
Laboratório de informática da escola classe 16 de Ceilândia com estações já migradas para o LinuxEducacional 6.0
Escolas públicas do DF migram do Windows para o Linux: economia projetada de R$ 42 milhões
São 41.832 desktops e 12.460 notebooks distribuídos em 680 escolas da rede pública do Distrito Federal. Até abril, todos rodavam Windows 10 com licença adquirida via contrato corporativo. A partir de maio, recebem imagem padronizada do LinuxEducacional 6.0 — e a Secretaria de Educação deixa de pagar R$ 8,4 milhões por ano em licenciamento e suporte.
A decisão saiu do Comitê de Tecnologia da Informação da Secretaria de Estado de Educação em 21 de março. A nota técnica 003/2026, com 84 páginas, autoriza a migração de todas as estações da rede pública para sistema operacional livre, em mais uma medida de modernização da gestão pública no DF — movimento que também aparece em áreas como a saúde, exemplificado por UPAs 24h do DF atendem 3 milhões de consultas por ano. A conclusão está prevista para janeiro de 2027.
A planilha que motivou a decisão é curta. Licenciamento corporativo do sistema atual: R$ 8,4 milhões por ano em assinatura, R$ 2,1 milhões em pacote de produtividade, R$ 980 mil em antivírus corporativo. Equivalente livre: zero. Ciclo de cinco anos, economia projetada de R$ 42,3 milhões — valor que ajuda a dimensionar investimentos públicos em áreas estratégicas, como mostra o avanço das escolas de tempo integral no DF.
Quando um custo recorrente anual pode ser substituído por capex único de migração, a discussão deixa de ser ideológica e vira aritmética.
A escolha técnica
Distribuição: LinuxEducacional 6.0. Mantida pelo Centro de Computação Científica e Software Livre da UFPR em parceria com o Núcleo de Computação Eletrônica da UFRJ. Base: Ubuntu 24.04 Long Term Support. Pacote pré-instalado voltado ao ambiente educacional brasileiro.
A imagem padronizada do DF inclui LibreOffice 25 (escritório), GIMP 3.0 (imagem), Inkscape 1.4 (vetorial), GeoGebra 6 (matemática), KStars e Stellarium (astronomia), Audacity (áudio), Scratch 3 (programação infantil) e Firefox 130 ESR (navegação). Ambiente desktop: Cinnamon. A escolha foi feita por familiaridade visual com o sistema anterior — uma decisão de adoção, não de engenharia — em uma rede que também passa por outras mudanças estruturais, como a expansão das escolas de tempo integral no DF.
A comparação de custos mostra que manter 54.292 estações com Windows, suite de escritório, antivírus corporativo e suporte soma R$ 12,9 milhões por ano, enquanto a adoção de Linux com software livre reduziria esse gasto para R$ 380 mil anuais, gerando uma economia de R$ 12,52 milhões — um alívio relevante para os cofres públicos em um momento em que o MEC corta orçamento, mas o DF amplia escolas integrais e paga bônus aos professores.
Os R$ 380 mil mantidos no orçamento cobrem contrato com o Núcleo de Computação Eletrônica da UFRJ para customização da imagem, atualizações de segurança específicas e canal de suporte de segundo nível para os técnicos da rede — uma lógica de investimento em infraestrutura que também ajuda a sustentar serviços públicos de alta demanda, como mostra o caso das UPAs 24h do DF atendem 3 milhões de consultas por ano. Migrar para software livre não é migrar para suporte zero. É migrar a origem do suporte.
Duas tentativas anteriores falharam
A rede do DF já tentou duas vezes. Em 2009, com o Linux Educacional 3.0 (base Debian). Em 2014, com Ubuntu 12.04 customizado. Ambas revertidas em menos de dois anos.
Motivos documentados: incompatibilidade com aplicativos pedagógicos da época e resistência dos professores. Dois fracassos consecutivos são dado, não azar. Qualquer terceiro ataque ao mesmo alvo precisa explicar o que mudou.
