
Captura de tela de um agente de IA propondo edições de código enquanto o programador supervisiona. Karpathy chama esse padrão de novo nome: agentic engineering. Foto: divulgação.
Karpathy decreta o fim do 'vibe coding' e propõe nome novo: engenharia agêntica
Há pouco mais de um ano, Andrej Karpathy popularizou no Twitter um termo curto que viralizou no universo dos desenvolvedores: vibe coding. A definição era provocadora — programar abraçando a exponencial, esquecendo que o código existe, deixando o agente fazer e quase nem ler o que ele entregou. Tornou-se palavra de ordem para uma onda de prototipação acelerada. Em 2026, segundo reportagem do The New Stack e correspondência analítica do Buttondown, o próprio Karpathy passou a defender que o termo já está ultrapassado. O substituto que ele propõe é mais sóbrio: agentic engineering. O sentido mudou. Vale entender por quê.
Antes de tudo, vale recolocar o vibe coding no seu contexto original.
Em fevereiro de 2025, Karpathy publicou um tweet curto. Descrevia como tinha começado a usar Claude e Cursor para programar projetos pessoais — protótipos rápidos, scripts pequenos, experimentos descartáveis.
A maneira de trabalhar, ele dizia, mudou. Em vez de ler cada linha gerada pelo agente, ele aceitava, rodava e via se funcionava. Quando funcionava, seguia. Quando falhava, descrevia o problema em linguagem natural e deixava o agente consertar.
Era programar, mas com um afastamento curioso da própria matéria. Daí o nome: vibe coding. Você programa pelo sentimento — pela vibe — de que o resultado está mais ou menos indo na direção certa, sem se prender ao detalhe sintático. Não por acaso, é exatamente essa lógica que inspira pensadores como Andrej Karpathy a imaginar um software cada vez mais sob medida, onde a intenção importa mais do que a instrução precisa.
Foi um termo certo para o momento certo. Capturou em duas palavras uma mudança de relação com o ofício.
O que mudou na cabeça de Karpathy
Um ano depois, Karpathy passou a usar uma linguagem diferente. Em entrevistas e tweets do início de 2026, ele faz questão de reposicionar o vibe coding como uma fase específica e limitada, adequada para protótipos descartáveis e brincadeiras pessoais — mas inadequada para o trabalho sério de quem está construindo algo que vai durar. Não por acaso, é o mesmo Karpathy que admitiu nunca ter se sentido tão atrasado como programador, sinal de que a autocrítica sobre os limites do vibe coding faz parte de uma reavaliação mais ampla sobre o papel do desenvolvedor neste novo cenário.
O nome novo que ele propõe é agentic engineering — engenharia agêntica. A diferença, traduzindo para os termos da própria discussão dele, é mais ou menos esta: o vibe coding minimiza a participação do humano e celebra o afastamento. A engenharia agêntica reposiciona o humano como diretor do processo, com supervisão constante, decisões deliberadas sobre o que delegar, sobre o que revisar, sobre o que rejeitar.
A frase recorrente nas entrevistas dele é, na minha leitura desta coluna, mais ou menos esta: o trabalho real com agentes hoje é menos sobre "deixar fazer" e mais sobre orquestrar com arte. Não é uma capitulação à automação total — e vale lembrar que, mesmo quando Karpathy deixou um agente iterando livremente por dois dias, o experimento só ganhou sentido porque havia uma inteligência humana definindo o problema, avaliando os resultados e decidindo o que transferir para modelos maiores. É uma profissão nova — semelhante, em alguns aspectos, ao que faz um diretor de cinema ou um maestro de orquestra: cada um dos seus músicos é capaz de coisas que o maestro não consegue executar sozinho, mas é o maestro quem decide quem entra quando, quem acelera, quem reduz, quem é cortado.
Por que o termo importa
Você pode estar lendo esta coluna e pensando: tudo bem, ele mudou de palavra. Por que isso é notícia?
Há duas razões.
A primeira é prática. Quando uma palavra ganha tração no campo, ela define expectativas. Vibe coding criou uma expectativa simples: largar o agente trabalhando, ver se funcionou, seguir em frente.
Para protótipo descartável, isso serve. Para sistemas em produção, é receita de desastre. Karpathy popularizou o termo original e, mais recentemente, defendeu que o campo precisa calibrar melhor suas expectativas de tempo. Agora ele puxa o vocabulário do campo para um lugar mais responsável. É higiene linguística — e afeta como milhares de programadores juniores vão entender o ofício.
