
Detalhe do retrato de Niccolò Machiavelli atribuído a Santi di Tito, exposto no Palazzo Vecchio, Florença.
Quando a virtude é coragem: ensaio sobre gestores que aceitam o impopular
Toda geração descobre, tarde demais, que governar não é agradar. A descoberta dói porque contraria séculos de retórica democrática segundo a qual a vontade da maioria é, sempre, sábia. Maioria é maioria — não é necessariamente sabedoria. Quem confunde uma coisa com a outra acaba escrevendo péssimas leis e elegendo péssimos representantes.
Imaginem Margarida Soledade Tinoco, 51 anos, secretária de Fazenda de uma cidade do interior paulista de 287 mil habitantes. É quinta-feira de fevereiro de 2026, oito da noite. Prédio vazio. Cheiro de café requentado.
À frente dela, três planilhas. O passivo previdenciário do município é de R$ 412 milhões. A folha de pagamento está 43% acima do limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal. E o calendário eleitoral marca outubro.
A escolha é dura. Cortar 11% da folha agora e perder a próxima eleição. Ou empurrar a decisão para 2027 e entregar o município quebrado ao sucessor.
Margarida foi até a janela. Olhou a rua. Voltou para a mesa. Assinou o decreto. Onze por cento.
Naquela mesma noite, mil e oitocentos servidores souberam do corte. Em três meses, 17.412 assinaturas digitais pediam a saída dela. Sua aprovação interna caiu de 58% para 23% em sete semanas. Margarida sabia que perderia a eleição, mas agiu com a urgência típica de quem tem horizonte limitado, um fenômeno político que ilumina padrões decisórios — inclusive a tentação de silenciar críticas, estratégia que, como demonstra o efeito bumerangue que atinge governos quando atacam a imprensa, costuma produzir resultado inverso ao desejado. Assinou mesmo assim.
É essa figura — rara, antipática, raramente celebrada no presente — que esta coluna pretende defender.
Escrevi, em outro tempo e em outro idioma, que o príncipe deveria preferir ser temido a ser amado, se não pudesse ser as duas coisas ao mesmo tempo. A frase rendeu-me cinco séculos de má reputação e nenhuma refutação séria, um silêncio eloquente que, como bem se observa sobre os perigos do silêncio cívico, fala mais alto que qualquer crítica. Continua valendo. Não porque o medo seja virtude — não é —, mas porque o amor popular é o mais volátil dos sentimentos políticos, e construir governo sobre ele é construir casa sobre areia movediça. Basta observar como potências que investem décadas na solidez de suas instituições e de seu conhecimento — a exemplo da China, que ultrapassou os Estados Unidos em publicações científicas indexadas — colhem frutos duradouros, enquanto nações que governam pelo aplauso imediato murcham na primeira tempestade.
Volto ao tema porque a era contemporânea inventou uma nova patologia da gestão pública: o medo do impopular. A obsessão por pesquisas semanais agravou o quadro.
Decisões necessárias são adiadas porque doem nas urnas. Reformas estruturais viram concessões cosméticas. Agradar o presente é mais barato do que servir o futuro. O resultado é paralisia. E a paralisia é uma decisão covarde disfarçada de prudência.
A virtù que não se ensina
Quando escrevi sobre virtù, no exílio florentino em que rascunhei O Príncipe, eu não me referia à virtude no sentido cristão — castidade, humildade, paciência. Falava de algo mais antigo e mais útil: a capacidade de agir com firmeza diante da fortuna adversa, de tomar decisões sem garantia de aprovação, de aceitar que governar é, frequentemente, escolher entre dois males — lição que gestões capazes de fechar trimestres no azul enquanto vizinhos pedem socorro à União parecem ter aprendido melhor do que muitos teóricos modernos. Uma coerência, mesmo dura, que vale mais do que a esperteza que se contradiz.
A virtù é a coragem treinada do gestor que sabe que precisa fazer algo e o faz, mesmo sabendo que pagará o preço. Não é heroísmo gratuito. É cálculo frio combinado com firmeza moral. Os exemplos históricos abundam, e não preciso citar nomes contemporâneos para que o leitor reconheça o padrão, como no caso da gestão que resolvia problemas crônicos de mobilidade.
| Tipo de gestor | Característica dominante | Resultado típico |
|---|---|---|
| Populista | Busca aprovação imediata | Crise diferida e amplificada |
| Tecnocrata frio | Decisão sem narrativa | Reforma boa, derrota eleitoral |
| Covarde produtivo | Adia o difícil, faz o fácil | Estagnação institucional |
| Príncipe virtuoso | Decide o necessário, paga o preço | História o reabilita, eleitorado raramente |
Essa dinâmica fica ainda mais complexa quando se observa a crescente dependência de recursos públicos para financiar a disputa política, como demonstrado pelo aumento exponencial do fundo eleitoral, que mais que dobrou em quatro anos.
