |
| Infraestrutura e desenvolvimento | R$ 6,97 bilhões | 30,3% |
| Serviços públicos | R$ 1,76 bilhão | 7,6% |
| Formação e capacitação | R$ 1,15 bilhão | 5,0% |
| Regulação e governança | R$ 103,25 milhões | 0,4% |
Dois números saltam. Primeiro: quase 60% vai para "inovação empresarial" — categoria tão ampla que inclui crédito subsidiado, editais de pesquisa e linhas de financiamento que exigem 47 documentos para acessar. Dinheiro disperso em mil linhas orçamentárias raramente chega na ponta.
Segundo: regulação recebe 0,4%. Cento e três milhões de reais para definir as regras de uma tecnologia que vai remodelar mercado de trabalho, administração pública e segurança nacional. O AI Act europeu mobilizou equipes dedicadas em mais de 20 agências por três anos. O Brasil pretende regular inteligência artificial com o orçamento de um prédio comercial em Águas Claras.
Metas para 2026: capacitar 115 mil servidores em IA (R$ 7,5 milhões), disponibilizar plataforma de infraestrutura para modelos no Executivo federal, realizar 25 ciclos de estruturação de projetos. Metas que soam bem num slide. A questão é se alguém vai cobrar.
SerproLLM: a aposta soberana
O Serpro — estatal federal de tecnologia, sediada em Brasília — desenvolve o SerproLLM, um modelo de linguagem com mais de 10 bilhões de parâmetros. A promessa: soberania digital. Treinar em dados brasileiros, hospedar em infraestrutura nacional, operar sob controle público.
A lógica estratégica é sólida. Dados sensíveis do governo não devem rodar nos servidores da OpenAI. Um modelo soberano faz sentido para a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, para o INSS que processa milhões de benefícios, para a Receita Federal que cruza declarações.
O risco é igualmente sólido. O Serpro já lançou o ConversAI Studio em parceria com o Google — plataforma de IA generativa para uso governamental. A pergunta: faz mais sentido uma estatal gastar anos construindo modelo base, ou comprar o que funciona e investir na camada de governança e dados?
A resposta conservadora: compre pronto e aplique bem. A soberania digital real não está no modelo — está no controle sobre o que entra e o que sai. O SerproLLM pode ser uma façanha técnica. Pode também ser mais um projeto estatal que nasce ambicioso e entrega relatório.
O Marco Legal da IA: 16 meses de paralisia
O Senado aprovou o PL 2.338/2023 em dezembro de 2024. O texto classifica sistemas de inteligência artificial por nível de risco, exige transparência sobre dados de treinamento e dá a autores o direito de vetar o uso de suas obras por modelos generativos.
Desde então — silêncio.
Abril de 2026. Dezesseis meses na Câmara dos Deputados. Nenhuma votação em plenário.
O atraso tem endereço. De um lado, empresas de tecnologia querem regras brandas — regulação rígida, argumentam, empurra inovação para fora do país. De outro, sindicatos e setores criativos querem proteção máxima contra automação. O Congresso fez o que faz melhor: não decidiu.
Para o ecossistema de Brasília, a indefinição é veneno lento. Startups de IA não sabem se o produto que desenvolvem será legal em seis meses. Investidores estrangeiros olham para 210 milhões de consumidores sem regras claras — e escolhem esperar. A China regulou. A Europa regulou. Os Estados Unidos operam por ordem executiva. O Brasil debate.
A posição do Mirante: regulação precisa existir, mas leve, previsível e amigável ao empreendedor. O AI Act europeu virou 459 páginas que geraram mais empregos para advogados de compliance do que para desenvolvedores. O Brasil não precisa copiar esse modelo. Precisa de três coisas: transparência sobre o que a IA faz, responsabilidade quando ela erra, liberdade para inovar no resto.
O que falta: menos plano, mais espaço
Três problemas estruturais. Nenhum se resolve com mais uma sigla.
Dependência do Estado como cliente. Govtech é vocação — e armadilha. Governo atrasa pagamento. Sempre. A startup que vende só para o poder público vive de edital em edital, sufocada entre licitações que demoram meses e empenhos que contingenciam sem aviso. Diversificar para o setor privado e para exportação é questão de sobrevivência.
Ausência de capital privado. Os grandes fundos de venture capital estão em São Paulo. A Monashees captou US$ 700 milhões em dois novos fundos. A Kaszek opera da Argentina e de São Paulo. Nenhum fundo relevante tem sede em Brasília. A consequência: startups promissoras do DF migram para São Paulo na primeira rodada série A. E não voltam.
