
Estudantes no ICC Sul da Universidade de Brasília. Foto: Secom/UnB.
A UnB tem 51 mil alunos e 39% vêm de escola pública — um retrato em transformação
Quando Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro imaginaram a Universidade de Brasília em 1961, o argumento central era que a nova universidade da capital deveria ser um elevador social. Sessenta e cinco anos depois, os números mostram que, aos poucos, o elevador começou a funcionar.
Quando Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro imaginaram a Universidade de Brasília em 1961, o argumento central do projeto era que a nova universidade da capital deveria ser, antes de tudo, um elevador social. Uma instituição federal plantada no Planalto Central para formar quadros técnicos do Estado, mas também para impulsionar o desenvolvimento tecnológico da região, como se vê hoje com o data center que nasceu ao lado da UnB e processará 30% da IA pública do Brasil. E isto estava escrito no plano original.
Para absorver "a juventude brasileira em toda a sua diversidade regional e econômica".
Sessenta e cinco anos depois, os números consolidados pela própria universidade mostram que, devagar e com tropeços, o elevador começou a funcionar. A UnB tem hoje 51.234 alunos regularmente matriculados entre graduação e pós-graduação.
Destes, 39,4% dos ingressantes de 2025 vieram integralmente de escola pública — a maior proporção já registrada desde que o indicador começou a ser medido, em 2005.
O perfil que mudou em vinte anos
O contraste fica evidente quando se olha para a série histórica. Em 2005, antes do sistema de cotas, apenas 18% dos calouros da UnB tinham feito todo o ensino médio em escola pública.
Em 2013, primeiro ano de aplicação plena da Lei de Cotas federal, o número saltou para 29%. Em 2020, alcançou 34%.
Em 2025, chegou a 39,4%.
A tabela a seguir, construída a partir dos relatórios do Decanato de Ensino de Graduação e do Cebraspe, mostra a evolução:
| Ano | % ingressantes de escola pública | % autodeclarados pretos/pardos | Renda familiar mediana |
|---|---|---|---|
| 2005 | 18,1% | 21,3% | 5,8 salários mínimos |
| 2013 | 29,2% | 34,7% | 4,9 salários mínimos |
| 2020 | 33,8% | 41,2% | 4,1 salários mínimos |
| 2023 | 37,6% | 44,8% | 3,7 salários mínimos |
| 2025 | 39,4% | 46,3% | 3,4 salários mínimos |
Os dados acima refletem a evolução do perfil dos ingressantes em universidades, um aspecto crucial para o desenvolvimento do país, que também se orgulha de instituições como a UnB, cujas pesquisas de ponta na astronomia ganham destaque internacional.
A renda familiar mediana caiu de 5,8 para 3,4 salários mínimos em duas décadas. É o tipo de dado que os economistas da própria universidade classificam como "estatisticamente pequeno e sociologicamente gigantesco".
O aluno que entra hoje na UnB não é o mesmo aluno de vinte anos atrás. Essa transformação no perfil dos estudantes, que se reflete também no crescimento do ensino superior privado no DF, muda tudo. Muda a didática, muda a assistência estudantil, muda até o cardápio do Restaurante Universitário", afirma uma professora do Departamento de Sociologia. Pesquisa o tema há uma década e preferiu não ser identificada. Mantém projeto de pesquisa em andamento sobre o assunto.
Cotas raciais, cotas sociais e a sobreposição
A UnB foi a primeira universidade federal do país a adotar cotas raciais, em 2004, antes mesmo da Lei nº 12.711/2012. Desde então, o sistema se estratificou.
Hoje, o ingresso na graduação segue três grandes portas: ampla concorrência (50% das vagas). Cotas para escola pública com recorte de renda e raça (45%) e cotas específicas para indígenas, quilombolas e pessoas com deficiência (5%).
O dado mais revelador, segundo relatório do Decanato de Ensino de Graduação do ano anterior, é que 62% dos estudantes cotistas de escola pública que ingressaram em 2024 também se enquadravam no recorte de baixa renda. Ou seja, famílias com renda per capita de até 1,5 salário mínimo. Essa democratização do acesso ao ensino superior, que garante oportunidades para quem mais precisa, dialoga com outras tendências que transformam o cenário educacional, como o crescimento notável dos cursos a distância no DF. "Não é mais o filho do servidor público que usa a cota."