O que mudou é a arquitetura do aplicativo pedagógico. A maior parte do software educacional hoje roda em navegador. Khan Academy, Geekie Games, Plurall e o próprio Aprende Brasil funcionam em Firefox e Chromium sob Linux sem distinção de comportamento. A barreira de compatibilidade — que foi o gargalo de 2009 e 2014 — deixou de existir.
A BNCC orienta pensamento computacional. Scratch, Thunkable e App Inventor são nativamente disponíveis em distribuição livre. O vento está a favor.
Logística
O cronograma distribui 680 escolas em quatro lotes regionais. Lote 1: 142 unidades em Ceilândia, Taguatinga e Samambaia. Lote 2: 175 unidades do Plano Piloto, Lago Sul, Lago Norte, Cruzeiro, Sudoeste e Octogonal. Lote 3: 168 unidades em Gama, Santa Maria, Recanto das Emas e Riacho Fundo. Lote 4: 195 unidades em Paranoá, São Sebastião, Brazlândia, Sobradinho, Planaltina e Itapoã.
A imagem é distribuída por três vias: pendrives bootáveis, instalação remota por rede gerenciada e gravação direta nos equipamentos novos. Cada máquina leva 45 minutos para ser migrada, segundo testes dos técnicos da SEEDF na escola classe 16 de Ceilândia, eleita piloto em fevereiro.
Multiplique 45 minutos por 54 mil estações. O gargalo real da migração não é técnico. É mão de obra.
Capacitação — o verdadeiro teste
Vinte e oito mil e quatrocentos professores e técnicos administrativos precisam ser treinados. Dezesseis horas presenciais por turma, em parceria com a Escola de Aperfeiçoamento dos Profissionais da Educação. Foco: correspondência funcional. Word vira Writer, Excel vira Calc, PowerPoint vira Impress.
A enquete na unidade piloto, 30 dias depois da migração, mostrou: 73% fácil de usar, 18% dificuldade moderada, 9% difícil. Maior atrito: impressão em rede e pendrives formatados em sistemas mais antigos. São exatamente os pontos que mataram as duas tentativas anteriores.
Nove por cento de resistência dura em 28 mil pessoas é 2.556 professores. Se a operação perder esses 2.556, perde meios de comunicação interna, perde credibilidade. Execução de migração em massa se decide no atendimento do décimo dia, não na instalação do primeiro dia.
Soberania de dado
A nota técnica 003/2026 também argumenta sobre soberania. Os dados de professor e aluno passam a residir em sistema cuja arquitetura é auditável, sem dependência de fornecedor estrangeiro para atualização de segurança ou compatibilidade futura. O texto cita o Decreto 11.200/2022, que orienta órgãos federais a priorizar software livre quando houver equivalência funcional. O DF não está obrigado a seguir o decreto federal, mas usa o alinhamento como justificativa secundária.
Soberania não é argumento que sustenta sozinho uma migração desse porte. A economia de R$ 42 milhões sustenta. Soberania é o bônus que fecha a defesa.
Escala e histórico
A migração do DF não é experimento pioneiro. Munique, Viena e o estado indiano de Kerala operam redes educacionais em distribuição livre há mais de uma década. O Brasil tem Linux Educacional há 17 anos. O que é novo aqui é a escala: 54 mil estações, 680 unidades, 28 mil profissionais.
Se o cronograma for cumprido, o DF terá em janeiro de 2027 a maior rede pública educacional brasileira operando integralmente em software livre. Os R$ 42 milhões economizados serão a métrica mais visível. A métrica menos visível — e mais importante — será a taxa de reversão. Se passar de dois anos sem recuo, a mudança é estrutural. Se não passar, vira o terceiro fracasso.
A diferença entre os dois desfechos cabe em uma palavra: execução.
Perguntas Frequentes
- Escolas públicas do DF migram do Windows para o Linux: economia projetada de R$ 42 milhões?
- A Secretaria de Educação substitui o sistema operacional em 680 escolas públicas a partir de maio. A distribuição escolhida é o LinuxEducacional 6.0, ...
- Qual é o impacto desta medida no Distrito Federal?
- São 41.
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