A segunda é conceitual. A engenharia agêntica, no jeito como Karpathy a desenha, traz de volta para o centro do trabalho algumas habilidades que o vibe coding tinha empurrado para a margem: revisão atenta, julgamento técnico, definição clara de critérios de aceitação, escolha consciente de quando confiar e quando desconfiar do que o agente entregou. Essas habilidades não desapareceram do ofício — apenas tinham ficado eclipsadas pela alegria da primeira geração de ferramentas que finalmente pareciam funcionar.
Em outras palavras: o ofício amadureceu em um ano. E o vocabulário precisou amadurecer junto.
O programador como maestro — e o que essa metáfora exige
Vamos pegar a metáfora do maestro a sério por um momento, porque ela ajuda a entender o que Karpathy está apontando.
Um maestro precisa, primeiro, conhecer profundamente a partitura — o código, no nosso caso. Não precisa tocar todos os instrumentos, mas precisa saber ler o que cada instrumento está fazendo. Um maestro que não sabe ler partitura é só uma figura decorativa.
Segundo, precisa de uma orelha treinada para detectar dissonâncias imediatamente. Quando o violino entra fora do tom, ele não pode demorar três compassos para perceber. Tem que parar a orquestra na hora. Para o programador agêntico, isso significa: quando o agente entrega código com bug sutil, você tem que detectar antes que esse bug vá pra produção. Sua leitura de código precisa estar afiada — o oposto do esquecer-que-o-código- existe da fase vibe.
Terceiro, o maestro precisa ter visão do todo. Sabe para onde a sinfonia está indo, quais são os movimentos, onde estão os clímax. Para o programador agêntico, isso é arquitetura — saber onde cada peça do sistema se encaixa e quando vale a pena mudar a estrutura inteira em vez de apenas ajustar uma função.
Note como nada disso é desafiador para iniciante. Tudo isso é trabalho de profissional experiente, repaginado.
A leitura para o programador brasileiro
Quem programa no Brasil em 2026 e se anima com a ideia de vibe coding precisa, na minha leitura, escutar o que Karpathy está fazendo neste deslocamento de vocabulário.
A primeira lição é honestidade sobre o uso atual. Vibe coding serve para protótipo pessoal, hackathon, ferramenta interna que nunca vai ver a luz do dia. Não serve para o sistema que vai processar pagamentos, salvar prontuário, controlar infraestrutura crítica. A fronteira é nítida e precisa ser respeitada.
A segunda lição é estética. A palavra engenharia em "engenharia agêntica" está lá de propósito. Engenharia tem métodos. Tem revisão por pares. Tem testes. Tem documentação. Tem versionamento. O programador que se chama de engenheiro agêntico está se comprometendo com tudo isso, não fugindo disso.
A terceira lição é gerencial. Empresas brasileiras que estão montando equipes de "AI engineer" em 2026 deveriam, na minha leitura, contratar gente que sabe ler código atentamente, e não gente que sabe largar agente trabalhando sozinho. A primeira turma vai entregar sistemas que funcionam. A segunda turma vai entregar protótipos que viram dívida técnica.
E o vibe coding, fica onde?
Karpathy não jogou fora o conceito. Ele apenas o reposicionou como uma fase — uma fase boa para começar, para experimentar, para se familiarizar com o que o agente pode fazer. Mas é uma fase, não um destino.
Fecho com uma observação que não está nos tweets dele, mas me parece coerente com o tom. Nomes importam porque definem para onde uma comunidade caminha.
Quando milhares de desenvolvedores juniores se chamam de vibe coders, assumem certas posturas. Quando se chamam de engenheiros agênticos, assumem outras. A escolha da palavra é uma escolha de identidade profissional.
Karpathy, no momento mais influente da própria carreira, está escolhendo, com intenção, virar essa página.
Fonte original: reportagens do The New Stack e do Buttondown — The End of Vibe Coding, ambas publicadas em março de 2026 a partir de declarações de Andrej Karpathy em eventos públicos e no perfil dele no X.
Perguntas Frequentes
- O que é vibe coding e por que Karpathy acha que terminou?
- Vibe coding é programar abraçando o agente, deixando-o fazer sem revisar cada linha. Karpathy agora defende que esse termo está ultrapassado porque requer supervisão, expertise e orquestração ativa — não é só clicar accept.
- Qual é a diferença entre vibe coding e agentic engineering?
- Vibe coding é passivo e descontraído. Agentic engineering é uma disciplina onde o programador orquestra agentes com intencionalidade, revisa decisões críticas e mantém controle sobre a qualidade e direção do código.
- O que mudou na visão de Karpathy sobre programação com IA?
- De um extremo de total confiança no agente para um modelo mais equilibrado: trabalhar com agentes exige expertise, julgamento crítico e supervisão constante. Não é menos produtivo, mas é mais intencional.
Receba o Mirante no seu email
As principais notícias do dia, curadas por inteligência artificial, direto na sua caixa de entrada.