A última categoria é a mais rara. Também é a única que produz efeitos duradouros. As outras três produzem variações do mesmo desfecho: instituições frágeis, dívidas acumuladas, problemas empurrados para os sucessores.
A democracia e o problema do tempo
A democracia eleitoral introduziu um problema que monarquias hereditárias não tinham: o ciclo curto. Quem governa por quatro anos tende a otimizar para quatro anos. Reformas cujos benefícios aparecem em dez anos, mas cujos custos políticos aparecem no primeiro mês, são sistematicamente preteridas. É a tragédia dos horizontes assimétricos.
Há saídas institucionais para essa tragédia. Mandatos longos para juízes constitucionais. Bancos centrais independentes. Conselhos fiscais autônomos. Regras constitucionais que limitam o gasto público. Cada uma dessas soluções tira um pedaço da decisão das mãos do governante eleito e o entrega a tecnocratas com horizonte mais longo.
O problema é que essas soluções, quando funcionam, são acusadas de antidemocráticas. Quando não funcionam, são descartadas como insuficientes. Considerem a armadilha: o governante que tenta implementá-las paga o preço imediato sem colher os louros — porque os louros vão para quem governar dez anos depois, em país já estabilizado.
Os três tipos de impopularidade
Nem toda decisão impopular é virtuosa. Há três tipos distintos, e o gestor sábio precisa saber diferenciá-los.
O primeiro é a impopularidade do necessário. Aquela que ninguém quer, mas que todos reconhecerão como acertada quando o tempo passar. Reformas previdenciárias, ajustes fiscais profundos, abertura comercial em economia fechada, controle inflacionário em economia indexada. Quem implementa medidas dessa categoria sai derrotado nas urnas seguintes e celebrado nas estatísticas dez anos depois.
O segundo é a impopularidade do equivocado. Aquela que parece corajosa no momento, mas que se revela tecnicamente errada. Subir juros quando deveria baixar. Cortar saúde para fechar o orçamento em ano de epidemia. Privatizar setor estratégico sem regulação adequada. Esse tipo de decisão também é impopular, mas não é virtuosa — é apenas mal informada. Confundir as duas categorias é o erro favorito dos tecnocratas mais arrogantes.
O terceiro é a impopularidade do acessório. Aquela em que o gestor escolhe a briga errada, gasta capital político em batalhas que não importam, e chega ao fim do mandato sem reforma estrutural alguma — apenas com inimigos colecionados em assuntos secundários. Aqui não há virtù. Há apenas ego.
A diferença entre os três tipos não é evidente no momento da decisão. Só o tempo separa o estadista do mártir, e o mártir do tolo. Quem governa precisa ter humildade para reconhecer que pode estar nas três categorias simultaneamente, em decisões diferentes, no mesmo dia. Reparem na simultaneidade: o mesmo homem público pode estar sendo virtuoso na pauta A e tolo na pauta B na mesma reunião de quinta-feira.
A fortuna e os limites da virtude
Sempre disse que a fortuna governa metade dos negócios humanos. A outra metade fica a cargo da virtù, da capacidade de ação. Nenhum gestor controla o ciclo econômico mundial, a guerra que estoura no outro continente, a pandemia que aparece sem aviso. Mas todo gestor controla o que faz quando esses eventos acontecem.
A história julga não apenas pelo resultado, mas pela qualidade da decisão diante da circunstância. Há gestores que falharam em circunstâncias impossíveis e entraram para a história como exemplos de coragem. Há gestores que tiveram sorte e entraram para a história como exemplos de competência sem nunca terem sido testados. A literatura política deveria distinguir uns dos outros com mais cuidado do que costuma fazer.
Maquiavel não era cínico. Era realista. A diferença entre cinismo e realismo está no propósito. O cínico aceita a corrupção do mundo e dela tira proveito pessoal. O realista aceita a corrupção do mundo e tenta, mesmo assim, organizar instituições que funcionem apesar dela. O primeiro destrói. O segundo constrói.