É o filho do pedreiro, da diarista, do motorista de aplicativo", resume o documento, em linguagem direta.
Os cursos mais concorridos continuam sendo Medicina, Direito, Relações Internacionais, Arquitetura e Engenharia de Computação. Em Medicina, o curso mais disputado da universidade, o percentual de ingressantes de escola pública no exercício anterior foi de 47,2% — número que, assim como a recente adesão de milhares de adultos ao ensino, nenhum planejador universitário dos anos 2000 teria considerado plausível.
O custo que não aparece na matrícula
A universidade pública é gratuita, mas estudar não é. Um levantamento feito pela Diretoria de Desenvolvimento Social da UnB no exercício anterior estimou. O custo médio mensal para um estudante de graduação que mora com a família no Distrito Federal é de R$ 1.820. Considerando transporte, alimentação fora do RU, material didático, vestuário e lazer mínimo.
Para quem mora sozinho ou veio do Entorno, o custo sobe para R$ 2.640.
O programa de assistência estudantil da universidade atende atualmente 6.840 alunos com bolsas permanência, auxílio moradia, auxílio alimentação e auxílio emergencial. A demanda represada é de cerca de 2.100 estudantes aprovados nos critérios, mas sem recurso orçamentário para serem atendidos.
"A gente tem alunos brilhantes que passam fome. Essa é a verdade crua", disse à reportagem a coordenadora de uma das casas do estudante universitário no campus Darcy Ribeiro.
"Eu já vi caloura de Engenharia Elétrica desmaiando na aula porque não comeu direito há dois dias. E não é caso isolado, é rotina."
O Restaurante Universitário serve em média 14 mil refeições por dia, com subsídio que mantém o almoço a R$ 2,00 para os estudantes de baixa renda — preço que não é reajustado desde 2019.
O que os números não contam
Há outro dado menos celebrado, mas. Aparece em todos os relatórios de avaliação interna: a taxa de evasão dos cotistas de baixa renda nos primeiros dois anos é sistematicamente maior. A dos alunos de ampla concorrência. Em 2024, 23% dos cotistas ingressantes em 2022 haviam abandonado o curso antes do quarto semestre, contra 11% dos alunos de ampla concorrência.
As razões, segundo relatório qualitativo do Decanato de Assuntos Comunitários, são previsíveis e dolorosas: trabalho informal. Concorre com as aulas, deslocamento de mais de duas horas a partir do Entorno, necessidade de sustentar a família, sofrimento psíquico associado à sensação de não pertencimento, e. O item que mais aparece nas entrevistas.
A percepção de que a universidade "não foi feita para gente como eu".
"O acesso está resolvido. A permanência não", sintetiza o relatório.
É nessa frase, seca e direta, que se mede a distância entre o sonho original de Anísio e Darcy e o campus real de 2026. A UnB tem 51 mil alunos.
Quatro em cada dez vieram de escola pública. Mas quantos vão sair com diploma?
Essa estatística, a universidade ainda não consegue responder com a mesma precisão.
Perguntas Frequentes
- Qual é o percentual de ingressantes de escola pública na UnB em 2025?
- Em 2025, 39,4% dos ingressantes de graduação na UnB vieram integralmente de escola pública, a maior proporção já registrada desde que o indicador começou a ser medido em 2005.
- Como a renda familiar dos estudantes mudou nos últimos vinte anos?
- A renda familiar mediana caiu de 5,8 salários mínimos em 2005 para 3,4 em 2025, refletindo maior participação de estudantes de baixa renda no campus.
- Qual é a taxa de evasão dos cotistas de baixa renda na UnB?
- A taxa de evasão dos cotistas de baixa renda nos primeiros dois anos é sistematicamente maior, chegando a 23% dos ingressantes em 2022 que abandonaram o curso antes do quarto semestre.
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