Burocracia do próprio GDF. O BIOTIC levou 15 anos para sair do papel. O CIIA prometeu R$ 5 milhões e executou R$ 400 mil. A Terracap — que administra os terrenos — opera com a velocidade de uma autarquia fundiária de 1986. Para um setor que mede tempo em sprints de duas semanas, quinze anos é uma piada sem punchline.
| Problema | O que resolveria |
|---|---|
| Dependência do Estado | Incentivo fiscal para startups que exportem ou vendam para setor privado |
| Falta de VC local | Fundo de coinvestimento do GDF com gestores privados (modelo Israel/Yozma) |
| Burocracia fundiária | Autoridade especial para o BIOTIC com poder de decisão acelerado |
| Regulação indefinida | Aprovação do PL 2.338 com texto enxuto e sandbox regulatório |
O dado que o plano não mostra
Toda startup brasiliense faz a mesma pergunta antes da série A.
Não é "quanto vale minha empresa". Não é "qual o TAM do mercado". É mais simples, mais brutal, mais reveladora: para onde a gente muda?
Enquanto a resposta for São Paulo, Brasília será incubadora — não ecossistema. Berçário de talentos que crescem, prosperam e partem. Um gigante adormecido com dados na ponta dos dedos, governo na esquina, universidade no quarteirão — e um cadeado de burocracia, regulação lenta e capital ausente trancando a porta.
O empreendedor tech de Brasília não precisa de mais planos. Não precisa de PBIA, CIIA, LIA ou qualquer outra sigla. Precisa de menos burocracia para abrir empresa. Incentivo fiscal que caiba em uma página. Regulação que dê para ler em uma hora. E um governo que compre solução pronta em vez de construir estatal para competir com quem já resolveu o problema.
Brasília tem talento, demanda e localização. Falta o mais difícil: um Estado que saia do caminho.
Perguntas frequentes
Quantas startups Brasília tem e qual a posição no ranking nacional?
Brasília possui 448 startups ativas segundo o Observatório de Startups do Sebrae (dados de maio do ano passado). Ocupa a 4ª posição no ranking nacional, atrás de São Paulo (1.911), Florianópolis (790) e Rio de Janeiro (581). A especialidade predominante do ecossistema brasiliense é govtech — soluções voltadas para o setor público.
O que é o CIIA e quanto o governo investiu?
O Centro Integrado de Inteligência Artificial foi inaugurado em maio do ano passado pelo Governo do Distrito Federal, em parceria com o Instituto Hardware BR. Fica no Parque Tecnológico BIOTIC, em Granja do Torto. O investimento da primeira fase é de R$ 5 milhões, com previsão de R$ 6 milhões adicionais em dois anos.
Até o final do ano passado, cerca de R$ 400 mil haviam sido executados em infraestrutura e equipamentos. A meta é executar mais de 10 projetos-piloto em 12 meses e treinar 300 profissionais.
O que o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê para Brasília?
O PBIA não tem eixo específico para Brasília, mas afeta diretamente o DF por ser a sede da administração federal. Das metas para 2026, destacam-se a capacitação de 115 mil servidores públicos em IA (investimento de R$ 7. 5 milhões), a disponibilização de plataforma de infraestrutura para modelos de IA no Executivo federal e a realização de 25 ciclos de estruturação de projetos com IA em serviços públicos.
O plano total prevê R$ 23 bilhões até 2028 em cinco eixos, com 59,9% destinados à inovação empresarial.
Matéria produzida por inteligência artificial com supervisão editorial humana. Dados do Observatório de Startups do Sebrae (maio do ano passado), Agência Brasília, Consecti, Agita Brasília, Serpro e Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Os percentuais do PBIA referem-se ao orçamento previsto, não executado.
Perguntas Frequentes
- Brasília tem 448 startups e R$ 5 mi em IA pública — mas a burocracia trava?
- O DF é a 4ª cidade em startups no Brasil, o CIIA recebeu R$ 5 milhões para IA no governo e a Peptidus foi finalista em Harvard. Mas o PBIA de R$ 23 bi...
- Qual é o impacto desta medida no Distrito Federal?
- Brasília concentra 448 startups ativas, um centro de inteligência artificial de R$ 5 milhões no Parque Tecnológico BIOTIC e uma startup que disputou prêmio em Harvard.
- Que dados comprovam essa informação?
- O DF é a 4ª cidade em startups no Brasil, o CIIA recebeu R$ 5 milhões para IA no governo e a Peptidus foi finalista em Harvard. Mas o PBIA de R$ 23 bilhões destina apenas 0,4% para
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