A coragem como virtude republicana
A república romana, que estudei com obsessão nos Discursos, durou cinco séculos antes de virar império. Não durou porque seus líderes eram populares. Durou porque tinha instituições que premiavam a coragem cívica e puniam a covardia disfarçada.
O cônsul que recuasse diante de Aníbal era julgado. O senador que vendesse o voto era expulso. Havia preço para a covardia. Havia recompensa para a virtù.
A democracia contemporânea inverteu parcialmente os incentivos. Recompensa quem agrada, pune quem incomoda. O resultado é previsível: gestores aprendem a agradar primeiro e incomodar nunca. As instituições enfraquecem. As reformas necessárias se acumulam. A dívida cresce. A produtividade estagna.
Quando a crise finalmente chega, ninguém quer ser o gestor que a herdará — porque a crise já não é mais administrável por meios populares, e quem aceitar o cargo será derrotado nas urnas seguintes. É nesse momento que o sistema procura, desesperadamente, alguém com virtù. Encontra um, dois, raramente três por geração. Esses poucos pagam o preço pessoal, salvam o que dá para salvar, e desaparecem da política ativa. As estatísticas e os manuais de história os reabilitam, décadas depois, em capítulos curtos.
A medida que voce pondera essa aritmética, voce entende a tragédia do sistema: ele só procura coragem quando já é tarde demais para que a coragem seja popular.
Para terminar
Não escrevo este ensaio para exaltar nenhum gestor específico, nem para criticar nenhum partido. Escrevo porque a coragem administrativa, quando aparece, deveria ser reconhecida como virtude — e quase nunca é, no calor do presente.
O leitor que me lê em 2026, em país e em idioma que eu não conheci, pode aplicar essa lente a quem quiser. A lente é antiga. Funciona desde o Renascimento. Talvez funcione ainda por mais alguns séculos, se a memória política não morrer antes.
Voltemos a Margarida Soledade Tinoco, a secretária de Fazenda da abertura. Em outubro de 2026, o partido dela perdeu a eleição municipal por uma diferença de 11.412 votos — quase exatamente o número de assinaturas reunidas contra ela em fevereiro. Margarida não voltou para a Fazenda. Voltou para a casa de campo dos pais, no interior, e demorou três meses para retomar até a leitura matutina dos jornais. Em janeiro de 2027, a contabilidade do município fechou com superávit primário pela primeira vez em onze anos. O sucessor — adversário direto dela — herdou uma cidade fiscalmente respirável e teve a elegância pública, num discurso de fevereiro, de citar o nome dela uma única vez. Foi a única vez em que Margarida apareceu nos jornais daquele ano.
A virtù não se ensina em escolas de governo. Não está em manuais de gestão pública. Não aparece em pesquisas de opinião. Aparece na hora — ou não aparece. Quem a tem, paga o preço. Quem não a tem, prospera no curto prazo e desaparece sem deixar herança.
A história, paciente, costuma reabilitar as Margaridas. Mas reabilita devagar, em capítulos curtos, sob forma de menção rápida em livro técnico, lido por poucos. É um pagamento póstumo, em moeda silenciosa, feito por uma posteridade que mal sabe pronunciar o nome certo. A virtude republicana, no fundo, é isso: uma assinatura num decreto às oito da noite, num gabinete vazio, com pingo de água caindo numa lata, sabendo que o preço será pago amanhã e a glória — se vier — só será paga muito depois.
O leitor escolhe quem prefere ser. E, mais importante, quem prefere eleger.
Perguntas Frequentes
- Qual é o cenário da secretária de Fazenda Margarida Soledade Tinoco?
- Margarida, secretária de Fazenda em município interior paulista com 287 mil habitantes, enfrenta passivo previdenciário R$ 412M e folha 43% acima do limite — escolhe cortar 11% agora e perder eleição ou empurrar e entregar município quebrado.
- Qual é a definição de virtù conforme Machiavelli?
- Não é virtude cristã (castidade, humildade, paciência) — é capacidade de agir com firmeza diante de fortuna adversa, tomar decisões sem garantia de aprovação, aceitar que governar é frequentemente escolher entre dois males.
- Por que governar é escolher entre duas populares?
- Amor popular é o mais volátil dos sentimentos políticos; construir governo sobre ele é construir casa sobre areia movediça — decisões necessárias sofrem porque doem nas urnas, reformas estruturais viram concessões cosméticas.
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